0:00
-39:15
Oi oi!
Hoje trago a segunda parte (ou melhor, o ensaio de fato) À Imagem do Outro, o qual teve sua parte I. dedicada à tradução e leitura do texto A Álgebra da Justiça Infinita de Arundhati Roy (que você pode ler aqui)
No corpo do post você encontra o texto e, na nossa parte de áudio/podcast, temos uma leitura do texto de bell hooks Essencialismo e Experiência, que integra o livro Ensinando a Transgredir (1994). Ler bell hooks é sempre um sopro e um alento nas minhas ideias e no meu coração. Seu legado na ética amorosa e luta por uma pedagogia da liberdade vivem em tudo o que me proponho a fazer. Espero que todos nos deixemos tocar pela sabedoria e radicalidade do trabalho dela e sejamos motivades a viver em consonância com o Amor como política.
(Já me desculpo pela leitura meio rápida e atropelada nesse episódio. A rinite, voz rouca e a tentativa de evitar o barulho de obra do vizinho no intervalo do almoço me fez correr muito mais mais do que eu queria com o ritmo, mas espero que valha a tentativa rsrs)
Uma dicotomia muito frequente que me perturba nas discussões no campo progressista é a noção de que existe uma incapacidade do conhecimento e, portanto, de sua aplicação estratégias de ação e conscientização política, de conciliarem a origem experiencial (também chamada de “identitária”) e o fundamento intelectual (teórico, histórico e aplicável).
Em um contexto onde o “lugar de fala” e o “lugar de cale-se” parecem ter caído das graças de uma parte considerável de pessoas que até ontem se diziam engajadas na luta por justiça social, vejo um comportamento muito perigoso que poderia ser melhor trabalhado a partir da simples (mas não necessariamente fácil) aceitação dos limites do conhecimento produzido pelos opressores, da renúncia da autoridade e da necessidade dominação e, principalmente, da disposição a aprofundar discussões de forma que nos tornemos, aos poucos, mais capazes de entender política e a sociedade como um processo participativo que deve ser, sim, conflituoso, desconfortável e complexo.
“Encarada de um ponto de vista favorável, a afirmação de um essencialismo excludente por parte dos alunos de grupos marginalizados pode ser uma resposta estratégica à dominação e à colonização. Uma estratégia de sobrevivência que pode, com efeito, inibir a discussão ao mesmo tempo em que resgata os alunos de um estado de negação”.
bell hooks
Essencialismo e Experiência - ensaio em Ensinando a Transgredir
O mito do cancelamento na cultura moderna da internet já faz parte do nosso vocabulário e entendimento da “ascensão” e “queda” de figuras proeminentes na mídia. “Fulano foi cancelado” pode referenciar desde um debate sobre uma opinião impopular dada pelo seu amigo com menos semancol, até campanhas de ódio e ataques coordenados ao caráter e reputação de pessoas públicas. O que aqui chamo de “mito do cancelamento” é o que enxergo como uma ramificação mais perversa e complicada da “Cultura do Cancelamento”.
A princípio, a ideia de “Cancelar” determinadas figuras públicas tem uma longa história em movimentos sociais. Chamar a atenção e denunciar (call out) atitudes de pessoas, organizações e instituições com inquestionável poder foi uma estratégia empregada com a intenção de que, ao se juntar um coro grande o suficiente para uma exposição e nomeação das opressões reproduzidas, indivíduos que detém uma posição de grande autoridade sejam publicamente coagidos a responder pelos seus atos (já que, devido às dinâmicas de poder existentes, sem essa pressão e as consequências da cobrança, não haveria retratação).
