Vivendo com intensidade esta Copa do Mundo de 2026, continuo firme na torcida pela Seleção Canarinho, quando me caiu às mãos a antológica crônica “O grande sol do escrete”, escrita em 1970 por Nélson Rodrigues, onde ele afirma:
“Disse o poeta Rainer Maria Rilke que a glória, o que chamamos glória, é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra. E não só a glória. Também a desonra pode ser outra soma de mal-entendidos. Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado...”
Essa citação poética é o mote para a fina tessitura de Nélson, que costura literatura e esporte, numa ode ao Rei do Futebol, Pelé, a quem o cronista carinhosamente intitula de “o divino crioulo”.
Ali, ele também flagra os equívocos que acontecem no limiar entre fatos que inauguram a estátua ou desencadeiam a vaia. No caso do torcedor apaixonado, este parece o normal: andar sobre o fio da navalha.
O cronista lembra o quase-gol do genial Pelé no jogo Brasil x Tchecoslováquia, na Copa do Mundo de 1970, um chute de longo alcance do centro do campo que tira um fino na trave. A cena que hoje é repassada em vídeos, na antologia dos melhores momentos do Rei na Tv, foi um segundo que congelou o tempo, transformando um erro em obra de arte.
E Nelson Rodrigues completa:
“Por um fio, não entra o mais fantástico gol de todas as Copas passadas, presentes e futuras. Os tchecos parados, os brasileiros parados, os mexicanos parados – viram a bola tirar o maior fino da trave. Foi um cínico e deslavado milagre não ter se consumado esse gol tão merecido. Aquele foi, sim, um momento de eternidade do futebol.”
Naquele ano de 1970, com o talento de Pelé e o jogo coletivo inovador, o Brasil venceu a Copa e levantou o troféu Jules Rimet.
O pensador inglês Roger Scruton diz em “A alma do mundo” que o conceito do troféu pertence a uma categoria filosófica, que não denota propriedade do objeto, e sim algo que se conecta às razões, aos desejos e aos motivos do “torcedor” e do premiado – no caso, a Seleção brasileira, mas na qual o povo se projetou e se “apossou” do troféu, que, por uma ironia do destino foi furtado à CBF e vendido pelos bandidos, mas isso é outra história.
Por que recordar tudo isso agora, quando tantos assuntos mais urgentes poderiam pautar essa crônica? - Questiono-me depois de um início pífio da Seleção contra o Marrocos, um segundo embate contra o fraco Haiti e, agora, o excelente jogo contra a Escócia.
Trata-se de afirmar a glória do escrete canarinho e afastar o mal-entendido sobre os nossos jogadores que nós próprios costumamos alimentar. Queremos nos afirmar como país e como povo diante das outras nações mostrando que sabemos fazer bom futebol.
Não sabemos o que as próximas semanas nos reservam e queremos muito exorcizar o nosso complexo de vira-latas que faz parte da natureza do brasileiro.
Ainda bem que tivemos até aqui um bom desempenho da Seleção em busca do almejado troféu de Hexacampeão do mundo, para alimentar o nosso desejo do triunfo que nos move como torcedores apaixonados.

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