(Foto de SHVETS production)
- Filho, vamos descansar? Por que você luta tanto contra o sono? Dormir é o que faz você estar mais disposto para brincar! Seus olhinhos estão coçando, olha esse bocejo, percebe como você precisa de repouso?
“De jeito nenhum!” é o que me responde, aos prantos.
No auge de seus 4 anos de proficiência argumentativa, diz que os olhos estão coçando porque caiu um cisco, porque olhou para a luz, porque tinha uma sujeirinha ou qualquer outro motivo que ajude a justificar que não, ele não quer dormir. Que se dependesse dele, não dormiria nunca. NUNCA!
Apelo para o pouco didatismo que a paciência me permite:
- Todos os animais estão dormindo agora, filho… Sim, eu sei, menos a coruja e o morcego. Mas eles já dormiram durante o dia…
Pingo três gotas de óleo essencial de lavanda no travesseiro, capricho na voz hipnótica e começo a recitar todas as espécies do Reino Animal em ordem alfabética, da forma mais monótona possível, na esperança de que a feitiçaria funcione como sonífero:
- A esta hora, a arara azul já achou um galho bem confortável para pousar, o bezerrinho se aconchegou do lado da mamãe vaca, o cachorro da vovó também nanou, até o dromedário… nunca viu dromedário? É tipo um camelo, mas com uma corcova em vez de duas e… corcova é aquele calombo em cima do camelo que funciona como reservatório de energia porque… não, péra, esquece o dromedário, o camelo e a corcova. O elefante já está roncando, a foca, a galinha, a hiena… Também não faço ideia de por que ela ri tanto, filho. Só sei que ela está dormindo agora. Tem ainda o i… a i… a iguana! Não conhece? É um tipo de lagarto. Enfim, todos os animais estão descansando neste minuto porque é noite. Meu amor, a gente precisa dessa pausa para recuperar nossas energias e…
- Mas eu já tô energizado!
Só sei que depois de perder a batalha diária contra o descanso, meu pequeno Taz-Mania se transforma no próprio Ursinho Pooh.
Já viu esse filme por aí?
Onde será que ele aprendeu que descansar é um castigo?
Tá bem, tá bem.
Digamos que a mãe desse meu filho não seja exatamente expert em descansar.
Vamos supor que alguém, dentro dela, também concorde que dormir é perder vida.
Hein? Será? Alguém se identifica?
(Tá bom, eu assumo essa).
Mara? Ah, Mara… Obrigada por falar comigo…
Lembra da Mara? Aquela persona amarga em mim que se deixou escravizar pelas regras e bons costumes patriarcais do sistema capitalista? Ela é quem se contorce quando tento me permitir um tempo de “não-produtividade”...
(É que na minha época a gente não podia se dar esse luxo de descansar…)
Que época, Mara?
(Ah, no tempo dos meus tataravós… A vida era muito dura, minha tataravó acordava com as galinhas para dar conta dos 132 filhos! Meu tataravô vinha almoçar às 10h30 em ponto porque madrugava para apagar todos os postes da cidade assim que o sol nascia e…)
E o que isso tem a ver com você e com seu descanso, hoje?
(Bom… não sei exatamente…).
Assumimos dívidas que não são nossas. Já reparou?
Como se houvesse algum tipo de pressão invisível para que vivêssemos no modo hard.
“Meu tataravô se esforçou, preciso fazer o mesmo”. Sim, mas seu tataravô tinha notificações em tempo real pingando no Whats e no e-mail e no grupo da escola dos filhos e no telemarketing e nos golpes bancários 24h/dia? Ele sofria porque outros Estados brasileiros estavam em situação calamitosa devido à emergência climática? Ficava desconsolado ao saber que países viviam em guerra constante provocando zilhões de mortes inocentes? Tomava remédio para dormir desde a adolescência?
É certo que tataravós tinham outros tipos de perrengues que nossa vã cabeçorra de imigrante digital sequer imagina. Mas também devem ter vivido uma ou outra alegria! Acontece que essas, por algum motivo, não se transmitem tão fortemente quanto as dores e as penúrias enfrentadas.
