Ela recolhe o casaco que foi jogado no sofá, apanha a mala de rodinhas no canto da sala com todas as coisas que é possível levar, observa o apartamento enquanto faz uma massagem no braço machucado.
Ao pisar no vidro estilhaçado próximo à porta, toma um susto. O coração dispara. Por um instante, acredita que ele voltou. Ao perceber que o apartamento continua vazio, começa a brigar consigo mesma para recuperar o controle.
”Meu amor, me perdoa, eu nunca mais farei isso de novo, eu perdi a cabeça, é que eu te amo tanto.”
Quando se vê no espelho do hall de entrada, percebe seus olhos vazios e começa a procurar a chave. Não encontra. O medo volta a dominar, ainda tonta pelo baque ao ter sido jogada na mesa de centro. Começa a abrir todas as gavetas que existem no lugar que um dia chamou de lar.
“Aqui será nosso lugar favorito na vida, iremos criar memórias das quais jamais esqueceremos, meu bem.”
Ela ri ironicamente “como eu pude fazer isso comigo?”.
Abre a gaveta da cozinha, da escrivaninha dele, revira caixas pequenas e potes.
-Tem que estar aqui em algum lugar, me lembro de ter mais uma chave fora a nossa, ele não pode ter…
As mãos tremem cada vez mais. Sabe que não é apenas medo, mas também fome. Sua pressão está prestes a cair, conhece bem o corpo humano. Mordisca um pedaço do pão do café da manhã que tiveram juntos naquela quarta-feira, é quando lembra que não come nada desde o plantão difícil no hospital.
Ela segue para o quarto, procura nas mesas de cabeceira, até encontrar a gaveta com tranca. Busca um martelo na caixa de ferramentas dele e acaba com a mesa.
Mas não está lá.
O desespero começa a bater.
As lágrimas começam a escorrer enquanto se encolhe abraçando o próprio corpo ao lado da cama onde ele dorme.
“Você é a pessoa que quero passar o resto da minha vida, te farei a mulher mais feliz desse mundo.”
Começa a bater na própria cabeça, solta um grito preso há tempo demais em sua garganta.
-EU ODEIO VOCÊ!
Se levanta ao ouvir um barulho, fica parada no meio do quarto, respirando devagar.
-E se ele vir minha mala? - sussurra para si.
Mas é apenas o vizinho de cima chegando da corrida noturna que sempre faz, o mesmo que despertou o ciúme dele e acabou sendo o motivo de seu dedo anelar esquerdo quebrado.
“-Já que essa aliança no dedo não serve de nada, então…”
O celular toca, mas sua vista está embaçada o suficiente para ela não conseguir enxergar quem era no visor.
-Eu preciso sair daqui!
Ela respira fundo, fecha os olhos.
“Pensa, Ema, pensa”.
O relógio continua correndo. Ela está ficando sem tempo.
Se levanta, enfim decidida, sem olhar mais para o lugar onde, há pouco, estava chorando. Pega o martelo e bate na fechadura, nada, bate uma segunda vez, nada, bate uma terceira e nada. Ainda está tremendo sem parar, as lágrimas escorrem. O tremor se apropria do seu corpo só de pensar em estar ali quando ele chegar.
Mas o medo não a paralisa mais.
Volta a bater na fechadura, mesmo sem ter forças por causa do braço provavelmente quebrado e dos outros ferimentos.
Olha surpresa, mas não perde tempo, agarra rapidamente a alça da mala de rodinhas e sai, como se não acreditasse no que acaba de fazer.
Quando finalmente se vê do lado de fora da porta, esbarra em um homem.
-Não pode ser ele… - sussurra para si mesma enquanto cria coragem de olhar para cima.
Por um momento acha que será arrastada para dentro novamente, para ele continuar de onde parou. Mas não era ele.
Passa pelo rapaz, ergue a cabeça e segue seu caminho.
E em sua cabeça guarda uma única certeza: jamais verá o conserto daquela fechadura.
Nota da autora: Este conto aborda uma realidade vivida por muitas mulheres. Se você ou alguém que conhece enfrenta violência doméstica ou psicológica, procure ajuda.

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