Meu pai é a razão pela qual eu trabalho com o que trabalho: ele é empreendedor há 34 anos, e continua acordando todos os dias com a mesma alegria para trabalhar. Sei que existem milhões de pessoas como ele, e meu objetivo é tornar essa jornada mais fluida, inspiradora e compreendida a partir de grandes histórias.
Por essa razão, para o Dia dos Pais desse ano, eu fiz algo diferente: me juntei com a Endeavor, a maior organização de empreendedorismo de alto impacto do mundo, que compartilha a mesma missão, para aprofundar no tema empreendedorismo e paternidade.
Isso aconteceu em duas etapas.
Analisamos dados agregados de mentorias da Endeavor com as principais discussões dos empreendedores com mentores sobre paternidade.
Mais de 6 horas de entrevistas com 5 Empreendedores Endeavor.
E vou te falar que vai muito além do tema paternidade: o principal output é que o filho torna o pai, e por consequência o empreendedor, em uma melhor versão. Tudo muda quando uma pessoa passa a ser responsável por outra vida — o trabalho, a agenda e, principalmente, quem ela escolhe ser.
Em vez de publicar cinco entrevistas separadas, procuramos padrões que apareciam quando as histórias eram colocadas lado a lado. O resultado é o artigo de hoje e o podcast da semana.
Eu dividi este artigo em 6 tópicos:
O tempo que ninguém sabia que tinha
Coragem, não conservadorismo
O que as crianças ensinam
A culpa
A sociedade mais longeva
A relação com o próprio pai
Antes de avançar, um recado rápido do apoiador do sunday drops, a Onfly.
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Eu carregava uma opinião pré-formada ingênua e que tenho até vergonha de escrever: era de que filhos tiram tempo do empreendedor. Mas o que descobri foi outra coisa: eles revelam onde esse tempo estava sendo desperdiçado.
É claro que filhos ocupam tempo, e o tempo total disponível diminui. Mas o ponto é que o tempo passa a ser mais intencional, a partir da clareza de que há escassez. Na real, esse é um insight relevante: a paternidade parece fazer o pai entender que há mais escassez do que abundância de tempo.
E como lidar com o cenário de escassez? Robson, da MadeiraMadeira, traz uma dica infalível: sistemas. Revisão de agenda toda semana. Todos os compromissos pessoais e profissionais na agenda.
Matheus, da Alice, trouxe um exemplo perspicaz: em vez de encaixar a família nos buracos da agenda, encaixou a filha na rotina que já existia. Café da manhã em família todo dia, atividade física de manhã, hora do banho sagrada. Quando ele e a sua esposa perceberam, a filha estava dentro da rotina, e a rotina estava melhor. Como o próprio diz: “A consequência de ter a Helena melhorou a nossa produtividade no trabalho. Porque a organização pra casa desemboca na empresa.”
Pedro, da Woba, começou a empreender aos 22 anos e é honesto sobre o que era a agenda naquela época: reunião larga, tempo emocional gasto com o que não mudava resultado, prioridade que nunca ficava clara. Como ele diz: “quando você tem filho, você fala: eu só tenho 30 minutos, vamos resolver isso agora. Quando você não tem essa diligência, tudo você pode extrapolar, e isso não gera valor.”
Como já disse diversas vezes aqui no Aura: ações expressam prioridades. E para quem vive de alta performance, a prioridade passa a ser dupla: a empresa e a família.
Curioso que esse foi o takeaway da base quantitativa de insights das mentorias da Endeavor: Tratam a paternidade como um sistema, não apenas com um sentimento. Eles protegem o que importa na rotina, desde bloqueios de agenda até rituais estruturados que os pais usam para se manterem presentes e sãos.
Filho é, claro, uma responsabilidade. Você precisa dar a melhor educação, criação, acesso à saúde. E eu imaginava que, no momento em que você virava pai, talvez as decisões passassem a ser mais conservadoras. A realidade foi diferente, e isso foi uma surpresa dentro desse cohort de alta performance: os filhos na verdade deram coragem para eles se tornarem a melhor versão, porque esses empreendedores querem que os filhos sejam extraordinários, e uma das condições precedentes disso tudo é eles próprios serem um exemplo extraordinário. Então a responsabilidade financeira é um pilar, mas a do exemplo é tão grande quanto.
Marcelo, da Onfly, tem a data exata dessa virada: 2015. Ele carregava um problema comum a todas as pessoas, a síndrome do impostor, e fugia de palestras. Recusou o convite para palestrar no Fórum e-Commerce Brasil duas vezes. Na terceira vez, o filho estava nascendo. Mas tudo mudou, como ele comenta: “Eu lembro que eu estava deitado e falei: se meu filho está nascendo agora, eu preciso ter coragem, eu preciso dar um exemplo. E eu falei que eu topava.”
A decisão de empreender veio pela mesma porta. “O medo, em excesso, paralisa. O Arthur destravou um negócio em mim. Se não fosse o Arthur, eu não estaria onde eu estou hoje.”