Ainda que a ideia de apontar e nomear opressões sistêmicas pelo que são - o racismo, a misoginia, a LGBTfobia, o classismo - sem a necessidade de amaciar o discurso seja importante, e o pressuposto de que, se um grupo grande o bastante de pessoas marginalizadas e aliadas somarem na voz para pressionar o reconhecimento dessas atitudes tenha uma lógica; qualquer um que esteve na internet nos últimos dez anos sabe muito bem o que se tornou a cultura do cancelamento. Em uma sociedade moldada nos valores capitalistas e liberais, ninguém está imune a perpetuar e se deixar enfeitiçar pelos pilares do individualismo, excepcionalismo, negação de privilégios para sustentar uma narrativa meritocrática sobre a própria pessoa, pessoalização de críticas sistêmicas, hiper-identificação com influencers e celebridades (relações parassociais), idolatria a figuras cujo trabalho gostamos, nos deixando propensos a confundir caráter com criação - a lista segue longa.
A questão paradoxal do Cancelamento é, talvez, a fragilidade ingênua da ideia de que seria possível adotarmos uma postura de discussão produtiva a partir da diferença e do debate dentro do ambiente das redes sociais - que, como hoje sabemos, se beneficia integralmente da atenção e engajamento que for. Nesse ambiente tóxico, onde nosso ego e necessidade de sair por cima a qualquer custo nas olimpíadas da boa moral, a dissociação da humanidade alheia por trás das telas e a tendência a agitar o coliseu da thread se misturam num enorme caldeirão borbulhante; o linchamento virtual - e as consequências muito, muito reais dele - se torna inevitável.
“Neste momento, parece que denunciar uma pessoa online é a primeira/única opção para muitas pessoas ao primeiro sinal de qualquer dissonância. Nós precisamos desenvolver as habilidades para discernir qual tipo de dissonância estamos enfrentando ou sendo convocados a assistir, qual o tipo de apoio que é de fato necessário, e se possuímos a capacidade de atender essa necessidade sem envolver o Estado.*
Temos usado com muita frequência o cancelamento para evitar o conflito direto. Cancelamentos também estão sendo utilizados para manipular a opinião pública acerca de conflitos sectários e organizacionais. Ter conflitos e nutrir comunidades que conseguem suportar diferenças políticas são sinais de interações saudáveis, generativas e refletem movimentações necessárias para criar visões expansivas e atualizadas.”
*Aqui o “Estado” alude tanto a instituições estatais como a polícia e o sistema judiciário, quanto linchamento midiático e perpetuação dinâmicas punitivistas e carcerárias nas dinâmicas sociais.
adrienne maree brown
Unthinkable Thoughts - ensaio em We Will Not Cancel Us
Entendendo o Cancelamento como a perversão da necessidade de conflito para aprofundar as discussões na malha social (e a recusa a admitir nossa incompetência em fazê-lo) elevada à milésima potência sob a moderação do espetáculo e imediatismo das redes sociais, entendemos também as emoções intensas de medo e perseguição que podem acometer aqueles com o poder de falar publicamente. “Ai, vou ser cancelado” é o novo “Isso aí é só mimimi”. Não vivemos mais apenas em uma Cultura do Cancelamento onde a linha que separa os bons e os péssimos é bem dividida - o processo mítico do Cancelamento virou um rito de passagem, uma afirmação de relevância, um trabalho hercúleo que todo mundo que aperta o enter depois de um hot take está sujeito a enfrentar. E com isso, vem, eventualmente, o narcisismo egoico do Sujeito Universal. Afinal, o inferno são os Outros.
Um tempo atrás, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl teve seu momento de brilhar ao atravessar a jornada do cancelamento. Ou melhor - isso teria acontecido se ela tivesse, de fato, sido linchada e cancelada da maneira que a mitologia do cancelamento fez parecer.
Há alguns anos, Kehl se coloca como crítica do que muitos têm chamado de “movimento identitário”, que categoriza a pauta da política da identidade (o entendimento de que o atravessamento e efeitos da opressão na vida de um indivíduo lhe fornece um conhecimento privilegiado, ou “lugar de fala”, sobre estas mesmas questões sociais) como o maior problema a ser lidado dentro do campo progressista. Nas palavras dela: “é muito precioso que essas pessoas possam se unir, possam dizer ‘olha, nós somos isso e nós queremos um lugar sendo isso’. O ruim é quando um movimento identitário vira uma espécie de nicho em que só quem está nesse nicho pode falar entre si. O problema dos movimentos identitários é que eles não produzem laços sociais, só para os de dentro. […] O que ele produz é uma estagnação do diálogo. […] Isso vai criando nichos narcísicos no sentido que ‘só nós nos amamos’”.
