(Foto de cottonbro studio)
“Vocês vão fechar os olhos. Fazer um relaxamento simples, só pra deixar o corpo presentificar. Depois, esperar que emerja a imagem de um leque. Então, irão desenhá-lo. Só então, devem começar a escrever: o que esse leque diz a vocês?”
Perturbador.
O exercício proposto por Yedda Raynsford Macdonald, professora querida do curso de Escrita Imaginal do qual estou participando, elevou à vigésima potência a energia caótica de minha semana.
Leque?
É boleto pra pagar, é IR no cangote, é calhamaço de infrações médias e graves com selo do Detran fazendo fila na minha mesa…
E, então, preciso desenhar um leque.
Desenhar. Um leque.
A primeira imagem que me vem é a das mulheres latinas que se submetem a distribuir panfletos vestidas de espanholas nas Ramblas para ganhar ínfimos euros por dia divulgando shows de Flamenco que sequer são típicos de Barcelona, mas atraem tantos turistas quanto as paellas valencianas congeladas e superfaturadas servidas na mesma avenida. Mulheres latinas como eu, que não fui aceita para o job, uma vez que não tinha documentação para trabalhar “legalmente” quando morei por lá.
Leques também podem dar a ideia de futilidade. Ou de velhice. Se bem que minha filha de nove anos ama leques. Até que podem ser bons acessórios em tempos de emergência climática e… ah, não. Não vim discorrer aqui sobre a utilidade do leque, muito menos sobre sua enorme inutilidade.
Vim contar da catarse que o exercício me provocou.
Reservei pouco mais de meia hora para fazê-lo antes de buscar meu filho na escola.
Esse seria o tempo dedicado à porcaria do leque, saísse o que saísse. Oras bolas. Leque?
Vejamos.
Fechar os olhos. Deixar o corpo presentificar. Relaxar… não, péra. Relaxar já é demais.
Respiro fundo.
Quando resolvemos viver o agora, a ansiedade pode descansar.
Até que gosto de desenhar.
Quando eu era viva, amava as aulas de arte.
Pego pela mão alguma Cíntia encantada com o desafio artístico - que nada tinha a ver com arte, em si, e sim com o resgate de uma alma condicionada ao utilitarismo. (Ok, pensando bem, tinha tudo a ver com arte).
Vamos lá.
Meu leque é desenhado sobre um jornal que trouxe da FLIP - porque, como já disse anteriormente, não há folha em branco. Parti de uma capa ilustrada com a palavra “transgressão”. Nela, a imagem de alguns olhos. Pássaros! Uns brotos de estrela. Sobre tudo isso, desenhei texturas. Traços. Pontos. Rabiscos. Borrões. Listras. Curvas. Um sol. Também deixei de pintar algumas partes buscando o transparente, o inacabado…
A proposta inicialmente irritante agora me capta a atenção plena. “Leque!”
A beleza só aparece quando estamos disponíveis.
Já sabia que o leque era eu. Só não tinha ideia do que ele queria me dizer. E nem do efeito arrebatador que a entrega ao exercício me proporcionaria.
Resolvo ouvir música para distrair as vozes que me bagunçam o pensamento. Costumo usar melodias acústicas, sem letra. Desta vez, porém, escolho a companhia de Jorge Drexler. Resisto à tentação de escutar as músicas que sei de cor e me arrebatam. Busco um álbum pouco familiar.
Play. Volume alto.
Tenho só meia hora.
É como se dissesse a todos os que me habitam: “Galera, presta atenção aí nas letras, nas melodias, no idioma, no volume incômodo, sei lá, em qualquer coisa… mas deixem a alma falar o que ela quiser aqui pelos meus dedos, tá bem?”
Enquanto escrevo, sou impelida a fechar os olhos.
Ué.
Escrever de olhos fechados?
Será sono? Exaustão? Só depois entendi que o gesto de fechar os olhos naquele momento era uma autorização para um mergulho nas profundezas de dentro.