Chris, do B55, acrescenta a ressalva do método: a coragem intensifica, mas vem mais organizada, mais estruturada. Quer-se o orgulho do filho, e isso muda a qualidade da decisão, não o apetite. Com a paternidade, há uma maior distinção entre ruído e sinal.
Como empreendedor, você vive num regime no mínimo monárquico: poucas pessoas decidem o caminho da empresa. O peso do acerto e do erro das decisões está nos seus ombros. Dentro de casa, esse suposto controle é diferente.
Pedro se preparou para a paternidade como se preparasse um lançamento: tocou violão para a barriga da esposa para se conectar, leu três livros no primeiro mês, montou plano. No primeiro dia de vida da filha, dormiu vinte minutos. A conclusão veio no terceiro dia, quando o peso caiu do ombro.
O livro que eu li, o planejamento, os brinquedos, o berço que eu comprei, você acha que isso vai fazer diferença? Descobri que não tinha controle de nada. O que faz diferença é o carinho, é o amor no final do dia.
— Pedro
A segunda lição aparece quando os filhos começam a mostrar quem são. Robson é quase um atleta: fez educação física, quase virou profissional de basquete, surfa até hoje. E aqui vem uma lição: O filho mais velho não carrega o mesmo gosto por atividade física. Robson até tentou quase que incutir esse hábito no filho, levando mesmo quando não o pequeno não estava tão animado, até quando a esposa perguntou se ele entendia que o filho não precisava ser igual a ele. Isso mudou sua perspectiva: cada um de nós é único à sua maneira.
A terceira lição é a paciência. Matheus sempre foi impaciente, e a impaciência inclusive o ajudou no trabalho. A filha mais nova também é impaciente. E é aí que a conta fecha: para ensinar paciência a ela, ele precisou aprender primeiro. Ele completa com a observação de que as pessoas que considera sábias são pacientes, sem deixar de ser agressivas e high performance no que fazem.
O que muda tudo é o horizonte de tempo. Na empresa, você precisa fazer acontecer agora para estar saudável em seis meses. Com filho, a régua é uma vida.
Você é pra sempre poucas coisas. Eu posso deixar de ser empreendedor, posso deixar de fazer um monte de coisa, mas eu nunca vou deixar de ser pai da Helena e da Marina. — Matheus, Alice
A culpa
Existe o outro lado, e ele apareceu em todas as conversas: a culpa de estar trabalhando quando poderia estar com o filho, e a culpa de estar com o filho sabendo que existe um problema esperando na empresa. Como a análise de dados da Endeavor aponta:
Há uma tensão clara entre presença e crescimento. E há a dor da ausência com os filhos, dentro da escolha de rotinas.
O Chris Faé conta, por exemplo, que quinze dias após o filho nascer, precisou passar duas semanas em Londres. Ossos do ofício.
Marcelo viveu a versão mais dura. Na pandemia, as viagens corporativas pararam, a receita da Onfly foi a zero e ele passou meses full time sem tirar um real de salário, com um filho de seis anos em casa. Está tudo documentado no episódio que fiz sobre a Onfly em 2024.
Os boletos da escola iam chegando, eu não ia pagando porque eu não tinha dinheiro. Mas dentro daquela casa tinha um ambiente de amor. Era um contraponto a tudo de ruim que estava acontecendo lá fora.
— Marcelo
O detalhe que me pegou: o seu filho, o Arthur, lembra da pandemia como a melhor época, porque tinha o papai e a mamãe 100% dentro de casa. A presença é o que mais importa.
Eu esperava encontrar empreendedores consumidos pela culpa, mas foi o contrário: encontrei pessoas extremamente intencionais em construir uma vida que não a gerasse, e que faziam tudo dentro do controle delas para não ter isso. Essa é uma lição que vai além da paternidade.
Matheus fala algo poderoso: a saída é construir uma vida coerente. Ser bom pai passa por ser bom marido, cuidar da saúde e fazer um trabalho que dê realização. Quando ele perde o banho das filhas por uma reunião, sabe exatamente por quê. Na maior parte dos dias, o banho ganha.
Robson chegou ao mesmo lugar com a palavra que eu levei dessa pesquisa: “eu não gosto da palavra equilíbrio. Eu gosto da harmonia, porque equilíbrio parece que você está sempre com peso pro lado.”
Equilíbrio é uma balança compensando dois lados o tempo inteiro. Harmonia é empresa e família coexistindo dentro da mesma lógica.
Pedro fechou o raciocínio com inteligência emocional: se ele está sendo o melhor dele na empresa e o melhor dele como pai, as variações não viram culpa. Ele ainda lembra de um privilégio que a geração anterior não teve. O pai dele estava no varejo, o meu na indústria e no comércio, e nenhum dos dois podia almoçar em casa numa terça-feira. Flexibilidade de agenda é um presente, e presente se agradece usando.