O que não consigo deixar de notar é que, em todas as discussões que vi até hoje, quando os que se dizem progressistas e pró-justiça-social se colocam contra o valor da experiência vivida como uma autoridade no conhecimento, as pessoas que criticam o “lugar de cale-se” e o “silenciamento” pelo qual estão passando são justamente aquelas que sempre assumem que o lugar de todas as falas pertencem a elas. Fica difícil não sentir uma exaltação - e, convenhamos, raiva e indignação - quando os que choram por serem silenciados, cancelados e censurados pela “ditadura woke” são quase sempre pessoas brancas. Quando não, homens. Quando não, ricas ou ocupando espaços de autoridade institucional. Quando não, hétero. Quando não, cis. É dolorosamente irônico ver figuras públicas (supostamente de esquerda) sendo os perpetradores da autovitimização narcísica ao acusar o Outro de estar preso no loop narcísico. É confortável, é fácil, não abala sua visão de si próprio no mundo e, é claro, mantém o Outro no lugar dele.1
correr para defender Lilia Schwarcz, uma mulher que ocupa uma posição social muito, muito parecida com a sua (veja lá, uma mulher branca, da elite, acadêmica “especialista em raça e negritude” - às vezes as piada vem pronta), do “cancelamento”, Kehl não deixa de jogar um holofote sobre o próprio ponto cego. No texto de 2020, no qual o título cunha o famigerado termo “Lugar de Cale-se”, ela lamenta: “Não quero imaginar um mundo em que cada um de nós só pudesse dialogar com seus supostos “iguais” em gênero, cor da pele ou classe social. Senão como pude eu, branquela de classe média urbana, ter sido aceita pelos “compas” do MST com quem trabalhei entre 2006 e 2011, até ingressar na Comissão da Verdade? Como pude ser respeitada entre grupos indígenas para relatar, no capítulo que me coube escrever, o genocídio sofrido por eles durante a ditadura se nunca, antes disso, tinha sequer pisado em uma aldeia?”
A questão, é claro, é que a questão não é essa.
“Em todo o capítulo, sempre que oferece um exemplo dos indivíduos que usam pontos de vista essencialistas para dominar a discussão, para silenciar os outros invocando a “autoridade da experiência”, esses indivíduos são membros de grupos que foram e ainda são oprimidos e explorados nessa sociedade. Fuss não fala de como os sistemas de dominação já operantes na academia e na sala de aula silenciam vozes de indivíduos dos grupos marginalizados e só lhes dão espaço quando é preciso falar com base na experiência. Não explica que as próprias práticas discursivas que permitem a afirmação da “autoridade da experiência” já foram determinadas por uma política de dominação racial, sexual e de classe social. Fuss não afirma agressivamente que os grupos dominantes - os brancos, os homens, os heterossexuais - perpetuam o essencialismo. Na sua narrativa, o essencialista é sempre um “outro” marginalizado.”
bell hooks - Essencialismo e Experiência em Ensinando a Transgredir
“Como posso ser um aliado se tudo o que eu falo é silenciado? Se não posso usar meus privilégios e recursos para falar do que não me atravessa, mas se fico quieto sou cobrado e punido pelo meu silêncio? Não posso não fazer nada sem ser cúmplice, mas se fizer também serei sentenciado? O que é que vocês querem da gente então?”
Esse é o sussurro frustrado que escuto, quase inaudível, por trás de todos esses vexames egocêntricos que ocorrem quando figuras públicas querem exercer sua “liberdade de expressão” e, inevitavelmente, falam merda. Tudo bem falar merda. Saber que um dos predicados do privilégio (de não sofrer diretamente com opressão sobre a qual estamos discutindo) é que a gente sempre vai ter um ponto cego - o da experiência - e que isso, ao invés de nos envergonhar, pode ensinar uma lição ou duas sobre humildade.
