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Alex Bretas – Aprendendo em Voz Alta · Mar 25, 2026

Fazer coisas difíceis

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6 sabedorias do meu segundo cérebro

Na maratona mais extenuante do mundo no Saara, há uma regra simples: se os camelos te alcançarem, você está fora da corrida.

Imagina só: uma corrida de 250 km com dunas que se movem, rajadas de vento cortante e temperaturas extremas.

Por que as pessoas escolhem por isso?

Há algo de fascinante em se propor a fazer algo difícil.

Você pode nunca correr uma maratona no Saara nem praticar esportes radicais, mas ainda assim é possível que esteja executando (ou buscando executar) alguma coisa difícil na sua vida agora – quer seja por pura vontade de testar seus limites, por um propósito que você acredita e/ou por força das circunstâncias.

No meu segundo cérebro, fui colecionando uma série de sabedorias sobre “fazer coisas difíceis” (inclusive a história da maratona que acabei de contar).

O que compartilho abaixo é um pequeno pot-pourri sobre o tema retirado diretamente do meu “intestino criativo”.

1. Porque realizar coisas difíceis é importante

(vi em um dos e-mails do James Clear)

O empreendedor Nat Eliason sobre a importância de se desafiar a fazer coisas difíceis:

“A capacidade de fazer coisas difíceis é talvez a habilidade mais útil que você pode fomentar em você mesmo e em seus filhos. E a prova de que você é capaz disso é um dos bens mais úteis que você pode ter em seu portfólio de vida.

Nossa autoimagem é composta por um histórico de evidências das nossas habilidades. Quanto mais coisas difíceis você se esforça em fazer, mais competente você se perceberá.

Se você consegue correr maratonas ou levantar o dobro do seu peso acima da cabeça, a privação de sono ocasionada por um bebê será apenas uma irritação leve. Se você consegue ser excelente em química orgânica ou econometria, a entrada em um novo emprego será moleza.

Mas se evitarmos coisas difíceis, qualquer coisa ligeiramente desafiadora nos parecerá intransponível. Mergulharemos indefinidamente no TikTok toda vez que pegarmos no celular para enviar uma mensagem. Nos veremos incapazes de aprender novas habilidades, assumir novas carreiras e escapar de situações ruins.

A prova de que você pode fazer coisas difíceis é um dos presentes mais poderosos que você pode dar a si mesmo”.

Comentário: eu gosto da visão dele, embora o tom seja um pouco heroico demais. Faz sentido psicologicamente se pensarmos no conceito de crenças de autoeficácia de Albert Bandura, especificamente no aspecto da experiência direta (as pessoas formam suas visões sobre suas próprias capacidades a partir do que entendem que conseguiram ou não executar anteriormente).

2. Divirta-se, mesmo sendo difícil

O próprio James Clear, em mais um dos seus e-mails, sobre um tipo de mentalidade ao realizar algo desafiador:

“Quando você estiver fazendo algo difícil, foque na parte divertida.

Muitas pessoas cometem um erro sutil: enfatizar o quão difícil é fazer algo. Elas dizem a si mesmas que escrever é difícil, correr é difícil ou matemática é difícil. E assim por diante. O pensamento dominante em suas cabeças é que aquela coisa é muito difícil de fazer.

E é verdade que essas coisas, e muitas outras na vida, podem ser de fato desafiadoras.

Por outro lado, pessoas que florescem em uma determinada área muitas vezes enfatizam um aspecto completamente diferente da experiência. Elas estão pensando em como se sentem bem em movimentar o corpo, em vez de dizerem a si mesmas que se exercitar é difícil. Ou pode ser que elas nem estejam realmente pensando muito. Elas podem até entrar em transe durante uma corrida, encontrando um ritmo meditativo.

O que quase certamente essas pessoas não estão fazendo é repetir uma história mental sobre como é difícil realizar a ação. O pensamento que predomina é em algum elemento da experiência que apreciam. Elas estão trabalhando duro, mas com a parte divertida em mente”.

