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Alquimia Fotográfica · Sep 18, 2024

O preço da imagem

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Samanta Ortega · Alquimia Fotográfica

Aqui, insira um narrador. Um narrador daqueles bem televisivos, com voz de chiado, terno, sorriso branco e topete. Um narrador onisciente, observador imparcial da realidade objetiva. Confiante ele afirma, messiânico, o que todos temíamos:

São tempos difíceis para estar vivo. Toda geração tem seus desafios para lidar desde que o mundo é mundo, mas a diferença dessa vez é que talvez não tenha um mundo para as próximas gerações. De uma forma concreta, presente, observável e testemunhável, senhoras e senhores, finalmente: o fim do mundo. Diante dos seus olhos. Podem ver, podem tocar. Especialistas afirmam: É agora que o negócio ficou sério.

Não foi por falta de aviso. Não foi por falta de nada. Aliás, até a falta das coisas vem de certos excessos e escolhas infelizes. A troca permanece sendo clara: não existe almoço grátis. Essa frase tão famosa referia-se à prática comum de oferecer tira-gostos, petiscos salgados, nos bares do século 19. O objetivo: vender mais cerveja. Ilude-se quem acredita que não existe um preço a se pagar. Em dinheiro, com juros. As crises são o resultado e o que fizemos com o mundo é consequência das nossas próprias ações, da nossa falta de consciência. Se tivéssemos feito nossa parte, nada seria desse jeito. Como se diz? A gente colhe o que planta, não é? Elegemos o governo errado, idolatramos os líderes errados, fomos maus cidadãos deste nosso mundo. Acabou. Agora só nos resta ir nos adaptando a este novo normal. Uma boa noite a todos, vocês ficam agora com o novo capítulo da novela das 9.

E pior que o almoço até poderia ser grátis

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Essa é uma das frases que mais me assusta. Ou melhor, o contexto, o tom e as situações nas quais mais a escuto me assustam. Geralmente vem com um suspiro, em ares de ‘que-fazer’ e cabeças baixas. E eu concordo, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, e isso é, na verdade, só mais um lembrete explícito de que enfrentamos uma enorme crise de imaginação. Se o imaginário foi tão poluído ao ponto de que não é concebível sequer arriscar um desvio do sistema vigente nas nossas ideias, aí sim, pode-se dizer que estamos perdidos.

Esses tempos ouvi novamente uma linda conversa de Ailton Krenak com Eduardo Viveiros de Castro onde, de forma perspicaz, o Eduardo me lembrou que a minha geração (a nossa, já que provavelmente compartilho uns 15 anos de existência com a maioria de quem me lê aqui, pra mais ou menos) é a primeira geração que não parece demonstrar esperança alguma no futuro. Uma geração inteira de pessoas que nasceu no fim do mundo. Nessa conversa, Viveiros de Castro também partilha, ao que Krenak balança o chocalho pra espalhar a força dessas palavras pelo cosmos todo: "Vocês querem saber como é o fim do mundo? Perguntem aos povos indígenas. Eles experienciam o fim do mundo desde a chegada do homem branco. O mundo deles acabou em 1490, e eles ainda estão aqui." 

Trecho de um post meu de novembro de 2023, referindo-se a esse vídeo :

Acho que já é claro pra quem acompanha meu trabalho e o que escrevo/pratico que não acredito no fim do mundo como ferramenta útil para inspirar mudança. O medo e a incerteza são inevitáveis (e necessários), mas desespero não é arma, é uma armadura larga demais que faz a gente tropeçar. Também já ficou perceptível para muita gente o quanto jogar a toalha não apaga incêndio nenhum e se afundar em descrença é muito perigoso. Falar de um futuro possível parece loucura frente a um presente de destruição, mas a verdade é que é muito mais difícil querer viver se não se tem pelo que viver - e para ter pelo que viver, é preciso amor pelo que carrega potência de vida, sejam elas vidas que já foram, que estão sendo, ou que ainda serão.

