Start writing today. Use the button below to create your Substack and connect your publication with Advogada de Sucesso, por Cynthia Semíramis
Sou uma pessoa que se entedia fácil. E poucas coisas são mais previsíveis e tediosas que o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Estou há quase 20 anos pesquisando sobre direitos das mulheres, e a cada ano a conversa avança bem pouco.
De um lado, feministas falando dos horrores que ainda temos de enfrentar, como se o último século não tivesse tido grandes avanços nos direitos femininos. Quem em sã consciência quer participar de um movimento que diz que a gente luta sem parar, mas não conquista nada?
De outro lado, várias mensagens elogiando a força, beleza, doçura, garra e o que mais for considerado adequado para demonstrar consciência social e tiver a capacidade de agradar clientes, amigas e possíveis flertes. Vale tudo: flores murchas, descontos, brindes, convites para sair.
Mais um lado: o dos que acham que mulher tem mais é que ficar calada, que não faz sentido existir um dia da mulher, que mulher é quem manda no mundo, que homem é explorado por mulheres, e bobagens afins facilmente desmentidas por conhecimentos básicos de história ou legislação. Impressionante como sempre tem gente que se orgulha da própria ignorância.
Há também as críticas por ser uma data criada para enaltecer mulheres brancas. Parece que mulheres negras ou não-brancas não podem usar a data para promover suas próprias pautas, nem buscar diálogo e apoio para causas em comum. Ou, pior, parece que não reconhecem que estão protegidas juridicamente. Afinal, a Constituição não fala de mulher branca ou negra, mas simplesmente mulheres: “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” [Art. 5º, I, da Constituição de 1988]. E, sim, políticas públicas e o cotidiano podem - e são - racistas. A luta é para que deixem de ser racistas, efetivando o disposto na Constituição sobre igualdade e não-discriminação. (utópico? claro que não. Cem anos atrás diziam que mulher não podia votar, fazer faculdade ou ser juíza, e olha o quanto isso mudou).
Recentemente tem também o repúdio ostensivo a mulheres transsexuais. Haja paciência! Expor pessoas trans e submetê-las a tanto rancor e escrutínio é desumano. Gostaria muito de saber quem elegeu o Idiota Falastrão da esquina como suprema sapiência que pode dizer se uma pessoa é trans ou não. De certa forma, não é muito diferente do “sommelier de feminilidade”, que adora ditar o que caracteriza uma mulher feminina, de família, ou merecedora de respeito ( por que diabos a mulher levar a sério o julgamento de um idiota desses? Não faço a menor ideia)
Existem críticas, sim, que fazem sentido (como mulheres trans competindo com mulheres cis nos esportes, ou a ‘moda’ de meia dúzia de homens se declararem transsexuais para cumprirem pena na ala feminina - e menos violenta - do presídio). Mas tem muita coisa que é anedota, e tem muita mentira deslavada e preconceito. O fato é que existem pessoas transsexuais, e elas têm tanto direito a uma vida digna quanto qualquer outra pessoa. Em um contexto de luta por direitos, não faz sentido dissociar mulheres cis e mulheres trans. Todas vão cair na categoria “mulher”, todas merecem respeito e direitos plenos.
E, por serem/sermos todas mulheres, sabemos muito bem que no dia 9 de março volta tudo ao que era antes: a culpa é sempre da mulher.
A criança fez bagunça? Cadê a mãe dessa peste?
Teve um erro no trabalho? Pode procurar que a culpa vai cair no colo de uma mulher.
A vaga foi preenchida por uma mulher? Ah, então é porque ela tem “certas” ligações com a diretoria… [AFFFF - homens gays que têm relacionamentos com chefes e subordinados, tudo bem: a crise só aparece quando promovem uma mulher]
Mulher não se candidatou a um cargo mais alto? Ah, ela é pouco ambiciosa. Ela está na idade de engravidar, ainda bem que não se candidatou porque certamente ia largar na pior hora (pensar que o ambiente de trabalho é tão ruim que não estimula uma mulher a ascender profissionalmente ninguém quer)
E por aí vai…
Pois então, escrevi tudo acima só pra falar os chavões e as armadilhas típicos do Dia Internacional da Mulher. Abri redes sociais hoje e vi mais do mesmo. Já estou cansada disso tudo, bem enjoada mesmo.
