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Mesa do Alberto · Jun 2, 2026

Enxergamos 1% da realidade

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E como uma gaveta me ensinou isso

Alguns anos atrás, um novo mundo se abriu para mim. Desde então, nunca mais fui o mesmo.

Sei que parece dramático, mas juro, esse momento foi tão essencial na minha vida, que consigo lembrar exatamente onde eu estava quando ele aconteceu pela primeira vez.

Foi a 7 anos atrás. Em uma loja de móveis para escritório. Daquelas que vendem as cadeiras e mesas que você imagina quando desenha a versão mais genérica possível de um escritório. O tipo de loja que atua mais ou menos como rito de passagem para a vida adulta. Quando o adolescente entende que nenhuma cadeira gamer supera uma boa Flexform.

Esse é o momento em que entramos na vida adulta.

Mas essa não foi a realização que mudou minha vida.

Eu fui nessa loja acompanhar um amigo que escolhia uma nova cadeira e, enquanto ele pagava, fiquei zanzando pela loja até encontrar uma mesa.

Era uma mesa absolutamente normal, do tipo que uma IA iria criar se você enviasse um input de imagem “faça uma mesa de escritório que tenha gaveta”. Esse detalhe final importa. O que me prendeu naquela mesa foram as gavetas. Fiquei uns bons minutos admirando elas, abrindo, fechando, refletindo, observando… completamente fascinado por aquilo.

Um clássico do design moderno

E, eu juro, aquela gaveta, sem absolutamente nada de especial, mudou tudo.

Mas antes, para preparar terreno, preciso falar sobre cozinhas e programação.


Antes de seguir: relendo o texto abaixo, vi que pintei uma versão quase que romântica do ato de cozinhar. Sei que, para muitas pessoas, não tem nada romântico nisso. Esse trabalho muitas vezes é feito por mulheres que enfrentam uma jornada dupla invisível, tendo que conciliar o trabalho com o cuidado da casa e da família.

Esse segundo trabalho é normalmente negligenciado sob a ótica de que é “papel da mulher” cuidar da casa ou com o falso elogio que é “espírito de mãe” ser a única a olhar pelos filhos.

Escrevi pensando na minha realidade e acabei não problematizando esses pontos que devem e merecem ser problematizados.

Sei que não é meu lugar de fala, mas queria deixar esse comentário para registro.


Gosto muito da categoria privilegiada que o ato de cozinhar ocupa nas vidas brasileiras.

Quando queremos dizer que a pessoa é completamente inapta para a vida domiciliar, falamos que ela “não sabe nem fritar um ovo”. Classificamos esse ato como tão banal que é a régua mínima para aceitarmos as plenas capacidades do cidadão.

É algo tão sério que muitas vezes a pessoa pode ter um emprego respeitável, participar de círculos sociais notórios e até ter um bom capital cultural. Mas nada disso importa se ela não sabe fritar um mísero ovo. Seja gema mole ou gema dura, esse é o mínimo.

Porém, a cozinha não é apenas o mínimo para a existência civil de um adulto.

Quando queremos impressionar alguém em um primeiro encontro, cozinhamos para ela. Obviamente, não cozinhamos qualquer coisa. Definitivamente não fritamos um ovo.

Precisa ser gostoso, mas também ajuda ser algo mais elaborado. Minha escolha óbvia, aliás, é risoto. Gostoso, difícil de errar e, quando se olha bem, é muito fácil de fazer. Além de permitir opções vegetarianas e veganas, uma observação sempre importante.

Aliás, melhor ainda para estreitar os laços, ao invés de cozinhar para a pessoa, cozinhe com a pessoa. No lugar de recebê-la com a mesa feita, receba-a com a mise en place do prato mais ou menos feito. Chame-a para a cozinha e deixe este ser o ponto de partida.

Mas eu, que sei fazer um risoto decente e preparo todas as minhas refeições, e a pessoa que não sabe fritar um ovo, não estamos assim tão distantes.

