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Lente · Jul 31, 2026

🔎Como a mentira evoluiu nas eleições

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Ítalo Rômany, Luciana Corrêa, Luiz H. Gomes · Lente

Oi, quem fala aqui é o Luiz, editor-assistente da Lupa. À medida que as eleições deste ano se aproximam, a equipe da Lupa se prepara para mais uma cobertura eleitoral desafiante. Para isso, também olhamos para os ciclos anteriores com o propósito de identificar como a desinformação operou nos últimos dez anos. Abaixo, o repórter Ítalo Rômany destrincha os achados do último relatório do Observatório Lupa, o braço de pesquisa da organização, que se debruçou sobre nossa atividade neste período marcado pelo surgimento da palavra “pós-verdade” lá em 2016. Boa leitura!

Aqui, na Lupa, já começamos nossa cobertura eleitoral. Ela será mais rápida, mais tecnológica, mais colaborativa e mais próxima do eleitor. E sabemos bem como a mentira tem se aperfeiçoado, principalmente na última década. Alguns achados do estudo “Anatomia da desinformação eleitoral: Como a mentira e os boatos políticos evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026”, publicado pelo Observatório Lupa nesta semana, nos ajudam a compreender o que vem pela frente.

O primeiro deles: seis de cada dez declarações feitas por políticos e candidatos checadas pela Lupa em campanhas eleitorais continham algum grau de distorção. Além disso, o estudo mostrou ainda que é muito mais comum manipular informações verdadeiras do que inventar fatos completamente falsos.

O que temos visto é que a desinformação se apoia em dados autênticos e eventos verídicos que são retirados de contexto, ampliados ou reinterpretados de forma enganosa, para legitimar uma determinada narrativa.

Um exemplo recente ocorreu no último sábado (25), quando o PL consagrou Flávio Bolsonaro como candidato do partido à Presidência da República. A convenção, no entanto, acabou marcada pela presença do presidente da Argentina, Javier Milei, que fez insultos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e acirrou a tensão diplomática entre os dois países.

O mandatário portenho ainda afirmou, sem provas, que o governo brasileiro teria financiado uma ‘campanha anti-Argentina’ nas redes sociais durante a Copa do Mundo. Milei usou um relatório verdadeiro para distorcer seus dados e apresentar uma conclusão enganosa.

Esse episódio levanta uma questão importante, de como os fatos podem ser manipulados facilmente.

É justamente esse tipo de distorção que tem predominado na desinformação política.

Um segundo achado do estudo do Observatório Lupa é que, ao longo dos ciclos eleitorais analisados, cresceu de forma expressiva o número de verificações sobre conteúdos falsos relacionados às urnas eletrônicas. A maioria dos boatos eleitorais que viralizam contém informações comprovadamente falsas: nove de cada dez verificações realizadas pela Lupa (90,9%) receberam a etiqueta “Falso”.

Um outro ponto é que os ataques ao sistema eleitoral são hoje mais frequentes que ataques entre candidatos.

A eleição é somente em outubro, mas já circulam nas redes posts afirmando que os votos não podem ser rastreados nem comprovados antes ou depois da totalização, além de teorias reforçando que uma operação da Polícia Federal (PF) teria comprovado fraude nas eleições de 2022 e que o presidente Lula teria recebido apenas 36,32% dos votos.

Na prática, isso significa que narrativas falsas contra o sistema eletrônico de votação continuarão no radar durante toda a campanha. Na semana passada, mostramos que publicações sobre fraudes nas urnas registraram o maior alcance médio dos últimos seis meses nas redes, depois que Flávio Bolsonaro repetiu uma alegação já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para atacar o sistema de votação brasileiro.

Há ainda uma tendência preocupante sobre como a desinformação circula. A mentira migrou das redes abertas para plataformas fechadas. Se, em 2018, o Facebook era o principal ambiente para a disseminação da desinformação eleitoral, em 2024 esse protagonismo passou para o WhatsApp. Essa é uma tendência que deve continuar nas eleições deste ano.

