Nos últimos anos tenho visto muitas mulheres (e alguns poucos homens) admitindo abertamente que se sentem impostores, que não são tão bons profissionalmente quando dizem ser, e morrem de medo de serem desmascarados. Falam isso de uma forma descuidada, como um traço de caráter “ah, a minha síndrome do impostor” (curiosamente, muitas mulheres referem a si mesmas como impostor, e não impostora). Sempre quis entender melhor essa situação mas não sabia por onde começar sem criar conflitos.
Aí caiu na minha tela este artigo na New Yorker sobre “síndrome da impostora” (vou usar o termo no feminino, pois o conceito se refere a mulheres desde sempre). É um artigo completíssimo e excelente: aborda a criação do conceito inicial na década de 60 (fenômeno da impostora ), os desdobramentos ao longo dos anos, as diferenças de percepção do conceito entre mulheres brancas e negras/não-brancas, a criação da “síndrome” e as críticas recentes que pregam o fim do uso do conceito.
Como nem todo mundo vai ler o artigo original, aqui vai o resumo.
o termo “fenômeno da impostora” foi criado no início dos anos 70 pelas psicólogas e pesquisadoras Dra. Pauline Clance e Suzanne Imes após identificarem (e se identificarem com) muitas histórias de alunas que se sentiam uma fraude. Achavam que a nota alta foi lançada errado, que houve um erro no processo seletivo, que elas enganaram a banca durante a entrevista. Tem também os casos em que faziam uma prova e acreditavam que tinham ido mal (mas no fim era um erro menor que gerava uma nota um pouquinho mais baixa, bem longe da esperada e temida reprovação)
após vários anos de pesquisa, em um estilo que hoje consideramos metodologicamente problemático, escreveram um artigo publicado em 1978 no periódico Psychotherapy: theory, research and practice. Em 1985, Clance publicou o livro “The impostor phenomenon: overcoming the fear that haunts your success”. O livro tem 3 partes: inicialmente explica a máscara da impostora, em seguida abordar a personalidade escondida pela máscara e, por fim, ensina como quebrar o ciclo e superar a sensação de fraude, tirando a máscara de impostora
Os padrões identificados por Clance e Imes para gerar impostoras envolvem uma diferença de percepção família x mundo externo. No fim, prevalece a interpretação mais danosa, com a sensação de fraude e medo de falhar.
Foram dois os padrões identificados por Clance e Imes : 1. a mulher era tratada pela família como melhor que os demais. Mas o mundo externo mostrava que ela não era tão perfeita assim, e que nem tudo o que ela fazia dava certo 2. a mulher tinha uma irmã que era considerada pela família como a mais inteligente ou esperta. Quando o mundo externo indicava que ela era boa no que fazia, ela não acreditava nesse feedback porque era contrário ao que havia aprendido em sua casa
O sucesso em si não ajuda a quem se sente impostora. Ela se sente feliz e aliviada quando termina um trabalho e percebe que não fracassou, mas imediatamente começa a sofrer pensando no próximo fracasso iminente (ou no momento de ser desmascarada). Uma forma de romper esse ciclo é a terapia em grupo: é mais fácil acreditar que as outras mulheres não são impostoras, e isso acaba calibrando a própria percepção. Outra forma é manter um arquivo/caderno com uma lista “Situações que provam que eu não sou uma idiota”
Mulheres negras ou não-brancas não costumam se identificar com a ideia de impostora e levantam duas questões: uma sobre si mesmas, e outra sobre o mundo. Elas não se reconhecem como fraude, pois percebem que são subestimadas em termos de inteligência ou competência. O comportamento delas consiste em mostrar o tempo todo que a impressão dos outros está errada (elas não se sentem impostoras, mas desvalorizadas e invisíveis).
A outra questão levantada por mulheres não-brancas é que elas percebem o mundo como feito para as mulheres brancas, com representatividade inclusive em ambientes de poder. Nessa lógica, uma mulher branca que se sente uma fraude é vista como mimada e incapaz de reconhecer que tem mais oportunidades que as mulheres não-brancas ( vale lembrar que no início dos anos 70 não havia essa representatividade nem para mulheres brancas)
Por causa dessas observações, a síndrome da impostora vem sendo considerada, pejorativamente, como uma preocupação de mulheres brancas. Mas se trata de uma diferença de experiências relacionadas a raça, etnia e classe social. E, à medida que mais mulheres não-brancas ocupam espaços de poder, há indícios de que estão se identificando cada vez mais com a “síndrome de impostora”.