Sim, linchamento virtual existe. Cultura do cancelamento existe. Coerção no tribunal da opinião pública não leva ninguém a mudar pra melhor. Praticar o exílio da comunidade e punir um indivíduo pelo seu comportamento nocivo devido a pressão exercida por uma máfia de gente putassa e desesperada pelo show da queda alheia é desprezível. No entanto, esse não é um ensaio sobre os problemas da cultura do cancelamento, é um ensaio sobre como o mito do cancelamento serve de escudo para que evitemos olhar onde o calo aperta; para que evitemos olhar para os lugares onde praticamos a nossa própria tendência narcísica - na negação dos lugares de falha que o privilégio automaticamente nos deposita.
Como tudo o que nos molda como pessoas também molda as nossas imagens, como as fazemos, como falamos delas e como interagimos com elas; quero sugerir que sim, devemos utilizar a aguda consciência do que é nosso e do que não é, na hora de escolher quais imagens criaremos.
Falo muito por aqui sobre como a fotografia (e a arte em geral) carrega essa capacidade de apreender o que é individual, que parte do artista como pessoa com sua subjetividade, e o que é político, social e coletivo. Seu olhar é só seu porque vem do seu corpo, da sua experiência, mas os motivos que convidam o seu olhar certamente não são. Como bell hooks argumenta no ensaio Essencialismo e Experiência, a experiência vivida é um modo privilegiado de conhecer, mesmo que, claro, não seja o único. Se entendemos que o conhecimento é um processo coletivo e complexo, podemos nos tranquilizar sabendo que, ao abrir espaço para engajar com interesse com as perspectivas que não temos e nunca poderemos ter, estaremos tomando parte numa construção aprofundada, mais complexa e mais plural.
Corroborar a noção de “autoridade” diante do conhecimento é o princípio dessa falha - não é justo e nem verdadeiro que uma pessoa se suponha especialista e autoridade em algo que não vive; assim como a vivência não automaticamente garante que uma pessoa tenha conhecimento teórico e organizado para engajar numa discussão. A vivência e a teoria são formas complementares, não antagônicas, da construção do conhecimento. E são muito mais produtivas quando feitas em coletivo. A desconfiança deve começar quando uma pessoa se posiciona como sujeito universal, o sábio, aquele que quer porque quer falar, aquele que supervaloriza sua posição fornecida pelos sistemas que já estão em voga, aquele que se nega a olhar onde pisa.
No ano passado, uma discussão sobre imagem e direitos foi levantada quando Nicéia Fonseca Pereira, uma mulher negra de 65 anos, recorreu em decisão judicial após perder um processo onde pedia indenização de 100 mil reais por uso indevido de imagem à Lilia Schwarcz, que utilizou na capa de seu livro “Nem preto, nem branco, muito pelo contrário - cor e raça na sociabilidade brasileira” , uma fotografia publicada no jornal Última Hora, em 1963; na qual ela criança, aparece. A defesa de Schwarcz afirmou que a foto foi obtida no Arquivo Público de São Paulo, dentro do acervo do jornal Última Hora e que o uso foi realizado de boa-fé, sem qualquer intenção de causar danos. Sendo condenada a pagar 10 mil reais em custos processuais e honorários, os advogados de Nicéia contestaram a decisão argumentando que a identificação da autora pela legenda do jornal deveria ser suficiente, que houve um tratamento racializado no julgamento e que o fato de uma autora branca, amplamente reconhecida por suas análises sobre racismo estrutural, contestar a identidade de uma mulher negra a partir de traços físicos ressalta uma desigualdade histórica.
Como a discussão sobre direitos e ética de uso diante das imagens de arquivo e processos documentais com material histórico é um assunto nada simples e longo, não vou entrar nele neste momento. A questão que importa nesse caso é, ao que sabemos (lembrando que sempre existem, em processos judiciais, muito mais história que não sabemos e está em sigilo): pode ser que Lilia Schwarcz e o grupo editorial tenham agido de “boa fé” ao escolher a imagem e não terem sido diligentes o suficiente com a procura da pessoa retratada para receber autorização de uso; mas a partir do momento que Nicéia apareceu com a alegação de ser a criança retratada, o contexto mudou. E à luz dessa nova informação, havia diversas maneiras possíveis de prosseguir e negociar o uso da imagem.