Afinal, ok, eu sei me virar na cozinha. Não ponho fogo em uma desde meus 8 anos. Mas, no frigir dos ovos (!), sou só uma pessoa comum. Não trabalho com cozinha, não me especializei nisso nem fiz nenhum curso. Aprendi quase tudo observando outros, lendo receitas ou, mais comum, por tentativa e erro.

Cozinhar é essa coisa que ninguém espera que você seja um profissional. Todos esperamos que você saiba, pelo menos, fritar um ovo. Ainda assim, existe espaço para o profissionalismo.

Pessoas vão realmente ganhar a vida cozinhando. Exaltamos esse tipo em guias de restaurantes ou reality shows de TV.

Porque cozinhar pode ser algo trivial, pode ser algo para criar relações, pode ser uma profissão, pode até ser uma forma de expressão artística. Mas, para mim, quase sempre, é apenas um ato mundano.

Quando vou preparar o almoço, não floreio a ideia com toda essa grandeza. Na minha vida, conto nos dedos os momentos em que preparar uma refeição é algo maior que preparar uma refeição.

O que não quer dizer que, nesses momentos, eu produza algo ruim ou mesmo mediano. Tentativa e erro é um ótimo professor. No geral, o que faço na cozinha sai com um sabor bem agradável. Sem o refinamento de um bom restaurante ou o tempero saudoso da minha vó. Mas, no geral, sinto prazer quando como.

Tudo isso, vindo de uma pessoa que trata a culinária quase como uma ferramenta secundária para sobreviver no dia a dia. Por que, no fim, meio que é isso. É legal cozinhar com minha namorada, ou saber preparar algo que eu esteja com muita vontade, sabendo que o resultado final vai me agradar.

Talvez seja por isso, por esse meu encantamento particular, que uso a cozinha numa metáfora específica bem recorrente.

Na minha vida pessoal, fora do substack, sou um desenvolvedor. Trabalho escrevendo códigos. E códigos são escritos em linguagens específicas. Python, Java, JavaScript, C#, C++, dentre outros.

Quando me questionam sobre a dificuldade de aprender uma nova linguagem de código, costumo falar que é como cozinhar.

A primeira vez que uma pessoa entra na cozinha para fazer seu primeiro prato, tudo é novo. Ele não sabe como funciona o fogão, onde ficam as panelas, o melhor jeito de picar o alho (ou seria melhor amassar?). Até coisas banais, como escolher a colher certa para se defender a condução de calor, é um mistério pro viajante de primeira viagem.

Quando ele for desafiado de novo, mas, dessa vez, para um novo prato, a dificuldade não some. Se, da primeira vez, ele fez um risoto, e na segunda decide fazer um bolo, muita coisa nova vai ser descoberta.

Mas essa segunda descoberta parte de uma base. Agora, ele já sabe onde ficam as panelas e como operar o fogão. Claro, vai ter que aprender porque mexer o bolo com um fuê pode ser mais interessante que com uma colher, em certos casos.

Ainda vai ter muito a se aprender. Mas a curva, inevitavelmente, é menor.

Lógica de programação é mais ou menos assim. Muitos dos conceitos são carregados entre linguagens. Aprender a primeira é mais difícil, mas, inevitavelmente, vai facilitar aprender as demais.

Voltando ao meu ponto inicial, talvez você não queira aprender outros pratos. Talvez você não queira aprender outras linguagens (no meu caso, esse segundo não chega a ser muito uma opção). Talvez você queira saber preparar um ou dois pratos muito bem e, de resto, tudo bem ser apenas eficiente.

Você sabe fazer mesmo ser um especialista. Entende o suficiente para apreciar um especialista fazendo, inclusive, mas não tem a vontade de chegar lá.

É mais ou menos com nossos hobbies. Meu caso, adoro videogame, gosto de ler sobre a história, making off, jogar desde velharias até lançamentos e entender como a mídia se desenvolveu.

