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Cinema, Apesar de Tudo · Jan 29, 2026

Eu me preocupo mais em ser amada

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ag ! · Cinema, Apesar de Tudo

Há uma frase no monólogo da Jo March, em Little Women, que nunca passa intacta. Ela não chega com força, não pede atenção, não tenta ser memorável.
Ela simplesmente aparece e fica.

“Eu me preocupo mais em ser amada. Eu quero ser amada.”

Não soa como um pedido.
Soa como um reconhecimento tardio.
Como algo que se admite depois de muito tempo tentando não sentir.

Essa frase nunca me pareceu um desabafo impulsivo. Ela soa pensada demais, sentida demais, guardada tempo demais. Como se tivesse levado anos para sair. E talvez tenha mesmo. Porque não é fácil admitir algo assim.

Jo passa o filme inteiro afirmando quem é. Defendendo sua escrita, sua liberdade, seu futuro. Ela sabe o que quer ser no mundo. Mas naquele monólogo, o que emerge não é a mulher determinada, nem a artista em formação. É alguém que sente a ausência de algo que não se constrói sozinha. E isso não a enfraquece. Apenas a torna mais real.

Existe uma delicadeza enorme nesse momento porque ele não romantiza o amor. Não promete salvação, nem plenitude, nem final feliz. Ele fala de solidão. Daquela que aparece mesmo quando a vida está andando, mesmo quando a gente se sustenta, mesmo quando a gente é inteira.

A solidão de não ser escolhida.
De não ser o lugar onde alguém fica.

Isso sempre me toca, de certa forma, pois também já tentei convencer a mim mesma de que querer amor era um erro de cálculo. Um atraso. Um apego desnecessário. Já tratei esse desejo como algo que precisava ser superado, não acolhido.

Mas não se supera sentir.

Se aprende, no máximo, a conviver.

Se preocupar com ser amada não apaga a autonomia. Não contradiz a força. Não anula sonhos. Apenas revela que independência não nos transforma em ilhas. Que existir por conta própria não elimina a vontade de compartilhar a vida com alguém que veja, reconheça, permaneça.

O monólogo da Jo me lembra que não há incoerência em querer o mundo e, ainda assim, querer amor. Que não há contradição entre independência e afeto. Que ser forte não exige ausência de desejo — só exige honestidade com ele.

No fim, “se preocupar mais com ser amada” não é sobre esperar que alguém complete algo que falta. É sobre reconhecer que afeto também é linguagem, também é necessidade, também é humano.

E talvez seja por isso que esse monólogo atravessa o tempo. Porque ele nomeia algo que muita gente sente, mas não sabe dizer.

A gente pode querer o mundo.
E ainda assim querer amor.

Pode querer ser tudo.
E ainda assim querer ser amada.

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Read the original on agnesvitoria05.substack.com

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