Mesmo se existisse um manual de equilíbrio para o processo criativo, com certeza seria impossível citar todas as possibilidades e dores que a gente sente durante o caminho. Quem tem o costume de trabalhar com algum tipo de desenvolvimento artístico sabe que ter ideias não necessariamente envolve padronizar o processo (na real, não rola em grande parte das vezes), e é raro uma ordem de pensamentos que anda em linha reta.
O desconforto de não saber por onde começar ainda me aperta mesmo depois de todos esses anos, ironicamente costuma ser pior em momentos de muitas ideias. Apesar disso, adoro a mistura de sensações - o vício discreto - de ter várias possibilidades na cabeça e poder gerar resultados completamente diferentes um do outro. A incerteza do que será vira um tipo de combustível, uma animação ansiosa pra ser degustada sem ter o controle absoluto do processo, deixando que cada projeto seja o projeto.
Não tô dizendo que a descoordenação é quem manda, mas que a maneira de criar é orgânica, fluida e única, impõe o necessário na sua vez, e o artista… segue o ritmo?
Referência, referência e referência.
Como uma arquiteta que trabalha com marketing sou fã número 1 do “nada se cria, tudo se copia “. Apesar de não ser a melhor escolha de palavras já que não é literalmente uma cópia, deu pra entender. Buscar referências é sempre um combustível pra incrementar ainda mais uma ideia, e apesar de parecer óbvio pra quem está no nicho, nem sempre foi claro pra mim a importância dessa ação. A verdade é que não dá pra nascer sabendo tudo no mundo da mesma forma que não dá pra emergir as melhores criações absolutamente do nada, só por saber. O estudo, a busca por referências e a melhoria das nossas capacitações é o que nos deixam prontos pra entregar um bom resultado. E sim, você vai gastar horas, dias, só pra entender o que você quer fazer naquela demanda e quais estratégias tomar observando outras propostas do ramo.
Criar, gostar, não gostar.
Reajustar, odiar, começar do zero, revisar. E revisar de novo e de novo.
A tal da revisão pode ser realmente irritante. É como se o que voce criou fosse um bebê fofo e bochechudo que você toma conta, e do nada precisa desapegar pra cuidar de um outro bebê fofo e bochechudo: você vai acabar gostando do segundo bebê, mas o primeiro já tinha um lugarzinho especial na sua mente. Analogias à parte, abandonar uma ideia já estabelecida pode ser estressante apesar de quase sempre dar espaço pra algo novo ainda mais lapidado. Esse tipo de abandono forçado é comum e essencial pra relembrar quanto mais a gente solta, mais liberdade a criação ganha pra se reinventar.
E a gente se acostuma com o recomeço infinito. O prazer de ver algo tomando vida e existindo fora de você (independente do seu processo criativo) é realmente maravilhoso. Nada como entregar um projeto, uma campanha, ver o seu bebê bochechudo dando passos e virando a esquina.
Os processos são doidos.
As vezes uma solução pode vir do nada, as vezes demorar dias. As vezes trabalhar num lugar diferente vai trazer a inspiração, em outras só esperando alguns dias passarem. É normal que antes da clareza tudo fique um pouco confuso. Me lembro de projetos arquitetônicos onde eu sofria pra encaixar todo o programa no mesmo espaço, ambientes que simplesmente não cabiam na planta baixa. Um sofrimento que só. Até que do nada, vendo uma série sobre qualquer coisa, uma resposta vinha a mente. A relação de desvencilhar com obter respostas também é curioso e impressionante na criação, forçar uma resposta muitas vezes não vai dar a inspiração necessária.
Tem horas que parece que as ideias são todas soltas, correndo em direções diferentes enquanto eu tento juntar os pedaço até formar algo que faça sentido. Outras vezes, é como se tudo parasse e eu ficasse olhando para o nada, esperando que alguma coisa apareça. Estranhamente divertido sentir cada pequeno estalo de uma sacada nova bem na hora que você precisa. Se perder pra se encontrar faz parte do criar, e ainda assim gostar do caminho.

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