Descobri outro ponto poderoso, que é quase um antídoto para a culpa: compreensão.
Vou abrir um espaço para falar da minha vida. Todo fim de ano meu pai fazia uma celebração com os colaboradores, com sorteio e churrasco, e sempre fez questão de que as famílias estivessem lá, a nossa e a de todo mundo. Foi isso que me fez enxergar o trabalho dele como algo concreto. No casamento da minha irmã, no começo deste ano, contei uma história que o deixava emocionado: todo sábado ele passava nos comércios e levava a Camila como companhia, e ela ajudava a organizar até alguns boletos.
As pessoas só querem ser envolvidas. Isso vale também para os filhos.
Com o Chris, depois da mudança para São Paulo, o escritório virou lugar que os filhos frequentam depois da escola. Teve filho que teve fralda trocada no escritório. E o Robson levou os filhos para um set de gravação da Casa Tema, marca infantil da MadeiraMadeira, onde eles passaram o dia como atores do lançamento de uma cama beliche enquanto ele entrava e saía de reunião. Aquilo que era um lugar abstrato onde o pai passa a semana vira um lugar com rosto, com gente e com sentido.
E claro, a maior fonte de compreensão tem nome e sobrenome: a parceria da sócia (ou sócio) de vida.
A sociedade mais longeva
Existe uma imagem romantizada do empreendedor que constrói tudo sozinho. Quando os filhos chegam, essa história muda: as grandes decisões deixam de ser individuais e viram conversas difíceis, mudanças de cidade, renúncias.
A sociedade começa antes do filho nascer e o apoio é um dos pilares mais importantes:
Eu aprendi que pro nosso filho estar bem, a esposa tem que estar bem. Ela que está dando o leite, tem coisa que a gente não tem como substituir. Então eu garanti que ela estava bem pra eu cuidar da filha.
— Pedro
Cuidar de quem cuida. É a primeira função do sócio, e ninguém ensina.
Chris foi quem levou o tema mais longe. Para ele, a conversa sobre paternidade e empreendedorismo é, na verdade, uma conversa sobre casamento.
Tudo passa da pessoa com quem tu escolheu ter esta paternidade. Vale tanto pra dar certo na paternidade quanto pra dar certo na vida empreendedora: ter do lado alguém com um alinhamento muito forte. Alinhamento de princípios, de valores, de visão de vida, de momento de vida — em todas as dimensões, seja religiosa, política, de prosperidade. Tão importante quanto o sócio numa empresa é o sócio dentro de casa.
— Chris
O caso dele mostra a sociedade em ação da forma mais concreta da pesquisa. Durante anos, Chris morou no Rio Grande do Sul e trabalhou em São Paulo: embarcava toda segunda, voltava toda sexta. Funcionava para a empresa e tinha parado de funcionar para a família. A decisão de mudar levou meses de conversa, afinal havia muitos prós e contras, e envolveu deixar a casa que a esposa tinha reformado com todo carinho, os amigos, todos os vínculos. Nenhum parente em São Paulo. Começou como test drive: alugaram algo para testar, e a esposa tentou operar o negócio dela remotamente.
Passaram-se três meses e a gente falou: nossa, melhor coisa que a gente fez. A minha esposa buscava meu filho na escola e iam pro escritório me buscar de noite. A gente passou a conviver muito mais.
— Chris
Uma mudança de vida que só funciona com a parceria.
A relação com o próprio pai
Eu sinto que só vou entender meu pai, e esses empreendedores com quem tive o prazer de conversar, no momento em que nascerem os meus pequenos. E levei essa pergunta em pauta: o que você racionaliza sobre a sua relação paterna agora que tem filho?
Sabe o que me surpreendeu? Nada era sobre uma lição de negócios específica, ou a inspiração pela profissão. Acima de tudo, era sobre o poder do exemplo.
O pai do Marcelo está com 77 anos e vai à academia todo dia. Nunca disse ao filho que exercício é importante — pratica, de forma disciplinada, há uma vida. “Meu pai nunca foi de falar, sempre foi de fazer. Não é sobre falar, é sobre o que você faz.”
E a resposta do Matheus foi a que mais me emocionou na pesquisa inteira. O pai dele era pedreiro, empreendeu várias vezes e quebrou todas.
Eu sempre brinco que o meu pai era bom em duas coisas: em quebrar a empresa que ele construía, e em ser pai. Pai não tem limite ao sacrifício pessoal pelo filho. Ele me ensinou o que é amor verdadeiro, se colocou numa penitência imensa pra eu e minha irmã termos a possibilidade de estudar. Se eu puder ser metade do que o meu pai foi e é pra mim, elas vão ter coisas demais.
— Matheus
A presença e o exemplo são o que marca um filho na relação com o pai, e talvez seja isso o mais importante da história toda.
Nisso eu concordo.
Espero que o artigo tenha gerado boas reflexões e um feliz dia dos pais.
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E só pra finalizar, último recado.
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