Quem é melhor: Dostoievski ou toda a literatura brasileira? Quem tem mais poetas: a nossa literatura ou a portuguesa?
Ultimamente, as redes sociais foram tomadas por rinhas literárias tão infantis quanto um menino colocando seus bonequinhos pra brigar:
“Quem ganharia numa briga, o Superhomem ou o Hulk?!”
Essa é a newsletter de literatura do Alex Castro. Gostou? Assina. :)
Parte do público parece imaginar que, nos cursos universitários de Letras, nossa atividade principal é estabelecer rankings de autores e literaturas:
“Essa literatura é melhor que aquela, esse autor é melhor que aquele. Machado vale três Clarices. Shakespeare inventou o humano. Etc.”
Atesto e dou fé: essa questão, que pode até ser divertida às duas da manhã numa mesa de bar, mas não passa nem perto de um debate acadêmico na área de literatura.
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Antônio Cândido: “nossa literatura é pobre e fraca!”
Um de nossos maiores críticos literários, Antonio Cândido, já resolveu essa questão no prefácio ao nosso melhor livro de história literária, Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos, lançado em 1959:
“Há literaturas de que um homem não precisa sair para receber cultura e enriquecer a sensibilidade; outras, que só podem ocupar uma parte da sua vida de leitor, sob pena de lhe restringirem irremediavelmente o horizonte. Assim, podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão, mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores da sua terra e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias. Se isso já é impensável no caso de um português, o que se dirá de um brasileiro? A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas... Os que se nutrem apenas delas são reconhecíveis à primeira vista, mesmo quando eruditos e inteligentes, pelo gosto provinciano e pela falta de senso de proporções. Estamos fadados, pois, a depender da experiência de outras letras, o que pode levar ao desinteresse e até menoscabo das nossas (...)
Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não há outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimatação penosa da cultura europeia, procuravam externalizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam - dos quais se formaram os nossos”.
Esse pequeno texto ainda me comove até hoje, décadas depois de ler pela primeira vez.
A literatura brasileira está sendo atacada?
Compartilhei esse trecho nas minhas redes sociais e me surpreendeu muito ver que várias pessoas correram para defender a literatura portuguesa, como se estivesse sendo atacada. Por exemplo, e não foi a única, a leitora Ana Clara:
[D]iscordo com Antonio Cândido, quando diz que a nossa literatura é pobre e fraca… vai falar isso de Clarice? Machado? Tenha dó, rs! A grama do vizinho é verde, mas, quando bate sol, a nossa esverdeia também.
Por acaso, Cândido foi o primeiro crítico a saudar a obra da Clarice, quando ela ainda era menina:
Então, para a Ana Clara, e para as outras pessoas que viram nas palavras de Antonio Cândido uma crítica à literatura brasileira, acho que cabe uma explicação.
Antônio Cândido e a defesa da literatura brasileira
Talvez não esteja claro sem o contexto histórico, mas o texto de Cândido é uma das belas defesas da literatura brasileira que já li.
Cândido está escrevendo quando os cursos de Letras praticamente não existiam, quando a literatura brasileira não era estudada nem nas escolas nem na universidade.
Ele mesmo, nascido em 1918, fez gradução (1942) e doutorado (1954) em Ciências Sociais, tendo sido primeiro professor da cadeira de Sociologia. Só mais tarde, em 1958, ele se tornaria professor universitário de literatura brasileira. (A Formação da literatura brasileira, vamos lembrar, é do ano seguinte, 1959.)
Os primeiros cursos universitários de Literatura Brasileira são dessa época, por volta de meados do século XX, criados pela própria geração de Cândido. Os cursos de pós-graduação ainda demorariam um pouco mais.
Antes disso, o estudo de Letras, quando existia, era pra estudar latim, grego, retórica. Muitas vezes, estava vinculado às faculdades de direito. Línguas e literaturas só por conta própria, de forma amadora.
Então, o que Cândido está fazendo no prefácio da Formação da literatura brasileira é, num cenário onde não se estudava literatura brasileira, onde essa tradição não existia, onde nossa literatura era considerada indigna de estudos sérios, fazer uma defesa de que ela tem um valor intrínseco... por ser nossa, por fazer parte da nossa História e de quem somos.
É uma defesa belíssima que literalmente inaugura os estudos universitários de literatura brasileira.
Antônio Cândido e a rinha de literaturas
Em um dado momento do texto, parece que Cândido está fazendo uma rinha de literaturas, colocando a francesa, italiana, inglesa e alemã no topo, a russa e a espanhola num degrau inferior, a portuguesa bem mais abaixo e a brasileira lá no pé:
Podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão, mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores da sua terra e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias. Se isso já é impensável no caso de um português, o que se dirá de um brasileiro?