Me preocupa profundamente a esterilidade do nosso imaginário, em principal as histórias fatalistas e de perdição. Otimismo não é sinônimo de ingenuidade e esperança não é indicativa de negação da realidade. Ousar imaginar uma construção outra que não aquela que aparenta ser a única possível é uma prática de fé que mistura a decência-boniteza integral ao pensamento crítico. 

Ao passo que são feitas mais imagens de desastres, me pergunto também: Quantas imagens serão feitas contando histórias que pretendem nos sensibilizar ao cuidado com a vida e com o outro? Quantas imagens podemos criar sobre refúgios dentro da barbárie? Quantas imagens propõem engajamentos diferentes com os territórios onde vivemos? Quais imagens podem ser feitas para nos oferecer uma opção de sonho?

Imagem da série autoral Afeto, que realizei em 2021

“Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade.”
Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia

A imaginação e a criatividade são recursos preciosos a serem protegidos. O corpo colonizado, explorado, exausto e doente espelha, mais visivelmente do que nunca, a situação de nossas vidas-companheiras, organismos de plantas, águas, bichos. Curar somente o corpo humano enquanto o corpo da Terra perece é impossível. Se a Terra não estiver bem, nós nunca estaremos. Sim, é ilógico pensar, por exemplo, que nós, pessoas em contextos urbanos no sudeste, possamos apagar um incêndio florestal na Amazônia com nossas próprias mãos. Não podemos. Mas parte de entender-se como agente de mudança no mundo é constantemente voltar a ser do nosso próprio tamanho. Estar aqui, agora, limita (e, esperançosamente, inspira) nosso escopo de ação imediata ao aqui, agora. A era na qual vivemos é notória por nos afrontar com uma quantidade de informação (que tem sua esmagadora maioria ilustrada, representada e, por vezes, inteiramente feita de imagens) maior do que um sujeito jamais seria capaz de aguentar receber. O que podemos ficar sabendo em 5 minutos de feed é insustentável de se digerir, assentar e, convenhamos, filtrar. O arquipélago da imaginação vira um aterro lotado. O que vemos e entendemos a partir disso invade o nosso ser e a forma de tudo o que fazemos, e mais importante ainda, a forma como fazemos.

A ideia de que “os fins justificam os meios”, em seu sentido popular, também pode ser percebida nas imagens. Sabendo da importância que a fotografia coloca no resultado atingido - a imagem criada e reproduzida/reprodutível, será que podemos olhar para elas e, simultaneamente, pensar: O que custou para que essa imagem exista? Para quem/para que essa imagem existe? Quais as consequências de imagens que desvalorizam um imaginário para exaltar o outro? Qual o custo de propagar, através dessa imagem, esta história e não aquela? Quais histórias sequer puderam existir dentro das imagens? Quem tem direito sobre a própria história quando ela está sendo contada através das imagens? 

Pode parecer exagerado relacionar uma frase que causa tanto desconforto moral quanto essa para se referir ao fazer fotográfico na prática, mas ainda se diz que a fotografia é o ato de congelar o tempo (como se o tempo fosse congelável e estático), ainda se acredita que uma imagem de qualidade só pode ser atingida através da compra dos melhores equipamentos (fabricados por quem, onde e em quais condições?), ainda se fazem projetos que ganham prêmios às custas do esgotamento e desvalorização dos profissionais, ainda não se discute o suficiente as implicações éticas de determinadas imagens em projetos documentais. O próprio uso de ferramentas de IA é emblemático, sendo um dos melhores exemplos que temos atualmente do quanto como as imagens são feitas importa tanto, senão mais, do que a imagem “final” em si.

O pensamento da linhagem experimental já contribui há muito tempo com o argumento de que os meios são própria obra e não existe fim a ser alcançado que não se torne um novo começo. Nessa forma de criação de imagens fotográficas, o cuidado com as etapas que justificam, montam e constroem o que se vê resulta em um constante tornar-se da imagem em uma versão de si própria que é inegavelmente inacabada. Assim, podemos reconhecer que todas as imagens são vivas por serem moldadas, trabalhadas, reviradas, inventadas e vertidas pelo interesse de quem as manipula.