Mesmo tendo noções e já experimentado, não quero trabalhar fazendo jogos. Muito menos tenho o desejo de ser um jogador profissional ou qualquer coisa parecida. Nem streamer de jogos é algo que quero desenvolver de maneira séria (embora, de maneira recreativa, às vezes cogito algo…).

Esses diferentes mundos têm, cada um, lógicas, regras, ferramentas e processos muito próprios. Quando nos aventuramos nele, acabamos, intencionalmente ou não, aprendendo sobre. E, talvez, essa seja a parte mais legal de fazer algo. Descobrir o mundo secreto que aquela atividade esconde.

O que me leva de volta à gaveta na loja de móveis para escritórios.


Se uma pessoa que nunca viu uma gaveta na vida se deparar com uma, pela primeira vez, sem nenhum contexto, aposto muito que ela não só vai saber operá-la, como também vai entender sua função.

Esse foi exatamente meu pensamento naquela tarde, 7 anos atrás. Um pensamento seguido de uma pergunta: como?

Como alguém consegue produzir algo que é ao mesmo tempo tão genial quanto simples? Que mistérios existem por trás de um objeto que permite que uma pessoa entenda tão perfeitamente seu funcionamento só olhando?

Mesmo depois de sair da loja, chegar em casa e seguir com meu dia, essa pergunta não saía da minha cabeça. A semente plantada pela gaveta na minha cabeça se enraizou com tanta força que eu precisava encontrar a resposta. Precisava!

Fui atrás de alguns livros e me deparei com “O design do dia a dia”. Nele, o autor, Don Norman, argumenta sobre como o design de um objeto deve almejar guardar em si todas as instruções de uso.

O livro explora como isso é feito em coisas prosaicas, usa falhas de design para reforçar o ponto e aponta ideias que podem ajudar a guiar um bom design. Ele é tão eficiente nesse objetivo que o trabalho se tornou um clássico, sendo considerado um dos pontos de partida no estudo do design das coisas.

Ler esse livro me ajudou a entender as gavetas e abriu as portas para um novo mundo que sempre esteve diante dos meus olhos.

Foi tão incrível que decidi não parar com ele.

Não só decidi ler outros livros sobre design, como também decidi descobrir mais desses mundos secretos. Por que o design dos objetos é apenas um desses casos.

O podcast 99% Invisible resume bem isso no nome, que eu acabei apropriando para criar essa teoria pessoal minha. 99% de tudo que existe é invisível. Não literalmente. Mas simplesmente porque não interessa para as pessoas saberem sobre aquilo.

O 1% é o que vemos. É o ato de colocar a chave na fechadura e saber como operar e, de fato, operá-la. Os outros 99% incluem os mecanismos internos que atuam para fechar e abrir uma porta, como isso evoluiu, quais são as particularidades de cada tipo de chave e assim por diante.

Foi assim que comecei a ler livros sobre produção de queijo, contêineres de navios, a natureza da mentira, filosofia política, supermercados e várias outras coisas mundanas que ganharam uma roupagem completamente nova.

E não necessariamente esses mundos secretos se revelam pela curiosidade. Como tentei exemplificar no texto, alguns vão surgir por hábito, outros por razões profissionais e alguns outros por puro hobby. Ou, meu jeito favorito: conversando. Escutando pessoas falarem sobre os mundos secretos que elas exploram.

Seja qual for o caminho, é sempre um prazer se descobrir perdido explorando esses mundos. Entendendo sua base, regras e conceitos. Seja uma exploração rápida, lendo um livro sobre o assunto, ou um mergulho mais profundo, do tipo que te faz ingressar em uma carreira ou hobby.

Sempre vale a pena olhar para as coisas mais mundanas do dia a dia com esse ar de curiosidade. Sempre observar tudo com um “como?” pairando no ar.

Read on albertobarbosa.substack.com

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