Sei muito bem que estamos avançando na conquista de direitos e no debate público. Passinhos de tartaruga, mas são passos. Vinte anos atrás éramos meia dúzia de “loucas” falando sobre situação da mulher. Hoje é mainstream: 8 de março é o dia de elogios e luta, etc, todo grupo de whatsapp tem alguma mensagem edificante lotada de chavões.
Mas enquanto ficamos nos chavões sei que tem muita coisa errada acontecendo também.
Quando estava mais ligada ao movimento feminista, me tornei persona non grata quando explicava os limites jurídicos, os crimes contra a honra, o risco de denunciação caluniosa, o absurdo que é uma mulher inventar algo contra o ex apenas para “dar um susto”, os problemas de ressignificação e memórias falsas.
Advogando, tenho de lidar com isso e muito mais. É angustiante ver pessoas (tanto homens quanto mulheres) tendo a vida destruída por causa de alegações sem fundamento. É frustrante quando recebo alguma consulta distorcendo fatos de 10 anos antes para poder acusar de estupro ou relacionamento abusivo uma pessoa que só recentemente se tornou um desafeto. Tem gente que realmente acha ok inventar uma acusação de estupro, mesmo sabendo que o acusado pode sofrer violência e até ser morto antes mesmo de ter um processo judicial contra ele.
É desanimador ver que tem vítimas de estupro que não são levadas a sério porque temos muitas, mas muitas mesmo, mulheres sem noção que inventam acusações de estupro. E enquanto feministas ficarem dizendo que essas mentirosas são minoria, não vamos avançar nesse tema. É horrível explicar pra uma vítima de estupro que, por mais que a gente atue, ela vai continuar sentindo que não foi feita Justiça - e parte da responsabilidade por isso acontecer é de quem minimiza as acusações falsas de estupro - é injusto não só com a vítima de verdade, mas com a boa-fé de toda a sociedade. Esta é uma situação completamente absurda: feministas, que deveriam apoiar a vítima de estupro, acabam por preferir proteger quem inventa que foi estuprada.
Uma contrapartida de ter direitos é ter responsabilidade. Não importa se é mulher ou homem, pessoas adultas e capazes são responsáveis - e se responsabilizam - pelos seus atos. A pessoa que decide fazer uma acusação falsa está, na verdade, demonstrando falta de caráter e deve arcar com as consequências jurídicas de sua má-fé.
Aquela ala feminista que me considera persona non grata defende exatamente o contrário: mulheres podem distorcer as leis para atingir seus objetivos e são sempre vítimas da sociedade e dos homens. Esse discurso pode soar interessante inicialmente, mas é completamente falso: podemos contar a história dos direitos da mulher pela luta para ser reconhecida como uma pessoa autônoma, racional e com capacidade jurídica igual à do homem. Colocar a mulher permanentemente na situação de vítima e negar que ela é responsável por todos os seus atos é um desserviço na defesa de direitos para todas as mulheres.
E, derivada dessa antiquada visão de “desresponsabilização”, vejo mulheres que seriam excelentes advogadas perdendo o rumo por causa de conceitos muito ultrapassados. Ainda estamos falando que mulher tem de privilegiar a família, não pode ter ambição, deve se sacrificar pelo filho ou pela carreira do marido, devem preservar a comunidade e sempre colocar o social acima dos interesses pessoais. Haja abnegação!
Aguardo ansiosamente o ruído dos chavões atuais diminuir para que possamos discutir o que realmente importa: independência financeira, vida digna, defesa de direitos, boas políticas públicas, treinamentos adequados para o perfil profissional do século XXI, responsabilização pelos próprios atos - para o bem e para o mal.
Conquistamos direitos. Vamos celebrar as conquistas e seguir avançando com responsabilidade e bom senso.
E, sim, estou torcendo pros chavões de 2030 serem sobre responsabilidade, independência financeira e ascensão profissional feminina. Ainda é tempo de mudar para melhor.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.