Redonda é a terra de tanto girar em si mesma.
O vazio que a moldou a queria assim.
A redondeza é fruto da paciência.
Todo traço cedendo à curva.
Belo arco-íris!
Sempre seremos este salto e esta queda
onde o nome abre ao nome que o habita;
Onde a cor se abre e a cor se consome?
O vazio é mais vazio após o incêndio.
E depois essa errância que sempre se renova
E essa necessidade urgente, patética, de morrer disso.
Edmond Jabès, Carta a M.C., 19891
Essa chuva me traz a sensação de que as coisas não vão melhorar. A noite de ontem foi mais uma das diversas noites deste ano em que meus pulmões inflavam e meu rosto inflamava a cada novo round de umidade máxima. Não sei se cheguei a dormir ou se só passei uma ou duas horas levitando no espaço entre o sono e o desespero de não conseguir cair no sono. Nem respirar direito. De qualquer forma, crises respiratórias são o menor dos problemas advindos de uma chuva. Respirar, o processo fisiológico fundamental que mantém todas as coisas vivas, bem… vivas; se tornou também o lugar-comum de sofrimento para todas essas coisas vivas. Algumas mais do que outras. Porque lidar com sofrimentos e ter a capacidade de reduzi-los também é algo que certas coisas vivas podem mais do que outras.
Chega um momento em que a realidade vai se tornando cada vez mais inescapável. Existe um limite até onde a alienação e o desejo de buscar se distrair se torna tedioso e insuficiente. Até a ignorância tem um prazo. Certa hora, não existem mais lados sobrando para onde virar a cabeça. Não tem mais feed (interessante) para rodar, não sobram sentidos a serem abafados, não tem mais remédio funcional para a solidão, muito menos ideias como escudo para se afugentar.
É aí que, alguma superfície sutil, quase invisível, parece se rasgar; dilacerando o mundo diante da nossa presença. O agora vira urgente. O chão se revela instável como sempre foi. Algumas estruturas desabam. Algumas pessoas entram em pânico. Um governo cai, outro sobe. Uma bomba cai, fumaça sobe. O corpos caem. Várias almas sobem. Uma fronteira imaginária é traçada em cima de outra fronteira imaginária e vira a nova fronteira real e oficial. O que era bom vira terrível. O terrível, aceitável. Horror de costume. Algumas coisas normais viram pecado. Alguns pecados que já eram pecados antes, mas ninguém ligava muito, viram mais pecaminosos. Alguém tem que ser o problema. Nunca o problema de verdade pode ser o problema, claro. Palavras são roubadas e refeitas. Outras palavras são reapropriadas e se fortalecem. Pessoas se separam. Pessoas se juntam. Uma cortina abre. Uma luz entra. Onde ela não chega continua escuro. Essa é a função das cortinas. Vem alguém e vira messias. Alguns aplaudem, alguns recusam. Tem gente que não liga. Consenso se revela impossível. Diferenças ficam irreconciliáveis. Algumas pessoas se agarram no que parece mais sólido e simples, outras se permitem voar no caos do que é complexo. Todo mundo surta, eventualmente. Aparecem dogmas novos a serem prontamente aderidos. Umas religiões caem, outras se consolidam. As pessoas, claro, fumam mais e bebem mais. Alguém ganha dinheiro com isso, mas tudo bem (até porque ópio das massas na verdade se refere ao remédio, e não à droga) Alguém de relevância como pessoa pública é condenado por algum crime que de fato cometeu pelos tribunais que inventaram o conceito de crime e quem pode cometê-lo. Algumas pessoas acham justo. Algumas acham que foi pouco. Outras têm o INSS da vítima para tentar sacar porque os vivos ainda estão aqui. Geralmente com fome e aluguel vencido. Os condenados pela própria existência continuam pagando. Em dinheiro, com a vida, com a própria atenção - tanto faz. O clima esquenta (só que dessa vez literalmente). A economia piora. Tem menos de tudo pra maioria. Propagandas se fortalecem. Arte é feita em protesto. Críticas (e censuras, mas não falamos dessa parte) são feitas às artes de protesto. Algumas das artes de protesto eram meio merda mesmo, mas ainda assim. Pessoas são ameaçadas. Umas se calam, outras gritam mais alto. E são lembradas por isso. Não que a lembrança lembrada faça jus ao que foi feito. Ou a quem fez. E por quê. No meio disso aparecem novas imagens. Se queimam imagens antigas. Materialmente, simbolicamente, moralmente. Muita coisa acontece ao mesmo tempo e todo mundo tem algo a perder. Alguém ganha muito com tudo isso. Não é você. Talvez seja, sei lá. O sol nasce amanhã de manhã. Sempre tem um amanhã de manhã.
cansadonas.com.br
Não dá para continuarmos nos acostumando a sermos vítimas da nossa própria insignificância.