Ao defender sua “boa fé”, Lilia e seus representantes legais fizeram uma escolha: a escolha de se ver como dona da uma imagem. De se apropriar, monetizar, (porque, afinal, o livro está à venda e Lilia com certeza não palestra de graça. E me pergunto se a herdeira da Cia. das Letras teria qualquer impeditivo financeiro para remunerar uma pessoa pelo uso da sua imagem…. ). A escolha feita foi a escolha do conforto, da manutenção de poder e da dominação oferecidas a ela pela riqueza e pela branquitude; não a escolha do confronto com essa posição e, subsequentemente, da retratação e mudança de curso. E isso diz mais do que um livro inteiro.
“De manhã, leio as notícias, e elas são sobre nós. Mas foram criadas para pessoas que as leem de longe, muito longe, e que não conseguem imaginar que poderiam conhecer alguém envolvido nisso tudo. São para pessoas que as leem para se confortar, para dizer a si mesmas: ainda está longe, muito longe. Eu leio as notícias por motivos diferentes - para saber que não estou morto. Supostamente, os mortos não leem notícias; mas posso estar errado.”
Atef Abu Saif - Quero estar acordado quando morrer
“Representatividade importa” é uma das frases que, assim como “Cancelamento” e “Lugar de fala” se perderam no vórtex semântico da internet. A princípio, pedir por mais representatividade era uma maneira de demandar a participação de pessoas marginalizadas, suas histórias, suas perspectivas e suas presenças em lugares onde a hegemonia era sempre a dos grupos dominantes. No cinema, isso se deu através da aparição de (uma minoria) de personagens, atores, escritores e diretores não-brancos, mais narrativas LGBTQ+, mais discussões sobre objetificação feminina nas imagens.
Contudo, com o tempo, passamos a lidar com a “importância da representatividade” nesses meios de uma forma cada vez mais superficial. Não parece que importa tanto como grupos marginalizados estão sendo representados, importa muito mais que eles simplesmente aparecem. Enxergo um imenso perigo nesse contentamento. Pessoas historicamente marginalizadas e as lutas das mesmas por direitos não se beneficiam de visibilidade apenas, mas sim das mudanças de paradigma profundas e sustentáveis a longo prazo que podem ocorrer quando estas têm o poder e a autonomia de contar suas próprias histórias, nos próprios termos. Representatividade sem autorrepresentação (e com ela, as pluralidades que uma mesma identidade carrega) sempre corre o risco de virar uma caricatura agradável e rasa que não é disruptiva, que nunca incomoda e que só gera aplausos, sem debate. “Pelo menos não somos invisíveis agora” - mas em quais condições estamos sendo vistos? Quem está permitindo como se pode, o quanto pode e sobre o que se pode falar?
O documentário “No Other Land” (Sem Chão) tem sido muito exaltado na mídia desde que ganhou seu primeiro prêmio no festival de cinema de Berlim 2024. Em suas avaliações, críticas e comentários se elogia a beleza da “união entre um israelense e um palestino para contar a história de uma terra em guerra e conflito”. Admito que, por essa descrição e minha solidariedade e comprometimento com a certeza de que a Palestina será livre, que Israel é um “estado” genocida de apartheid, o total apoio ao direito do povo Palestino de se defender com armas contra o regime colonizador, não fiquei nada empolgada para assistir. Mas aí veio o Oscar e, com ele, a agitação midiática acerca do filme, o que me fez superar a preguiça porque, afinal, tem que assistir pra criticar. E eu queria muito criticar. E, meu Deus, que filme aborrecedor, pra dizer o mínimo.