Com a cabeça levemente curvada para trás, deixo os dedos percorrerem o teclado. Percebo que ele me é familiar. Que voz é essa que parece ebulir do núcleo deste peito em erupção? De alguma forma louca e irracional, escorre de mim uma lava de emoções.
Mal tenho tempo de reler. Putz. Vai fechar o portão da escolinha.
Bem-vindes à praia de nudismo
Ao compartilhar o texto na aula, sem tempo sequer de senti-lo, senti-me nua.
“Pois você levou todo mundo com você para a praia de nudismo, Cíntia” - foi o que disse minha colega, tão emocionada quanto eu, depois de um inquietante silêncio após o final de minha leitura.
“É uma bordoada sobre como a gente vive a vida e não se dá conta” - outra querida comentou depois de dizer que queria me dar um abraço. Pudera, eu estava em prantos.
(A merd@ de dar tanto contexto é que as expectativas de quem lê vão aumentando).
Acontece que como esta news é um instrumento particular de elaboração de cintilâncias, trago aqui meu texto para eternizar as palavras que, de forma vulcânica, me transbordaram do âmago.
Tomara que lhe façam bem - mas, antes, chacoalhem drasticamente as placas tectônicas do seu automatismo.
O leque
Gosto de dizer que habito fora da caixa porque me encanta me surpreender com o belo de tudo que é natural e, portanto, foge ao meu controle.
Nunca pensei que escrever de olhos fechados fosse algo possível, mas é isso o que fazemos quando nos guiamos pelo instinto.
Deixar meus dedos deslizarem por estas teclas tão familiares enquanto duvido de nossa intimidade é algo um tanto intrigante.
Por muitos, muitos anos ignorei o quanto sei fazer as coisas. O quanto sou eu quem se frustra quando coloco os desejos alheios na frente dos meus. Tipo sempre.
“Quien quiere que yo quiera lo que creo que quiero?” A provocação da canção “Tiempo y tinta”, de Jorge Drexler, me buga (ver letra completa). Quem quer que eu queira o que acredito querer? Algoritmos? Padrões familiares? Estrutura patriarcal? Sociedade capitalista produtiva?
Minha alma é habitada por Soraya, Mara, Franklin, Cristiane, por muitas Marias e por uma criança de quem ainda não sei o nome. No mínimo.
Esse leque todo sou eu. Múltipla. Livre. Bagunçada.
Perto da transgressão há um solzinho irresistível que costumo chamar de casa. Há vôo e uma árvore de estrelas. Texturas. Sabores. Irregularidade. Desejo por reparação. Gosto pelo inacabado. Uma imperfeição completamente aceitável. Sobras recicláveis.
Há quanto tempo não sou incentivada a desenhar? Tive vontade de ir para o meu ateliê imaginal. Aquele lugar em que uma mesa de madeira de demolição detonada com resquícios de experimentos embeleza um espaço zoneado à minha maneira. Ali, ao lado do jardim, onde passo as tardes transbordando minhas lentes de mundo, meu amor pelo singelo. Ali onde derramo cachoeiras desejantes que deságuam em igarapés capazes de alimentar aldeias inteiras. Aldeias essas que não me são conhecidas, pelas quais não sou responsável, aldeias que não mais me abduzirão de mim mesma em caso de incêndio. (Até porque minha capa de heroína pegou fogo no último burnout).
Meus dedos sabem o caminho das letras. Assim como a alma, o caminho de quem sou.
Quero ser capaz de, com palavras, fazer convites. Quero abraçar dores, quero que você me leia e saiba que somos feitos da mesma matéria, assim como o torcedor do time adversário por quem você alimenta um ódio inexplicavelmente burro.
Faz algum tempo, já, que me perdi do leque. Do exercício. De mim mesma.
E o leque da conectividade, gente?
Tenho tido dificuldade de encontrar uma rotina para dormir.
Ando hiper conectada. Ansiosa. Sem disciplina. Exausta.
Seria o celular um tipo de leque escravizante do descanso?
Vix.
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal.
Conte com você.
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O leque
Vai que você é visual e curioso que nem eu…
Feedbacks
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Boa semana pra você, alma querida.
Para você que me lê também.

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