Fiquei contornando essa ideia, mas não com essas palavras, quando percebi que queria escrever e não conseguia. A simultaneidade do excesso do que é supérfluo e da ausência do que é essencial parece ser a diferença paradoxal que o nosso ciclo de crise tem em relação aos anteriores. Tanta informação, tanta noção, tantas imagens, tantos produtos, objetos, ideias, notícias, conteúdos, lixo, opiniões - tudo em todo lugar ao mesmo tempo anabolizado e dentro da telinha do celular. Não vou entrar muito nas obviedades (mesmo achando que falar obviedades é o melhor jeito de começar uma conversa boa), o que motivou esse texto a sair foi a confluência de temas sobre o cansaço. 2024 foi daqueles anos que mostrou através das desgraças um potencial de radicalizar as pessoas e foi por isso que não queria terminar o ano sem publicar aqui. O tempo é espiralar, cíclico. Assuntos não voltam à tona assim do nada. Para bom entendedor, uma boa olhada na história e nos temas que pipocam durante o ano e suas relações entre si basta. Uma boa investigação nas diferenças entre os contextos e as reações das pessoas também é bem útil. Não sei se concordo que a sociedade está mais insuportável. Talvez a gente só tenha acesso a uma quantidade anormal de pessoas sob um filtro completamente deturpado. Seres humanos mais desumanizados, com certeza. Culpa da internet? Não sei. Acho perigoso e preguiçoso o raciocínio de culpar tudo na tecnologia. A gente se adapta aos meios de comunicação e demandas da nossa época, e é importante lembrar que não é por vontade própria.
“Estou cansada da internet mas preciso dela para trabalhar” não é um dilema novo. Percebo que faz anos que estamos tentando entender o que aconteceu com a tal da democracia digital (risossss nervososssss). Como membra da geração que cresceu com Internet e só pôde conhecer uma vida social e profissional com essa ferramenta, eu amo e odeio o que me foi proporcionado por ela. Tenho refletido sobre as redes sociais pela lente do trabalho, minha realidade e a de muitas outras pessoas com quem troco ideias por meio da própria. Não consigo me contentar com a angústia que isso tem trazido e nosso instinto de se conformar e correr em círculos. Um dia acabei batendo de cara em algo que não sei como não tinha me ligado. Palavra-chave: trabalho. As redes sociais (aqui me refiro ao Instagram especificamente, porque é a única rede que tenho e uso) passaram de uma dinâmica de usuários, a criadores e consumidores de conteúdo, a trabalhadores de uma maneira disforme e meio escorregadia.
O fato de que, desde começo das redes sociais até muito recentemente, qualquer pessoa podia criar um conteúdo que, por planejamento ou acidente, viralizaria e ofereceria a oportunidade de reunir uma audiência, construir um público e, quando conteúdos se tornaram monetizáveis por visualização ou sua relação com o público servisse para tornar o seu perfil um caminho para fonte de renda, foi criado um imaginário de meritocracia virtual que não acho que temos percebido. Não faz tanto tempo que essa ideia de criar conteúdo como meio fácil e acessível para alcançar potenciais profissionais caiu por terra. Hoje os apps funcionam como uma mídia de massas onde o controle da programação (o algorítmo) é feito pela classe dominante e os conteúdos são feitos pela classe trabalhadora - PARA a classe trabalhadora. Seu post não chega porque você não pagou pelo seu pedacinho nos classificados, amor… e se você pagar também não é garantia de nada.
Poderia tentar fazer uma tese mais completa, ler um Adorno\Byung-Chul Han e tudo mais, mas não recebo pra isso (me contrata que eu tento). Importante destacar que aqui me refiro a nós pessoas não-influencers que não fazem contratos com marcas e não utilizam e não querem utilizar a plataforma para prestar serviços de publicidade para terceiros através dos nossos conteúdos. Ou seja, trabalhadores autônomos que tiveram boas oportunidades advindas da divulgação do que fazem na internet e acaba que esse é o jeito mesmo. Mas será que é o único jeito?