No Other Land é uma exposição escancarada do que acontece quando um indivíduo pertencente ao grupo historicamente opressor, após adquirir consciência (e culpa) das ações do grupo social em que vive, toma para si a missão de salvar os oprimidos da condição que a sua existência, da forma que se dá, os colocou. O diretor Yuval Abraham, um jornalista israelense, que vive em território ocupado, com direito de ir e vir, arrogantemente desprovido do entendimento histórico do conflito causado pelo seu contexto de origem, adentra o cotidiano dos palestinos para documentar a destruição do vilarejo onde o co-diretor (ou melhor, O Outro do documentário) Basel Adra vive e luta, todos os dias de sua vida, para denunciar, protestar e resistir. É fisicamente doloroso assistir as perguntas e comportamento de Yuval pra com Basel e sua família e vizinhos. O filme, em questão de cinematografia e documentarismo, nada mais é do que uma hora e meia de exposição da dor palestina sem uma mensagem consistente, sem uma conversa inteira com um palestino (que não seja o Basel, hora ou outra, fazendo um comentário). Foi um filme vazio. Desprovido de criticidade, o clássico “observador da realidade objetiva” que se isenta de uma posição consistente e só que “mostrar ao mundo o que acontece” (se for pra mostrar ao mundo, basta ver o genocídio documentado pelos próprios palestinos via redes sociais desde outubro de 2023. todo. santo. dia.). E, por isso, claro, que um filme desse agradou tanto às instituições responsáveis pelo genocídio e aqueles que ainda se recusam a ver o extermínio de um povo que teve seu território transformado um campo de concentração a céu aberto. O mesmo se vê em diversos outros ganhadores de Oscar desse ano numa tendência assustadora - o terror de Emilia Pérez, as problemáticas de Ainda Estou Aqui já levantadas na última newsletter… representatividade de quem, como, feita por quem?
Deixo aqui um texto pela minha querida amiga Rawa Alsagheer, ativista e cineasta palestina que coordena o movimento Samidoun sobre o prêmio da Academia do Oscar ao filme:
O documentário "No Other Land" ganhou o Oscar de Melhor Documentário, em um momento que alguns consideraram uma vitória da causa palestina no cenário cinematográfico global. Mas, ao analisar atentamente os detalhes do filme e seu contexto, fica claro que essa vitória não foi uma vitória para a narrativa palestina, mas sim uma vitória para o personagem do diretor israelense Yuval Abraham, que, por meio de sua posição dentro do sistema ocidental e israelense, foi capaz de dar ao filme a legitimidade necessária para chegar à plataforma do Oscar.
Não se pode ignorar que Abraham, apesar de ser um apoiador da causa palestina, continua fazendo parte do sistema colonial que produziu a Nakba e o subsequente deslocamento, ocupação e assentamento. Este diretor vive em uma terra confiscada, de onde os habitantes palestinos foram deslocados, e hoje vem contar sua história como se fosse um mediador neutro, dando voz ao seu sofrimento dentro dos marcos permitidos pelas instituições culturais ocidentais. Mas que tipo de história é essa? É um romance que leva a assinatura dele, não a assinatura dos próprios palestinos. Aqui reside o cerne do problema: não é o palestino que narra sua dor, mas o israelense que lhe concede a legitimidade da existência dentro do espaço cinematográfico ocidental, e isso reflete claramente como a questão palestina é tratada de uma perspectiva colonial, mesmo no contexto da solidariedade. O palestino é sempre retratado como uma vítima que precisa de alguém que o defina e traduza seu sofrimento para uma linguagem que o Ocidente entenda, e essa linguagem só pode ser a linguagem do próprio colonizador.
No discurso de Yuval Abraham ao receber o prêmio, ele falou sobre os eventos de 7 de outubro de forma violenta, como se fossem o início da tragédia, ignorando o fato de que a tragédia palestina já dura mais de 75 anos. Abraham não mencionou a Nakba, o colonialismo de assentamento ou os deslocamentos em andamento. Em vez disso, ele pareceu equiparar ocupação com resistência à ocupação, adotando um discurso liberal vago que rejeita a limpeza étnica, mas não se refere às suas raízes. Este discurso satisfaz o establishment ocidental que adota a narrativa de que “ambos os lados são culpados”, mas não representa a verdadeira narrativa palestina. Em vez disso, ele a distorce e a reproduz de acordo com uma visão que não perturba o sistema que concedeu ao filme seu prêmio.