Aqui, Cândido está falando de história literária, não de qualidade intrínseca em si.
Nos séculos XVIII e XIX, que ele estuda, a literatura portuguesa era completamente derivada da francesa. Não havia nada de novo, de diferente, de original. Quando muito, os grandes nomes do romantismo português (Garrett, Herculano, etc) eram os melhores… em adaptar e copiar as modas estilísticas francesas — e algumas vezes italianas, inglesas, alemãs — à realidade de Portugal e ao gosto do público português.
E nós, coitados, desse lado do Atlântico, sem nenhuma tradição literária própria para nos apoiar, éramos a periferia da periferia, a cópia da cópia, os derivados dos derivativos.
No máximo, mudava de quem copiávamos: Álvares de Azevedo e Castro Alves se destacaram entre os contemporâneos que imitavam os franceses… porque escolheram imitar os alemães. Machado de Assis despontou como gênio quando parou de imitar os franceses, como todo mundo, e passou a imitar os ingleses — que logo superou, porque era gênio de verdade. Gonçalves Dias estudou em Portugal, bebeu da moda medievalista do romantismo português e imitou muito Garrett e Herculano, mas só encontrou sua própria voz, e que voz genial!, quando aplicou essa dicção medievalista aos povos originários do Brasil, localizando fortemente sua obra. Etc.
Na verdade, hoje, nossas aulas de literatura brasileira escondem esse processo derivativo e, ao fazer isso, falsificam a história.
Por exemplo, lemos “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, sem nunca sabermos que foi totalmente copiado de uma poesia de mesmo nome do poeta alemão Heine.
Isso tira o valor de Castro Alves? Claro que não. Naquele momento histórico, foi um golpe político e literário de mestre, da parte de um menino de 21 anos!, perceber que uma versão brasileria dessa poesia de Heine poderia ter um impacto real na vida brasileira.
Mas, não, não foi uma criação original e inovadora de um gênio insuperável da ainda engatinhante literatura brasileira.
Lido isoladamente, como se flutuando no vazio do espaço, o nosso cânone literário dos séculos XVIII e XIX até parece bom, admirável, criativo, emocionante. Quando estudado no contexto da literatura européia que está imitando e de quem depende, ele parece formado, em larga medida, por cópias fracas.
(O crítico literário que melhor expõe essa triste realidade é o enfant terrible da UnB Flavio Kothe, em seus indispensáveis O cânone colonial e O cânone imperial, que eu não poderia recomendar em termos mais enfáticos.)
Nossa literatura atinge seus pontos altos (seus “momentos decisivos” do título da obra de Cândido) quando consegue “localizar” essas cópias, quando pega esses cânones decalcados e consegue aplicá-los ao Brasil com algum frescor e originalidade, como fazem Tomás Antônio Gonzaga em Marília de Dirceu e Gonçalves Dias, nas suas poesias indianistas.
De resto, é tudo muito tedioso, artificial, repetitivo. E nós, professores de literatura, ao escondermos os originais que nossos escritores copiaram, enganamos nossas crianças para fazê-las gostarem de textos fracos e derivativos. Não estamos ensinando nossos alunos a gostarem, ou mesmo a entenderem, literatura: estamos fazendo uma lavagem geral para amarem acriticamente tudo que é brasileiro só por ser brasileiro. (Falo sobre isso na Prisão Patriotismo.)
Não é à toa que a Formação da literatura brasileira do Cândido começa com Marília de Dirceu — que, para ele, abre a literatura brasileira, pois pela primeira vez tínhamos um “sistema literário” (antes, era tudo muito isolado) — e termina com Machado de Assis, que é quando finalmente transcendemos o material que copiávamos e conseguimos criar algo verdadeiramente novo, único, genial.
Então, é disso que o Cândido está falando.
Para saber mais
Já pesquisei muito a vida de Castro Alves. Nesse texto longo, falo especificamente de suas poesias anti-escravistas:
Machado de Assis é, por óbvio, o gênio incontestado da nossa literatura:
— Por onde começar a ler Machado de Assis (uma rápida seleção dos melhores contos)
— Dom Casmurro (uma história das leituras do romance)
— A escravidão, esquecida: “Mariana”, de Machado de Assis (análise de um conto antiescravista esquecido de Machado)
— O escravo que Machado de Assis censurou (sobre a atividade de censor teatral que Machado exerceu)
Gonçalves Dias é certamente um dos meus poetas preferidos da vida. Esse texto explora a conexão entre seu medievalismo e indianismo:
— Medievais, Indianistas, Inconfidentes
Por fim, Marília de Dirceu é um dos meus livros de poesia preferidos de todos os tempos. Como sei que muita gente acha chato e simpório, nesse texto eu faço uma defesa sustentada, situando o livro dentro da história literária e tentando demonstrar o seu valor:
— Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga
E em vídeo (sempre lembrando que minhas pessoas mecenas têm acesso a todas as minhas aulas, passadas, presentes, futuras, enquanto durar o mecenato):
Antônio Cândido em novas edições
Antonio Cândido nasceu em 1918 e morreu em 2017, quase aos cem anos. Ganhou o Prêmio Jabuti diversas vezes, o Machado de Assis em 1993, o Camões em 1998.