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O que fazer quando não se sabe o que fazer
A sensação de encarceramento que as condições de vida no capitalismo nos coloca tem a internet como uma de suas principais disseminadoras. Tantas possibilidades, nenhuma escolha. Tantas informações, nenhuma ação. Tanta linguagem, pouca conversa. Fazer as coisas fora do meio digital é um caminho, mas também não me sinto convencida da ideia de abandonar completamente uma ferramenta que tem suas utilidades. Como subverter o uso de um meio de comunicação que se baseia na vigilância e na manipulação? Isso sequer é possível? Talvez. Talvez não.
A internet é mais um campo de batalha na disputa de narrativas. Um campo lotado onde uma das armas de controle é o linchamento coletivo (cultura do cancelamento que chama). E é mais um lugar onde a gente vai perder. Dessa vez - na nossa vez -, a gente vai perder. Falhar. Fracassar. Escolher se comunicar politicamente através das redes sociais como uma das vias de difusão de ideias não vem sem riscos e a recompensa é imensurável - não no sentido de ser gratificante (às vezes pode ser), mas é imensurável porque realmente não se tem dimensão de quantas pessoas entram em contato e como estão sendo afetadas por aquilo na prática. A gente não tem noção da diferença que faz e não faz nesse mundo. Nunca tivemos. Os que vieram antes de nós nem em seus mais ousados sonhos poderiam ter pensado que o mundo seria esse, assim. Mas é o que está sendo. E é nele que vivemos o belo significado da nossa insignificância.
Porque continuar?
Não sei. Me diga você.
Eu disse à minha amiga que não existia isso de história perfeita. E que, de qualquer forma, a perspectiva dela, essa presunção de que a trajetória da felicidade de alguém - ou, digamos, realização - atingiu o nível máximo (e, de agora em diante, entrará num platô) era devido a ela própria ter, sem querer, encontrado o ‘sucesso’. Sua premissa se baseava numa crença sem imaginação de que o dinheiro e a fama são parte indispensável dos sonhos de todo mundo.
Você viveu por tempo demais em Nova Iorque, eu disse. Existem outros mundos. Outros tipos de sonhos. Sonhos onde falhar é provável. Honrável, até. Onde a perda é, às vezes, digna de aspiração. Mundos onde o reconhecimento não é o único barômetro do quão brilhante e valiosa é uma pessoa. Existem muitas pessoas que lutam, as quais conheço e amo, pessoas muito mais valiosas do que eu, que vão à guerra todos os dias, sabendo de antemão que elas vão perder. Claro, elas são muito menos “bem sucedidas” no sentido mais vulgar da palavra, mas, com certeza, não menos realizadas.
O único sonho que vale a pena, eu disse a ela, é sonhar que você vai viver enquanto estiver viva, e morrer apenas quando morrer. (Presença, talvez?)
“Que significa exatamente… o que?” ela perguntou (com a sobrancelha franzida, meio irritada)
Tentei explicar, mas não fui tão eloquente quanto deveria. Às vezes preciso escrever para pensar. Então escrevi para ela em um guardanapo. Isso foi o que eu escrevi: Amar. Ser amado. Nunca esquecer da própria insignificância. Nunca se acostumar com a indescritível violência e a disparidade cotidiana da vida ao seu redor. Buscar alegria nos lugares mais tristes. Perseguir a beleza até sua cova. Nunca simplificar o que é complexo nem complicar o que é simples. Respeitar a força, nunca o poder. Acima de tudo, observar. Tentar entender. Nunca virar os olhos. E nunca - nunca - se esquecer.
Arundhati Roy 2
O projeto Alquimia Fotográfica é uma iniciativa interdisciplinar de educação, criação e pesquisa em fotografia e cinema voltado ao material fílmico que centraliza a artesania das imagens, laboratórios eco conscientes e publicações que contemplam a fotografia como fenômeno da coletividade, do tempo, da natureza e da política dos processos artísticos.
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Prelúdio escolhido pelo autor Mauro Maldonato para seu livro Raízes Errantes, ed. SESC SP
Tradução minha de fragmento do ensaio The End of Imagination (1998), contido na coleção de não-ficção da autora “My Seditious Heart” publicada em 2018.

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