Sejamos honestos: "Nenhuma Outra Terra" venceu porque seu diretor é um judeu israelense, não porque carrega a narrativa palestina. Se o filme fosse puramente palestino, não teria chegado ao Oscar tão facilmente. Isso não é exagero, mas um fato que pode ser comprovado comparando como a Academia lida com filmes palestinos que não levam assinatura israelense. Dezenas de filmes palestinos que documentaram massacres, demolições e deslocamentos não receberam essa apreciação porque não usaram o narrador “apropriado”, o narrador que poderia formular a tragédia palestina de uma forma que não desafiasse o sistema ocidental, mas sim estivesse em linha com ele. O que é ainda mais surpreendente do que o prêmio em si é o discurso distorcido que acompanhou sua celebração. Alguns palestinos e árabes comemoraram a vitória como se fosse uma vitória da causa, ignorando o fato de que a narrativa palestina não foi apresentada aqui em seus próprios termos, mas nos termos de seu narrador israelense. Como podemos celebrar um filme que não dá aos palestinos a autoridade para narrar e não parte do seu contexto histórico e político real, mas sim da visão do “simpatizante israelense” que determina o que pode ser dito e o que não pode ser dito?
Aceitar este prêmio como uma vitória para a causa palestina é aceitar a contínua marginalização da voz palestina e o contínuo confinamento de nossa narrativa a estruturas aceitáveis para o colonizador. “Nenhuma Outra Terra” não é uma vitória, mas uma reprodução da dominação, onde o palestino continua sendo o sujeito da narrativa, não seu dono.
Como (re)agir à imagem do outro? Como podemos afinar nossos ouvidos, olhos e mentes para nos atentarmos ao ceticismo que deve sim, percorrer o nosso corpo, ao perceber sinais de alerta em discussões sobre identidade, alteridade e seus atravessamentos?
Como criar relações mais profundas que resistam qualquer tendência punitivista, mas onde também se abra mão da prepotência da “boa fé” e de comportamentos que buscam fugir e se isentar da responsabilidade de repensar nosso lugar no mundo?
É enriquecedor para a nossa vida poder exercitar a empatia - se colocar no lugar do outro, mas é mais bonito e verdadeiro ainda saber que nunca poderemos estar além do nosso próprio corpo, e isso importa. Essa é a nossa limitação. O amor, o compromisso e o desejo pela libertação de todas as pessoas não requer que a gente entenda, compreenda e muito menos explore a imagem do Outro. Cuidemos de lembrar que a gente também é o Outro do Outro.
Ainda tem vagas para o curso que vou dar na Casa Locomotiva sobre processos experimentais em película a partir de 10/04! Pra mais informações, é só clicar
O projeto Alquimia Fotográfica é uma iniciativa interdisciplinar de educação, criação e pesquisa em fotografia e cinema voltado ao material fílmico que centraliza a artesania das imagens, laboratórios eco conscientes e publicações que contemplam a fotografia como fenômeno da coletividade, do tempo, da natureza e da política dos processos artísticos.
Dentre várias coisas legais que foram produzidas nos últimos tempos, convido a dar uma olhada nessas aqui:
Zine digital gratuita | Fenóis e Filmes - imaginando a revelação fotográfica a partir da flora brasileira
Para baixar o material, acesse: https://www.alquimiafotografica.co/educa%C3%A7%C3%A3o-e-difus%C3%A3o
Para comprar a versão física e outros trabalhos meus, acesse:
https://floraefilme.lojavirtualnuvem.com.br/
Como já sabem, outro jeito maneiríssimo de apoiar meu trabalho é, bem, me chamando para trabalhar! O link para o site/portfolio é esse aqui
Sinta-se a vontade para compartilhar esse post. Se quiser, acompanhar meu trabalho o Instagram é @floraefilme .
Andreone Medrado, intelectual travesti negra cujo trabalho admiro imensamente, dedicou essa situação do “Ressentimento” em um episódio do seu podcast Devaneios Filosóficos, que recomendo muito a escuta -

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.