Comentário: embora toda essa ideia de “transformar seu mindset” seja bastante reducionista, a maneira pela qual escolhemos “enquadrar” uma situação mentalmente não é desprezível. Na minha própria vivência, o fato de realçar a diversão e a “interessância” das coisas difíceis me ajuda a encará-las com mais leveza.

3. Acumular conhecimento nem sempre ajuda

James Clear, mais uma vez:

“Na maioria das vezes você não precisa de mais informações; você precisa de mais coragem”.

Comentário: é comum tentar “tapar o sol com a peneira” em situações desafiadoras buscando irrefreavelmente mais conhecimentos – tentando erguer uma muralha teórica entre nós e a realidade –, quando na verdade o que mais faz diferença é agir, dar um pequeno passo. Dentro da muralha pode até ser seguro, mas ela também te aprisiona.

4. O “difícil” é sempre contextual

Meu amigo Cali, uma das pessoas mais intencionais que conheço:

“Dificilmente as pessoas conseguem desempenhar melhor do que o seu ambiente permite e do que ele as inclina a se comportarem”

Comentário: pode ser que uma coisa extremamente desafiadora pra você em um dado contexto (cultural, relacional, espacial, geográfico etc) seja até fácil em outro, e vice-versa. E você pode, até certo ponto, aprender a manipular seu ambiente de modo a tornar menos difícil aquilo que deseja realizar.

Mais alguns textos sobre o assunto:

5. Fazer algo difícil é uma aventura

Uma fala de outro amigo querido, o Patrick:

"A aventura estimula as pessoas a serem outras coisas"

💡 Comentário: eu escrevi sobre aventura recentemente por aqui, e também em dois dos meus livros, 25 Comportamentos de Aprendizes Autodirigidos Altamente Eficazes e Se Joga Que Aqui Tem Rede. Esse compartilhamento do Patrick me atravessou porque é bem isso que acontece: quando nos aventuramos – e fazer algo difícil pode ser visto como uma aventura –, acabamos por “tropeçar” em novas versões de nós mesmos antes soterradas.

6. Nosso sistema gera “dificuldades estruturais”

Uma foto que tirei do celular do Ciano, outro amigo, quando ele me apresentava sua investigação sobre pedagogia marginal (perdoe a imagem ruim):

Comentário: o Ciano propõe uma metáfora para explicar a ideia de problemas estruturais, representados por bolos, ao passo que cada fatia corresponde a um recorte ou perspectiva específica que podemos ter sobre esse problema. A fábrica de bolos seria então o nosso sistema social, gerador ininterrupto de opressões e desigualdades.

É importante lembrar, a partir desse entendimento, que grupos populacionais marginalizados – mulheres, pretos, pobres, indígenas, pessoas LGBT+ etc – são oprimidos o tempo todo e de diferentes maneiras pela “fábrica de bolos”, e que isso os impele a fazer coisas difíceis não numa perspectiva de “aventura” ou por escolha própria, e sim por sobrevivência. Quando essas pessoas optam por fazer algo difícil porque querem, é ainda mais difícil (às vezes impossível). E isso obviamente não se dá por uma falta de capacidade, e sim por falta de acesso a direitos.


Pois bem, essas são as minhas reflexões sobre fazer coisas difíceis derivadas do meu segundo cérebro.

Faz sentido por aí? Quais coisas difíceis você está escolhendo fazer?


No Nibs 0→1, a gente vai entender como o difícil pode se tornar mais fácil junto.

Tem método pra isso. É o que você vai aprender no meu novo programa gratuito e online.

De 15 a 22 de abril. Não deixe de se inscrever.


Obs. 1: a corrida que cito no início é a Maratona das Areias (Marathon des Sables), realizada no sul do Marrocos e cuja distância equivale a 6 maratonas regulares em 7 dias no meio do deserto do Saara.

Para saber mais sobre a prova, vale assistir o primeiro episódio do documentário Human Playground na Netflix.

Obs. 2: este texto foi originalmente publicado em 2023. Editei levemente algumas partes.

Read on alexbretas11.substack.com

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