Respeitável paixão
No domingo, 5 de julho, o Brasil voltou a ser eliminado de uma Copa do Mundo, como vem acontecendo há quase um quarto de século. Depois que os demônios germânicos nos rogaram a praga dos 7 a 1, pouco emergimos dos fundos do abismo em que o escrete brasileiro parece instalado, sem que apareça um Virgílio capaz de conduzir o nosso Dante para fora do inferno futebolístico. Quem torce com paixão tem seus rituais. Nada melhor que reunir a família em torno de uma partida de futebol, entre bandeiras, bebidas e salgadinhos.
A admiração passa de avô para neto e chega ao ritual de montar, juntos, um álbum de figurinhas da Copa.
Nesse domingo, tive que secar escassas lágrimas envergonhadas diante da dolorosa desclassificação do Brasil enquanto minha filha consolava meu neto de quase 8 anos, que estava aos prantos.
Passada a comoção inicial, li o texto de um professor que muito me irritou. Com aquela autoridade de quem julga o futebol como um não iniciado, ele desancava o entusiasmo dos torcedores, enxovalhando os derrotados com uma comparação descabida entre os países e os times, tratando como ingenuidade o que em nós é fé, memória e paixão. O futebol é arena para outra espécie de ingenuidade, sempre comparada à burrice para quem não a compreende. A paixão pelo futebol nos faz sonhar e, às vezes, chorar diante dos fracassos dos times que amamos.
Aquele professor, com sua régua fria e retórica de sábio, não possui meios para medir tão respeitável paixão, nem a misericórdia que se deve ao que chora, aqui ou em tantos outros países pois o brasileiro não é único apaixonado por futebol.
Lembrei-me então de Nélson Rodrigues, e do óbvio ululante. Resgatei “O medo de parecer idiota”, uma crônica de 1968, onde pontua que “quando vou julgar um brasileiro, trato de saber, preliminarmente, se ele chora. É vital chorar. E o amigo Otto (Lara Resende) chora. O choro é quando a tensão se dissolve em ternura, pena, amor e não sei que mais...”Secadas as lágrimas, dissolvida a tensão no silêncio da sala, com o neto ainda com os olhos vermelhos, fui transladado a outro tempo. Lembrei-me de mim mesmo, aos 15 anos, emocionado diante de uma TV em preto e branco, vendo o Brasil de 1970 desfilar seu futebol no México. Foi o ano em que Pelé fez do futebol uma arte.
Passaram-se 56 anos entre aquele menino e este avô. Tantas Copas, tantas quedas, tantos recomeços. Hoje, aos 71 anos, faço-me uma pergunta que ronda o espírito de torcedores mais vividos: terei outra chance de ver o Brasil voltar a ser campeão do mundo? O jovem tem o privilégio de não pensar nisso; o torcedor idoso carrega consigo um relógio dentro do peito. Porém, não desanimo, para não incensar o velho Olho para o meu neto e vejo em suas lágrimas o mesmo frescor da minha meninice. Minhas Copas estão contadas, as dele acabam de começar. É por ele, e com ele, que escolho continuar costurando o nosso amor pela Seleção Brasileira. Que venha o próximo Mundial para torcermos juntos novamente.
Crônica publicada no Jornal O Popular, Goiânia, 13 JUL 2026.

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