Hoje começo com um breve relato de Viktor Frankl em uma de suas obras:
Em uma madrugada, às três da manhã, Viktor Frankl recebeu o telefonema de uma mulher decidida a cometer suicídio. Por trinta minutos, ele ofereceu todos os argumentos intelectuais e filosóficos que conhecia em favor da vida . Algum tempo depois, ela o visitou e confessou: nenhum daqueles argumentos a impressionou . A única razão pela qual ela escolheu viver foi o fato de que um estranho, do outro lado da linha, a ouviu com paciência e humanidade, em vez de se enraivecer por ter seu sono interrompido . Ela concluiu que um mundo onde tal compaixão era possível devia ser um mundo onde vale a pena viver.
Essa história nos revela algo de extremo valor, porém esquecido: o toque humano.
Tem faltado humanidade no ouvir, no estar e até na forma como nos relacionamos com o outro.
Quem nunca esteve diante de um médico que mal levantou os olhos para o rosto do paciente?
Quantas vezes você esbarrou em alguém na rua e seguiu sem pedir desculpas, como se isso já fosse o esperado?
Quantas conversas você realmente esteve presente, sem a ansiedade de responder, corrigir ou se posicionar?
Vamos, aos poucos, abandonando um gesto simples, mas essencial. E nos deixamos conduzir pelo automatismo.
Facilidade.
Muitas vezes não queremos ouvir de verdade. Queremos falar, responder, oferecer uma solução rápida, ou até consertar o outro com aquilo que julgamos ser o certo.
Não é difícil lembrar de situações em que recebemos conselhos não solicitados. Argumentos bem construídos, tentando nos convencer de que deveríamos agir de outra forma para resolver o que estávamos vivendo.
Estar verdadeiramente presente não é consertar um vaso quebrado. Nem sempre o outro busca uma solução. Muitas vezes, ele busca apenas ser ouvido.
E é exatamente isso que torna tudo tão difícil, enquanto tentamos ser força para o outro, precisamos lidar com o fato de que não temos controle sobre o sofrimento alheio. E isso exige maturidade.
A mulher que Frankl atendeu às três da manhã não queria resolver nada, ela estava decidida a morrer. Mas, no meio de muitos silêncios, encontrou alguém que permaneceu ali, presente, humano, sem julgamento, sem irritação pela interrupção do sono. E não foram os argumentos que mudaram sua decisão, mas a experiência de ter sido ouvida com dignidade.
Muitas vezes fazemos o oposto. Queremos oferecer palavras, conselhos, soluções. Dizemos que vai passar, que vai ficar tudo bem, que é só uma fase. Tentamos reorganizar o sofrimento do outro com lógica.
Às vezes, está no ombro que sustenta.
No silêncio que acolhe.
No olhar que não julga.
Sei o quanto isso é difícil de fazer, e muito mais de receber.
Mas é justamente isso o que mais conecta profundamente os encontros que temos ao longo da vida.
Você é capaz de perceber quantas vezes você esteve realmente presente, e não apenas disponível?

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