Em outras palavras, em um sistema fechado, fica cada vez mais difícil verificar como a mentira circula.

Por aqui, continuamos investindo no contato direto com nossa comunidade, por meio do WhatsApp (21 991933751). E, para ampliar a circulação de conteúdos verificados durante o período eleitoral, criamos uma rede que reúne organizações e pessoas com grupos no aplicativo interessadas em distribuir informação confiável sobre o pleito.

Por fim, nossa grande preocupação é a disseminação de publicações falsas com uso de inteligência artificial (IA). Em fevereiro deste ano, outro estudo do Observatório Lupa mostrou que a circulação de conteúdos falsos criados com IA mais do que triplicou entre 2024 e 2025 no Brasil, com crescimento de 308%.

Ainda não sabemos qual será o impacto. A combinação de deepfakes, clonagem de áudio e manipulação de imagem impõe novos riscos à integridade do debate público. O TSE tem adotado regras mais duras para a eleição deste ano. Mas o Tribunal ainda não explicou como pretende monitorar conteúdos gerados por IA em ambientes criptografados, como o WhatsApp.

Esses achados do estudo do Observatório Lupa são um norte. É por isso que reforçamos nossa cobertura, acompanhamos cada movimento e mantemos nossos canais abertos. Para que o eleitor chegue às urnas munido do que realmente importa: a verdade.

Enquanto a campanha ganha ritmo, vale manter alguns sinais de alerta no radar:

  • em publicações com menções a palavras como “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém”, “único”, “maior”, “menor”, “não existe” e “nenhum governo”. De acordo com o estudo do Observatório Lupa, essas expressões aparecem com frequência em conteúdos classificados como falsos ou enganosos;

  • em discursos de candidatos que usam números, percentuais e dados históricos. O levantamento mostra que cada político tem um estilo próprio de desinformar;

  • em fotografias, documentos, capturas de tela, gráficos e áudios que criam uma falsa aparência de autenticidade, mesmo quando foram manipulados, tirados de contexto ou não comprovam a alegação feita. Desconfie especialmente de conteúdos audiovisuais gerados por inteligência artificial.

  • No texto acima o Ítalo já cita alguns dos nossos movimentos para as eleições de 2026, mas temos outros projetos e iniciativas prestes a começar que envolvem a atuação do Congresso, tema que é a grande preocupação do brasileiro hoje — a segurança pública, as deepfakes e muito mais. Convido você a conhecer mais do trabalho que a Lupa vai desenvolver nos próximos meses. Será uma honra ter a sua companhia em mais um período eleitoral. [Luciana Corrêa, editora-chefe]

  • Empresas de tecnologia do Vale do Silício estão comprando livros físicos e os destruindo para aprimorar modelos de inteligência artificial. A prática se tornou pública após uma ação judicial movida contra a Anthropic, criadora do Claude. Segundo o processo, a Anthropic usou uma máquina de corte hidráulica para remover a lombar dos livros e escaneá-los. Após a repercussão do caso, jornais como o britânico Telegraph e a 404 Media, portal americano especializado em tecnologia, publicaram investigações relatando como a prática se tornou comum dentro de companhias de IA e como diversos vendedores de livros foram contactados para comercializar inclusive livros raros, que poderiam estar em risco com a venda. [Luiz Henrique Gomes, editor-assistente]

  • O atropelamento intencional contra participantes da Marcha do Orgulho LGBTQIAPN+ em Berlim, no último sábado (25), deixou uma uma mulher polonesa morta, outras 29 pessoas feridas e desencadeou uma onda de desinformação nas redes sociais. Enquanto a polícia realizava buscas pelo suspeito, passaram a circular boatos sobre um suposto alerta de bomba e a acusações indevidas contra um homem que não tinha qualquer relação com o ataque. [Ítalo Rômany, repórter]

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