Na nossa última sessão de edição ao vivo no Google Meet, algo curioso aconteceu. Enquanto estava com a tela compartilhada, apresentando o elenco do romance, a partir das funções de cada personagem, um dos participantes comentou no chat que já estava pensando nas interações dos personagens de seu próprio romance.
Depois, já alta madrugada aqui na Espanha, recebi mensagem de outro participante (que também é meu mentorado no Travessia) falando que a exposição do Lâmina lhe deu a ideia de acrescentar um personagem no seu romance histórico.
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Bingo!
Essas duas situações têm uma coisa em comum: o fato de que a sala de escrita e edição está fazendo exatamente o que eu queria, ou seja, não ser só sobre meu romance, não ser um exibicionismo literário, mas uma experiência de troca entre os participantes. Ao ver a engrenagem de meu texto desmontada, os participantes têm insights para suas próprias máquinas.
Sempre digo: a escrita é solitária, mas a edição não precisa (nem deve) ser. Ver o erro do outro é a forma mais rápida de consertar o nosso, ver as ferramentas do outro nos ajuda a criar nossas próprias ferramentas. Essa é uma das grandes vantagens de estar dentro desse processo.
O elenco de papelão
Um dos problemas que mais discuto com meus mentorados é “síndrome do elenco de papelão”. Existe um conselho terrível em certos manuais de escrita e em oficinas meia-boca que diz que todo personagem precisa ser redondo, tridimensional e ter um arco dramático complexo.
Isso é mentira.
Se o padeiro que aparece na página 40 para entregar um pão tiver um trauma de infância detalhado, seu romance não terá ritmo, terá um engarrafamento.
Nem todo personagem precisa ser tridimensional. Mas, eventualmente, dar uma profundidade inesperada a alguns personagens secundários é o que enriquece a narrativa e tira a história do óbvio. O problema é quando o seu Adversário é apenas “mau” ou quando o seu Mentor é apenas uma enciclopédia ambulante que cospe sabedoria (e que, invariavelmente, precisa morrer no final do segundo ato para o herói crescer).
Criar um bom elenco de um romance é um dos grandes desafios que todo escritor e escritora tem. O problema é que nem sempre a gente se dá conta disso, até começar a escrever e a coisa simplesmente não andar. O elenco pode ser só um monte de clichês ou não permitir que exista a tensão suficiente para o livro avançar.
Se todo mundo é legal, se não há intriga, se não há conflito, para que diabos você está escrevendo, pela fé? Por isso, pensar nas funções dos personagens é muito importante: saber o que falta e o que sobra.
Baseando-me na psicologia desses seres e em seu papel na história, eu criei um sistema que funciona para mim e que expus, mais ou menos, na última sessão (que durou, para variar, mais do que eu esperava). Falei de arquétipos junguianos e de categorias do teatro grego e shakespeariano que me servem para montar a festa.
Mas cada sessão do Lâmina também faz minha cabeça fervilhar e como bom TDAH eu entro no fluxo do hiperfoco ou da dispersão. Desta vez, tive a ideia de criar uma ferramenta adicional, que foge daquelas fichas de personagem de RPG (ou modelo de montar Barbie, como mencionou uma das participantes, referindo-se a uma planilha que recebeu numa oficina).
Eu estou criando um baralho.
Aqui, normalmente eu colocaria o paywall, mas como este post é livre, pode ler. Mas posso pedir um favor? Compartilhe, vá?
O baralho da Lâmina do Redemoinho (Versão Beta)
Eu peguei as categorias actanciais clássicas e alguns arquétipos e os transformei em ferramentas de provocação. Desenhei 10 cartas: Protagonista, Adversário, Guardião, Amante, Louco, Coro, Camaleão, Mentor, Arauto, Aliado. Na frente, uma definição de cada categoria e exemplos de personagens na literatura; no verso, A cutelaria, com dois desafios:
1) O fio cego: clichês que você pode cometer com esses personagens;
2) Torção da lâmina: perguntas que você pode se fazer ao construir esses personagens para fugir dos lugares comuns.
Você pode baixar o PDF com as 10 cartas prontas para impressão no final deste e-mail.
Mas ter as cartas não serve de nada se você não souber jogar. Aqui estão dois jogos narrativos que eu uso quando a história trava:
Jogo 1: O Interrogatório (para testar personagens)
Quando o meio do livro estiver arrastado ou os personagens parecerem de papelão.
Ponha a carta O Protagonista na mesa.
Escolha o personagem que está travando a cena que você está trabalhando e encontre a carta que represente sua função na narrativa. Coloque-a de frente para O Protagonista.
Leia “Torção da Lâmina” correspondente a essa carta em voz alta. Responda brutalmente.
Se a resposta for fraca, o personagem é inútil.
Reescreva ou ampute.
Jogo 2: A Constelação (para criar fricção entre personagens)
Se você sente que o meio do seu livro está arrastado, o problema geralmente está nas forças de oposição.
Coloque a carta O Protagonista no centro da mesa.
Sorteie 3 cartas aleatórias e as coloque em triângulo ao redor dele.
O Desafio: Como O Protagonista usa o personagem A para se defender de B, enquanto esconde um segredo de C?
Escreva a cena.
Jogo 3: O Choque (para sair do tédio)
Pegue o personagem mais chato da cena que quer trabalhar.
Embaralhe o deck e puxe uma carta aleatória (ex: saiu O Camaleão).
A Regra: Escreva as próximas 500 palavras forçando esse personagem chato a agir com a função da carta sorteada. Crie o atrito.
O Futuro do Baralho (E um pedido para a Comitiva)
O PDF que estou disponibilizando hoje é um protótipo. É a versão 1.0 de uma ferramenta que uso na minha própria mesa.
No entanto, estou desenhando um projeto maior: o baralho A lâmina do redemoinho, físico, com mais funções, arquétipos de cenários, reviravoltas e cartas de “crise”, pensado para ser um oráculo de bolso para escritores e escritoras travados. Uma ferramenta tátil, com a nossa estética, para você embaralhar quando a tela em branco assustar.
Mas, antes de investir meses nisso, preciso saber se isso faz sentido para vocês tanto quanto faz para mim.
Nos comentários abaixo (ou no nosso WhatsApp da comunidade):
Baixem o PDF, imprimam (ou usem na tela) e façam o “Jogo 3” com o personagem mais chato do livro de vocês. O que aconteceu com a cena?
Seja brutalmente honesto: um baralho físico estendido, como ferramenta de planejamento e desbloqueio criativo, é algo que você teria na sua mesa de trabalho?
As respostas de vocês vão ditar se esse projeto sai da minha gaveta para o mundo. E, claro, tragam os resultados do Jogo 3 para a nossa próxima live no Google Meet, que vai rolar dia 27 de abril, direto da Islândia. Vamos dissecar essas cenas juntos.
Se você chegou até aqui e achou massa, que tal assinar o A lâmina do redemoinho e ter acesso a artigos semanais, materiais exclusivos todo mês e sessões ao vivo de edição pelo Google Meet. Bora?

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