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Alquimia Fotográfica · May 7, 2025

Atlas da criação

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Samanta Ortega · Alquimia Fotográfica

primeira cianotipia em concha em 2024

Quando comecei a pesquisar reveladores botânicos, não arquivei e nem guardei a maior parte dos vestígios físicos (filmes, erros, catalogação de testes específicos) que essa empreitada produziu. Os motivos principais para isso foram, primeiro, porque eu não via importância em fazê-lo naquela situação - os testes começaram movidos na base da curiosidade, perseverança e lacunas na rotina através das quais pude me dedicar a isso. Eu fiz porque queria fazer. Tudo foi tomando forma com os materiais que vinham se disponibilizando, as ideias que iam aparecendo e o apoio de pessoas que viam motivo para me dar filmes, ideias e direcionamentos. Nunca imaginei que o que eu testava e compartilhava poderia ser levado em consideração por tantas pessoas, muito menos que viraria um pilar estruturante da minha trajetória como artista, nem que viraria uma porta de entrada para uma carreira de educadora. Foi tudo do jeito que deu, mas disso sobraram poucos vestígios materiais organizados para contar essa história.

Não me arrependo de forma alguma por não ter tido esse apreço com os rastros mais miúdos do processo de pesquisa, até porque eu não teria nem espaço para guardá-los. Ainda vejo imenso valor no desapego e leveza com que tratei essa investigação e não há em mim nenhum pesar pela falta do registro de processo.

Nesses últimos meses têm aparecido pouco a pouco novas faíscas de inspiração para um novo projeto/coisa/pesquisa/processo. Pequenos sinais cintilantes no meio dos fios invisíveis da trama dos dias foram me convidando a seguir uma ideia, um potencial. Algumas poucas coisas me são certezas, mas uma delas é que o tempo, em suas espirais, tá aí pra ser experimentado; e sua não-linearidade fica exuberantemente clara pra mim nas seguintes situações: fazendo arte e ficando em silêncio. Sou uma pessoa completamente diferente hoje de quem era quando comecei a Alquimia Fotográfica e a pesquisa sobre Fenóis e Filmes. Tenho muito orgulho delas e honro os caminhos percorridos. Foram anos de experiências, relações, ideias, erros, acertos, desvios e loucuras pra chegar até aqui. Entendi novas formas de ver o mundo, as imagens e a natureza que me engrandecem todos os dias, descobri uma maneira de tornar essa paixão minha ocupação principal, e, pra minha surpresa percebi que muita gente se importa com o meu trabalho além de mim. Isso é, genuinamente, a maior honra.

Nem sempre fui capaz de me convencer da minha importância. Agora vejo que essa dificuldade de perceber minha existência e, por isso, potencialmente um legado, como digna de arquivar, também veio disso. Pra mim era só um fato da vida de que o que eu criava era o que era, pelo simples motivo de ser. Não me importava muito que sobrassem restos de mim e do que criei por aí materialmente.

cianotipia em bioplástico derretendo e se desintegrando

Agora, mesmo não tendo essa visão de preciosismo sobre o meu arquivo (se tudo pegar fogo um dia e sumir, vida que segue), sinto que fui transformada pelo desejo de deixar mais por aí. Os últimos anos da minha exploração artística foram muito mais sobre aperfeiçoar processos e treinar pedagogias. Ensinar tem isso de criar recursos, estratégias e caminhos de ação dos fundamentos de uma técnica direcionados para um Outro. Materiais de aula, a zine, os seminários, os textos; apesar de serem vestígios em seu próprio mérito, não são fragmentos de processo. Nessa nova abertura, tenho sentido uma consideração maior por arquivar e catalogar melhor o decorrer da pesquisa.

Confesso que tenho um pouco de dificuldade de falar sobre coisas que ainda não sei enunciar com a habilidade de alguém que poderia palestrar sobre (síndrome de professorinha, lá ela), mas quero muito poder guardar alguns pedaços dessa vez e, potencialmente, fazer algo com o que ficar. Arriscar uma contaminação pelo olhar do outro (ou da ciência desse olhar e desse outro) enquanto as ideias ainda são muito primárias é bem vulnerável. Amadurecer processos na frente de alguém, pra mim, é desconfortável como uma invasão de privacidade gravíssima. Como aquele pânico que faz a gente interromper qualquer mostra de trabalho com “mas ainda não tá pronto” ou “mas é só uma ideia por enquanto”. Talvez a gente não precise de tanto medo de estar inacabado pra existir diante de alguém(s). Ou, pelo menos, é uma das coisas que quero tentar fazer.

“Somos contaminados por nossos encontros; eles transformam o que somos na medida em que abrimos espaço para os outros. Ao mesmo tempo que a contaminação transforma projetos de criação de mundos, outros mundos compartilhados - e novas direções - podem surgir. Todos nós carregamos uma história de contaminação; a pureza não é uma opção.”

Anna Tsing em O Cogumelo no Fim do Mundo - sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo

A ideia das “Artes de Notar” descritas pela etnógrafa Anna Tsing em seus estudos sobre/com fungos brotam das ruínas da ideologia do progresso (algo que já escrevi sobre aqui), e tenho refletido sobre como essa ideia da obra terminada, projeto acabado e apresentar algo só quando está “pronto” às vezes parecem subscrever a isso. Claro, há um nível de contorno e inteireza com o amadurecer de um projeto e realizar uma apresentação carrega a beleza disso, mas, por hora, continuo sentindo falta de mais compartilhamentos de processos enquanto se encontram em andamento, dando voz ao que floresce na destruição das expectativas e excitação das ideias.

Meus temas de interesse atuais têm sido: fungos, vestígios antigos em forma de conchas e pedras, decomposição literal da imagem através de anteparos que se degradam rapidamente, a delicadeza, maciez, sensualidade, transparência, fragilidade, desmanches, coisas gosmentas e grudentas, processos difíceis e que requerem aperfeiçoamento através do erro, recomeços, perda total, aderência.

Então, compartilho com os apoiadores aqui da newsletter em mais detalhes a partir desse ponto, minhas experiências recentes com a dificuldade, erros e acertos da cianotipia em vidro, celulose fílmica, conchas e pedras, sobre fungos em geral e outros tropeços. Aprecio demais quem me oferece remuneração de singelos dez contos por mês aqui no Substack, mas também lembro que a paywall não é um muro, é uma porta - é só bater que eu deixo entrar. Também fiquem sempre a vontade pra me chamar pra trocar ideia! Amo e sempre respondo todas as mensagens no Instagram e os meus e-mails!

Cianotipia em colódios, pedras e conchas: um mistério

Read the original on alquimiafotografica.substack.com

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