Na prática, as imagens em fotografia podem ser uma estratégia de resistência e proteção ao imaginário. Onde os fins não existem, os meios são tudo o que temos. Fazer arte, cultura e educação emergente envolve sustentar uma permanente recusa às narrativas que nos trouxeram até o fim do mundo e uma animação das que nos carregaram até aqui e carregarão até a utopia. Os mitos do capitalismo, da colonização, da branquitude, do cis-hétero-patriarcado e as estratégias que envolvem a exploração de recursos, modelos de governança e economia que prezam destruição, e uma organização social marginalizadora são partes do imaginário que vivemos - mas são parte de uma narrativa. Existem outras. Já existiram outras. Haverá de existir outras. Não podemos parar de fazer outras. Qual tem sido o custo da nossa recusa em refletir criticamente sobre o próprio processo criativo? Qual o tamanho do prejuízo ao futuro de uma sociedade que é desencorajada a imaginar?

O Beijo, pinhole de 2022

Ao me perguntar, enquanto artista da imagem, enquanto educadora de arte e enquanto ser humano na Terra, o que pra mim sai caro, começo a perceber através desse ato reflexivo uma composição de valores que servem para contornar minha existência e que me oferecem rotas para incorporar o que me importa ao estar nos lugares de ação onde minha contribuição é requerida e essencial. É nessa incorporação - no procurar tornar-se o que se acredita - que o imaginário pode se nutrir. Através da recusa de conferir poder aos modelos de mundo acabado, o portal das múltiplas possibilidades de uma outra existência, tão fundamental à criação artística, permanece aberto. 

Me recuso a bancar narrativas de exploração, de competição, de concorrência, de meritocracia. Me recuso a bancar uma sala de aula onde o conhecimento é transferido e não construído, a contribuir com ações que formam uma comunidade artística mesquinha e egoísta, a aplaudir sem discernir, a não questionar a existência uma mesa centenária que já têm seus lugares marcados, reservados com nome e sobrenome. Me recuso a contribuir com a ideia de que quem sabe mais é quem tem diploma, que quem merece mais respeito é quem tem mais número e quem vale a pena é só quem tem algo a me oferecer. Me recuso a sustentar a idolatria de pessoas, instituições, conceitos que perpetuam injustiça e dinâmicas disfuncionais. Me recuso a enxergar o semelhante como ameaça à minha autenticidade, a acreditar no conceito de gênio, de prodigismo, de inatismo e, especialmente, de ineditismo. Me recuso a bancar uma carreira como criadora-mediadora que me faça ser um produto e não uma pessoa. Me recuso a ver meus colegas e companheiros como qualquer outra coisa que não pessoas. Pessoas que nem sempre gosto, concordo, entendo e aceito, que nem sempre me gostam, concordam, entendem e aceitam, mas pessoas. 

O que a gente anda bancando?
Se o preço a ser cobrado é a abundância revolucionária do imaginário, talvez esteja saindo caro demais.

O projeto Alquimia Fotográfica é uma iniciativa interdisciplinar de educação, criação e pesquisa em fotografia e cinema voltado ao material fílmico que centraliza a artesania das imagens, laboratórios eco conscientes e publicações que contemplam a fotografia como fenômeno da coletividade, do tempo, da natureza e da política dos processos artísticos.

Dentre várias coisas legais que foram produzidas nos últimos tempos, convido a dar uma olhada nessas aqui:

Zine digital gratuita | Fenóis e Filmes - imaginando a revelação fotográfica a partir da flora brasileira

Para baixar o material, acesse: https://www.alquimiafotografica.co/educa%C3%A7%C3%A3o-e-difus%C3%A3o

Faça sua contribuição voluntária à pesquisa após o download via PIX para floraefilme@gmail.com ou oferecendo uma contribuição recorrente de R$5, R$10 ou R$20 no apoia.se https://apoia.se/floraefilme

Como já sabem, outro jeito maneiríssimo de apoiar meu trabalho é, bem, me chamando para trabalhar! O link para o site/portfolio é esse aqui

Sinta-se a vontade para compartilhar esse post. Se quiser, acompanhar meu trabalho o Instagram é @floraefilme .

Read the original on alquimiafotografica.substack.com

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