A grande crítica recente ao conceito de “síndrome da impostora” veio com o artigo “Stop Telling Women They Have Imposter Syndrome”, publicado em 2021 na Harvard Business Review. As autoras Ruchika Tulshyan e Jodi-Ann Burey afirmam que o rótulo de impostora/fraude como uma problema de falta de auto-confiança mascara as desigualdades no ambiente de trabalho. Estamos falando de vieses de gênero, machismo e racismo estrutural, e questões afins. Não deveria ser uma questão pessoal, nem um diagnóstico.
Um dos motivos para Tulshyan ter escrito o artigo foi se incomodar com a abordagem da “síndrome de impostora” em eventos sobre liderança feminina. Ela notou que pareciam mais focados na questão pessoal do que em discutir questões estruturais abordando vieses de gênero e racismo. Tulshyan presenciou uma conversa que praticamente virou uma competição entre mulheres pra ver quem tinha a pior síndrome de impostora! É uma situação tão absurda que demonstra como o conceito de impostora foi incorporado à própria identidade ao invés de ser questionado e destruído.
Clance e Imes consideram que a interpretação do artigo delas tem sido equivocada. O objetivo sempre foi analisar um fenômeno, uma experiência de vida que era comum a determinado grupo de mulheres. Mas, com o tempo, o uso do fenômeno em ambientes corporativos passou a ser tratado como uma patologia (a tal “síndrome”), como um diagnóstico. Elas discordam veementemente disso, e não ignoram os problemas estruturais do ambiente de trabalho.
Um exemplo dessa divergência é o caso de uma mulher que é mãe e descreve sentimentos de ser uma fraude, ou de ser uma mãe ruim e péssima profissional. A resposta tradicional do mundo corporativo para a “síndrome de impostora” hoje é que essa mulher deve trabalhar seus sentimentos de inferioridade na terapia (além de dizer que é por causa desses sentimentos que ela não obtém promoção no trabalho). Mas Clance prefere outra abordagem: ela orienta a mulher a obter mais ajuda com a criança (leia-se creche, babá, rede de apoio, cuidados paternos) para diminuir a sobrecarga e se dedicar mais aos seus objetivos
O artigo aborda também as impostoras de verdade, que são uma fraude mas que se recusam a perceber isso. Os exemplos são Anna Delvey (que se fingia de herdeira riquíssima) e Elizabeth Holmes (que afirma ter criado um sistema baratíssimo para identificar uma multitude de doenças apenas com uma gota de sangue). Considero isso de muito mau gosto, pois elas são estelionatárias. Não tem nada a ver com a percepção pessoal (e equivocada) de ser uma fraude
Há muitos outros pontos levantados pelo artigo. Mas o essencial pra entender o conceito, suas transformações e principais erros de interpretação estão listados acima.
Um ponto que me incomodou no artigo é que ele identifica, mas não aprofunda na confusão entre se sentir uma fraude a ser desmascarada e sentir que está no lugar errado. Ambas são percepções erradas. Mas a sensação de ser uma impostora é algo privado, que gira em torno da percepção de si mesma.
Sentir que está no lugar errado (ou que não tem o direito de estar ali) é uma realidade quando alguém que, através dos estudos ou da fama, passa a ter acesso a um mundo totalmente diferente. É até esperado estranhar, se sentir inadequada, ou não pertencente a esse lugar. Mas não faz sentido tratar isso como se fosse uma impostora. São situações diferentes, uma derivada de questões internas, e outra em resposta ao ambiente externo.
E tem muitas outras coisas que gostaria de comentar, mas fica pra próxima newsletter. Esta aqui já tem ideias demais e permite muitas reflexões. Você se identificou com qual parte do resumo do artigo? Com o que você não concorda de jeito nenhum? Já fez uma listinha de situações que provam que você não é uma fraude? Como tem sido sua relação com o conceito de “impostora”? Como suas amigas interpretam esse conceito?
Tantas questões… e tantas possibilidades de solução :-)
Até a próxima!
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