A editora Todavia está reeditando toda a obra de Antonio Cândido e eu recomendo sem restrições. O melhor livro, ainda é e será sempre, na minha opinião, a Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos. Para quem quiser a melhor e mais curta introdução possível, recomendo a Iniciação à literatura brasileira, de cem páginas. Os outros livros são coleções de ensaios e todos valem a pena.
Os rebeldes conservadores e a escola olavista de crítica literária
Dou a última palavra ao Martim Vasques da Cunha, cujo tuíte despeitado deu início a toda essa linha de raciocínio. Mais tarde, buscando pelos trechos da Formação da literatura brasileira para incluir aqui, encontrei uma newsletter do Martim onde ele especificamente detona esses trechos, a obra, o próprio Antonio Cândido.
Nenhuma defesa minha do Cândido pode ser melhor do que um ataque como o do Martim, então, recomendo ler:
Mesmo quem não entende nada de literatura, pode detectar o tom despeitado, ressentido, desrespeitoso. O próprio crítico, por sua escolha de palavras, se coloca em posição inferiorizada em relação a Cândido, como um menino frustrado, esperneando contra a influência do Grande Pai que o oprime. É infantil e constrangedor — especialmente em comparação à prosa calma e elegante de Cândido.
Martim também cometeu o livro A poeira da glória: Uma (inesperada) história da literatura brasileira. Folheei na livraria: nenhum trecho, nenhuma página, nenhum capítulo se salva, nada.
O livro tem enorme valor histórico como documento da “escola olavista de crítica literária”, que consegue, ao mesmo tempo, defender uma visão de mundo ultra-conservadora e mega-retrógada, em defesa dos perenes valores ocidentais, etc, e, também, num malabarismo retórico impressionante, se ver como berço de rebeldes inferiorizados e corajosos, telling truth to power!, ousando encarar a hegemonia esquerdopata do meio universitário.
Próximas atividades para mecenas
Todo mês, dou aulas e promovo conversas livres sobre literatura e história para minhas pessoas mecenas. Aqui vão as próximas. Seja mecenas, é a melhor forma de me apoiar. Além disso, minhas mecenas têm acesso a todas as aulas dos meus cursos passados.
Domingo, 14jun: conversa livre, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance
Quarta, 17jun: aula, United Fruit e as repúblicas de bananas, Grande Conversa Romance
Quarta, 1ºjul: aula, Cidade, Grande Conversa Medieval
(calendário completo para 2026)
Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos
O curso Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos é um mergulho profundo em alguns dos maiores e mais perfeitos romances da literatura mundial.
Dois meses para cada livro (quatro para Guerra e paz): um encontro livre para conversar sobre a leitura no primeiro domingo de cada mês e uma aula expositiva ao final dos dois meses, ambos no Zoom, e muito bate-papo literário todo dia no Whatsapp.
Ninguém precisa de ajuda para ler os livros fáceis e curtos. A ideia do curso é ajudar vocês a lerem aqueles livrões que, talvez, estavam adiando ler a vida inteira e, quem sabe, ajudá-los também a encontrar novos livrões legais.
Leremos só grandes livros, um romance em cada uma das principais línguas literárias ocidentais. Abaixo, a lista completa, em ordem cronológica. Os links já levam à edição recomendada.
1 Moby Dick, inglês, 1851 (agosto & setembro 2025)
2 Os miseráveis, francês, 1862 (outubro & novembro 2025)
3 Guerra e paz, russo, 1867 (dezembro 2025, janeiro, fevereiro & março 2026)
4 Grande sertão: veredas, português, 1956 (abril & maio 2026)
5 Cem anos de solidão, espanhol, 1967 (junho & julho 2026)
6 Tetralogia napolitana, italiano, 2015 (agosto, setembro & outubro 2026)
Saiba mais sobre o curso aqui.
Grande Conversa: Romance, Calendário
Dom, 14jun26, 19h: Conversa livre, Cem anos de solidão
Qua, 17jun26, 19h: aula, United Fruit e as repúblicas de bananas
Dom, 5jul26, 19h: Conversa livre, Cem anos de solidão
Qua, 22jul26, 19h: aula, As independências na América Latina
Qua, 29jul26, 19h: aula 5, Cem anos de solidão
Dom, 2ago26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Dom, 6set26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 30set26: aula, História da Itália
Dom, 4out26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 28out26, 19h: aula, Tetralogia napolitana
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