(Não seja uma pessoa horrorosa, Cíntia. Não é porque todos somos analfabetos emocionais que você pode botar isso num título de e-mail e disparar a queima-roupa desse jeito, não).
Ops.
Agora já foi.
Peço desculpas pela indelicadeza, mas você sabe que aqui é meu espaço para elaborações pessoais, então acredito que não vá me levar a mal.
É que depois dos mergulhos recentes aqui dentro, percebi que a despeito de toda a minha dedicação aos estudos, ainda hoje tenho dificuldade de reconhecer, nomear e identificar minhas próprias emoções - e por vezes até a das pessoas ao meu redor.
Isso se chama analfabetismo emocional.
E longe de mim dizer que o mesmo acontece contigo, mas…
Você sabe reconhecer o que sente? Nomear seus sentimentos? Lida bem com suas emoções? Mesmo?
Pergunto porque culturalmente aprendemos a sublimar emoções “supostamente” negativas. Evitar confrontos. Engolir o choro. Ser inabaláveis. Silenciar indignações. Somatizar dores invisíveis. Condenar vulnerabilidades. Priorizar o conforto da sociedade em detrimento do nosso desejo de ser quem somos.
Nessa ordem social em que reinam as demandas externas, fica difícil notar o que se passa dentro de nossos porões.
Vamos fazer um teste rápido?
Você consegue diferenciar decepção e frustração? Raiva, ira, cólera e ódio? Afeição e amor? Alegria e felicidade?
(Se para você isso é facílimo, favor me enviar inbox o contato dos seus pais, avós e filhos. E também do profissional de psicologia que te acompanha, juntamente com cópias do seu histórico farmacológico e da ficha de consentimento preenchida - pois você será meu objeto de estudo. Se não, pode respirar, colega, você é perfeitamente medíocre).
Uma das coisas que mais admiro nos filmes Divertidamente é que eles trazem para jogo as emoções personificadas e livres de julgamentos. Não tem uma emoção vilã. Todas têm um papel.
E são fundamentais para criar nosso sentido de existência.
A Disney-Pixar, com Divertidamente 2, botou a ansiedade em cima da mesa para olharmos de fora. E que trabalho maestral de construção de personagem! Vergonha, preguiça, tédio, raiva, nojo, alegria, tristeza… com eles, vamos ganhando repertório para lidar com nossa psique.
Só que ainda temos poucas ferramentas para, de fato, entender o que sentimos. Precisamos de coisas práticas que possam ser trabalhadas na escola, na clínica de psicoterapia, em vivências corporativas diversas, em casa!
Por que estou falando tudo isso?
Porque estou emocionada.
Aqui posso falar sem filtro: peguei toda inquietação que me habita, juntei com meu pragmatismo, filtrei com a sensibilidade desta alma transgressora e, plim! Fui canal de vida para uma nova cintilância!
Acaba de nascer o SENTIMENTÁRIO, meu Baralho Poético de Emoções!
(Uau, Cíntia, que esperta, você, de lançar isso justo agora que todo mundo está falando de emoções! Sensacional! Parabéns! Chuva de confetes! Trombetas! Serpentina! Viva! Hip Hip Hurra!)
Obrigada, obrigada. Vejam que sincronicidade! Nem tinha reparado!
A verdade é que o SENTIMENTÁRIO é uma das ideias que me habita há mais de um ano, mas só agora consegui sentir tranquilidade em colocá-lo no mundo.
Calma que ainda vou explicar do que se trata.
(Se tiver pressa, já olha aqui: www.benfeitoria.com/sentimentario)
Meu intuito com ele é abrir diálogos por meio da arte.
Acredito tanto, tanto, tanto na potência do belo para nos desbloquear! Ou simplesmente para nos causar um estado de encantamento!
Por isso, recorri à poesia para definir cada emoção de forma sucinta (no máximo 50 caracteres) e profunda (porque sim).
A linguagem poética é um convite à imaginação. Um atalho para alma. Dá acesso imediato ao nosso campo mais sensível e, portanto, humano.
Por exemplo:
Afeição é o tipo de amor que chove baixinho.
Amor é quando as borboletas do estômago pousam no coração.
Como reverberam em você esses sentimentos?
Para dialogar comigo nesse projeto, convidei uma artista chamada Thaio Conde. Ela é ilustradora e domina uma técnica que mistura aquarela, lápis de cor e originalidade. Mãe solo, Thaio é uma força da natureza. Mora no meio do mato no interior de Minas Gerais. Transformou seu fusca num ateliê, onde trabalha enquanto espera a filha sair da escola - que fica a vários quilômetros de casa. Também é mãe de gatos, cachorros e suculentas. Acredita nas estrelas e nos astros.
O olhar alquímico da Thaio foi fundamental para aprofundar os personagens que protagonizam o SENTIMENTÁRIO. Eles são inspirados em quatro elementos:
Flexível e profunda, essa mulher de caudalosos cabelos azuis experimenta emoções como assombro, curiosidade, tristeza e nojo.
O personagem de fogo é um homem de ascendência indígena e cabeleira em chamas. Prova sentimentos como ciúme, histeria, vergonha e felicidade.
De gênero não binário, pele lilás e cabelos de algodão, essa pessoa vive emoções como admiração, indiferença, angústia e esperança.
A personagem que vivencia sentimentos como medo, compaixão, ressentimento e amor é uma mulher preta de cabelos verdes e raízes ancestrais.
O SENTIMENTÁRIO foi pensado para ser representativo de um mundo que sonho habitar. Livre. Plural. Orgânico.
Para financiar a produção desse baralho, é necessário trabalhar com gráficas chamadas offset, que imprimem em quantidades maiores que mil unidades. Do contrário, o material sairia caro - porque além de tudo eu faço muita questão que a experiência sensorial desse baralho seja a mesma de você pegar uma pluma preciosa e rara nas mãos.
(Por isso, inclusive, desisti de colocar os naipes no baralho - ou certamente algumas figuras o usariam para jogar truco e isso seria… lindo, na verdade. Mas digamos que para colar um zap na testa alheia existam modelos da Copag mais acessíveis).
Foi quando cheguei no crowdfunding - que é um jeito coletivo de dar vida a ideias. Existem várias plataformas para isso (Catarse, Kickante, Vakinha…) e eu escolhi a Benfeitoria porque ela é, para mim, a mais humana.
(Depois vou fazer um post específico sobre minha experiência com a Benfeitoria. Além de todo o didatismo da própria plataforma, eles disponibilizam pessoas de verdade para nos apoiar. Pessoas que têm apelidos (beijo, Ciça e Mih). Pessoas que mandam emojis. Pessoas-gente, sabe? Que abreviam no Whatsapp. Gente!).
Isso porque tive a sorte e a alegria de já ter conseguido o financiamento de 50% do valor necessário para a impressão. Mas depois eu conto essas história com calma.
Aliás, talvez eu ainda dê um pulo aqui nas próximas semanas, tudo bem?
Tenho sentido necessidade de falar de emoções - e algo me diz que isso ainda vai render.
Acho que cabe na Alma Transgressora, não é mesmo? É. Acho que cabe. Me diz o que acha de iniciarmos um novo rolê despretensioso?
Boa semana para você, alma querida.
Pra você que me lê também.

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