À cada geração cabem belezas e desafios. O que não dá é para a gente absorver os desafios de todas as épocas e perder a beleza da nossa.
Consumidos pela pressão social de ser felizes em tempo recorde, esquecemos de nos perguntar qual o nosso próprio conceito de felicidade. Adotamos semânticas alheias de pessoas supostamente bem sucedidas. Os milionários. Os famosos. Os influentes.
Mas… será que dentro do nosso conceito de felicidade cabe a solidão dos milhões? O possível aprisionamento da fama? O peso da influência? Ou só o glamour ideal de tudo isso?
E o descanso? Está contido no que chamamos de felicidade?
Para mim, não estava. Até eu me fazer essa pergunta. Sim, agora. Enquanto escrevo estas groselhas indigestas.
(Pode ser que isso não faça o menor sentido para você, e descansar seja algo bom, fácil e intuitivo. Se assim for, azar o seu, que leu tudo isso à toa. Ou sorte a sua, por não ter esse tipo de distúrbio tão capricorniano. Mas desconfio que eu não seja a única pessoa intensa e workaholic com dificuldades de tornar o descanso algo rotineiro, desejável e desprovido de culpa).
“Ah, mas meu problema é tempo… Não tenho tempo para descansar”. E para dar scroll no Instagram ou uma espiada no Tiktok, você tem?
Cinco minutos de respiração consciente são descanso. Estar presente no agora é descanso. Entregar atenção plena ao seu banho é descanso. Hidratar suas células com H2O é descanso. Desintoxicar-se de telas para favorecer a produção de melatonina antes de dormir é descanso. Falar “não” para os outros é descanso. Dizer “sim” a você, também.
Sabe qual é minha meta pessoal mais recente? Aprender a ver ações de autocuidado como prazeres ordinários - e não como obrigações improdutivas.
Primeiro por mim. Porque me ajudaria muito na manutenção de um treco importante chamado sanidade.
Depois, por que adoraria saber que meus tataranetos cuidaram do sono. Da alimentação. Tomaram os tais litros de água. Fizeram exercícios. Foram zelosos com o planeta porque se entenderam pertencentes a um coletivo. Sentiram-se orgulhosos de ser quem eram. Aprenderam a se amar e, como consequência, nutriram-se também de amor, de carinho, de afeto, de relações humanas.
I wanna be rich in memories, not money (Quero ser rica em memórias, não dinheiro). Inheritance é a canção de Jon Foreman que sempre me lembra do essencial.
Para ser rica em memórias, porém, preciso me preservar viva.
Ou vai sobrar “bastante” dinheiro para quem precisar administrar minha ausência precoce.
Fomos feitos para desligar. Sempre achei isso muito mágico.
Do nada, pá: cai a chave geral: zzzzzzz.
Entramos num estado de vulnerabilidade absoluta durante o sono. Enquanto isso, na sala de controle, um turbilhão de absorções e processamentos. Físicos e inconscientes. Não é incrível?
Somos cíclicos. E, como parte de uma natureza absurdamente sábia, precisamos de momentos de atividade e de recarga.
Viver em constante modo produtivo é o mesmo que pedir ao próprio sistema: entre em colapso, pouco me importa.
Sim, estou falando comigo. E contigo.
Que necessidade louca de produtividade a todo custo é essa?
A quem servimos com tamanha eficiência?
Quando o descanso virou algo indigno?
O que sei é que estou ensinando isso para meu filho. E desconfio que ele não vá aprender enquanto eu não estiver pronta para ajudá-lo…
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal.
Conte com você.
Eu já disse que meu livro De fora para dentro está na Amazon, né? Se você já leu, posso pedir a gentileza de que o avalie por lá? Comentário AND estrelinhas, faz favor. Mil gracias, viu?
Boa semana pra você, alma querida.
Para você que me lê também.

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