Deixei Santiago de Compostela há uma semana e desci a Lisboa, para uma passagem curta antes de seguir para a próxima etapa desta jornada de pesquisa e de conclusão do romance. Viajo para a vila de Arraiolos, distrito de Évora. Lá funciona o Córtex Frontal, um projeto cultural multidisciplinar criado em 2015, gerido por Mercedes Vidal-Abarca e Nuno Félix da Costa por meio da Associação Cultural Córtexcult.
Eu havia conhecido o Córtex Frontal em 2023 e na época recebi o convite para uma residência literária, que só se materializou agora, quando pude aproveitar a licença de pós-doutorado. Foi o timing perfeito, pois coincidiu de ser depois da viagem à Islândia, onde pude amadurecer vários aspectos que estavam nebulosos. Mas essa etapa não é aleatória. Já viu que faço tudo de caso pensado, não é?
Meu novo romance — e minha fala vai parecer mais estranha para quem está acompanhando a escrita de dentro do que para quem não é assinante — trata do sertão como condição humana, da voragem que devora o espaço, das imensidões, as pessoas. Nesse sentido, o semi-árido pernambucano, os desertos gelados islandeses, a solidão rural galega e a amplitude do Portugal profundo alenjetano se conectam.
Mas hoje vamos baixar a poeira da estrada e falar de móveis, de luz e, principalmente, de boletos.
Existe uma mística perigosa, alimentada por fotos de MacBooks estrategicamente posicionados em cafés parisienses ou solares alentejanos, que sugere que a escrita é um subproduto da paisagem. É a estética do “escritor viajante”, muito explorada por certos coaches literários do Instagram que vendem a autoridade por meio do carimbo no passaporte.
Deixe-me ser muito honesto com você, que me lê agora: irei a Arraiolos porque sou um trabalhador que soube aproveitar as brechas de um pós-doutorado e de uma licença conquistada a duras penas. Não sou um herdeiro que acorda com o orvalho, toma um vinho de talha e espera a musa descer entre um suspiro e outro. Em breve, o relógio bate, a licença acaba e eu volto ao batente das salas de aula e das mentorias diárias — que inclusive continuam, para ajudar a pagar as contas.
A escrita, para quem trabalha, acontece na trincheira. E a trincheira, muitas vezes, tem cheiro de café requentado e o barulho da máquina de lavar do vizinho.
A pergunta que sempre surge é: o espaço impacta a escrita? Sim e não. Aprendi ainda na graduação, lendo Gaston Bachelard, no seu A poética do espaço, que a casa é o nosso canto no mundo, o nosso primeiro universo. Mas para o escritor ou escritora, o “espaço” é muito mais uma construção semiótica do que geográfica.
Mas deixa te dizer: se tu precisa de um solar do século XVIII para escrever, tu não tem uma carreira, tem apenas um hobby caro. O impacto do espaço não está na beleza da vista, mas na capacidade que aquele ambiente tem de sinalizar para o teu cérebro: “agora, o mundo lá fora parou”.
O redemoinho não precisa de um Alentejo para girar. Ele pode muito bem acontecer numa mesa de cozinha às cinco da manhã, antes das crianças acordarem, ou no canto de uma biblioteca pública barulhenta. A autoridade não vem da viagem, vem da permanência na cadeira, seja ela de veludo ou de plástico.
Se o espaço físico é um sinalizador, como construir um ambiente favorável quando não se tem o silêncio absoluto das planícies alentejanas? A resposta está na criação de ancoragens.
Para que o teu processo de edição ou escrita não dependa do “clima perfeito”, tu precisa de elementos que delimitem a tua fronteira mental. Aqui estão três pontos que aplico, esteja eu na Islândia ou no meu escritório — hoje, o birô que instalei no quarto do meu filho:
A Iluminação como Fronteira: O cérebro responde a estímulos visuais. Uma luminária específica, usada apenas para o momento da escrita, cria um “cone de atenção”. Quando aquela luz acende, o resto da sala desaparece.
O Ritual do Ruído: Nem todo mundo tem silêncio. Eu, por exemplo, uso trilhas sonoras que já condicionei ao meu romance atual (por sinal, tu já ouviu a playlist do romance? Está em nosso acervo do Notion, exclusivo para assinantes). O som vira a parede que a arquitetura não me deu.
A Materialidade do Caos: Repare na imagem que abre este artigo. O portal na porta é uma intervenção. No seu espaço, você precisa de algo que lembre que ali a lógica é outra. Pode ser um objeto, um post-it com uma frase de Beckett, ou simplesmente o ato de fechar a porta.
Em breve, estarei aproveitando cada segundo desta luz dourada de Arraiolos para terminar meu romance, mas sei que a verdadeira escrita é aquela que sobrevive ao cotidiano. Não quero que tu olhe para as fotos desta residência e sinta que sua escrita é “menos” por estar acontecendo no intervalo do almoço ou no ônibus.
Pelo contrário. A escrita mais visceral costuma vir de quem precisa lutar por cada centímetro de espaço e cada minuto de tempo.
E agora, quero te ouvir: Como é o teu espaço de escrita hoje? Tens um canto sagrado ou escreve onde dá, entre um compromisso e outro? O que tu faz para “fechar o portal” e entrar no seu próprio redemoinho, ignorando o caos do mundo ao redor?
Vamos conversar nos comentários. Quero desmistificar essa ideia de que escritor precisa de isolamento monástico para ser profundo. A profundidade está no olhar, não na localização do GPS.
Gostou? Atola o dedo e manda para aquela pessoa que escreve em qualquer lugar.

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