Foi um pouco depois de começar aqui no Substack: vendo minhas vizinhas de plataforma enfileirarem leituras de ficção – e, mais, sempre trazerem boas dicas da categoria – eu passei a priorizar romantes aos livros de negócios ou saúde que dominavam minhas horas-livro. Não que eu não lesse ficção antes, não que eu não tenha continuado devorando livros não ficção depois… mas, de fato, ali abri um caso de amor com histórias que não queriam me ensinar nada (mas ensinavam um bocado) nem visavam aumentar meus índices de produtividade ou criatividade (plot twist: elas aumentavam também!).
O mundo me engoliu. Nos dois últimos anos, as pilhas de livros comprados cresciam em ritmo inversamente proporcional à minha capacidade de concentração, ao meu tempo de leitura. Culpa das telas (do Tiktok, uma anestesia do mundo real), culpa daquele “eu mereço” que nos leva mais rapidamente para diversões rápidas, culpa da ansiedade de vídeos rápidos na qual (quase) todos estamos inseridos. A vida endurece e a gente só quer se alienar ouvindo histórias de pessoas desconhecidas ou, no máximo, descobrindo um monte de produtos milagrosos de beleza que nem necessários são.
Hoje eu “me perdi” em uma livraria que amo, enquanto estava muito brava e irritada por conta de estresses caseiros. E, ali, enquanto me acalmava, fui vendo em quantos mundos a gente pode entrar quando precisa sair do nosso por um tempo. Por meio da leitura de histórias, por meio de pessoas distantes e ao mesmo tempo tão próximas, por meio de personagens que talvez nunca conheceríamos, mas que, com outras palavras, podem traduzir exatamente o que e como estamos nos sentindo. As mudanças, as superações, os recomeços e os simples passeios feitos de dentro do nosso quarto… tudo isto é um presente, um privilégio. E um privilégio que só os livros de ficção podem nos entregar.
O resumo da tarde foi a compra de mais três títulos para minha pilha, livros que até por uma questão filosófica vão furar todas as filas de leituras: um me atraiu pela capa/sinopse, outro por parecer tão distante e tão próximo da minha realidade (uma antítese, eu sei) e o terceiro por ser de uma autora que tem roubado toda minha atenção ultimamente, por tratar com tanta poesia a relação de mulheres de meia idade com os desafios da maternidade de crianças que não são mais crianças. Tenho certeza que os livros que nos chamam, ali no meio de uma multidão de prateleiras, são aqueles que têm algo a nos entregar.
Eu não sei quem eu seria sem a companhia dos livros, os que eu leio, os que eu quero ler e até aqueles que só formam pilhas carentes nos cantos da minha casa esperando sua vez de entrarem na roda!
{Abaixo, também nesta edição, na versão premium: o jornalismo independente como resposta para o etarismo (feminino, em especial); as marcas de beleza anos 90 com carga nostálgica; a presilha do século passado em versão gen Z hypada e o primeiro texto público de Maria Helena Zorzi com o review do novo livro a respeito de crianças/adolescentes e telas}

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