Me lembro como se fosse ontem a minha primeira cozinha. Ano 2000, uma cozinha no Bairro Peixoto, no Rio de Janeiro, que eu pintei do meio pra cima, inclusive o teto, de amarelo. Eu cismei que eu queria uma cozinha amarela.
A pia de um mármore antigo, bem pequena. Onde não ficou amarelo, azulejos brancos. Eles devem ter agradecido a alegria de um pouco de cor. Me lembro a sensação e o cheiro daquele ambiente quando entrei ali pela primeira vez: “parece um laboratório, vou ter que pintar”.
Foi esse o cenário dos meus primeiros ensaios de comida pra me alimentar.
Porque primeiro a gente cozinha pra se manter vivo mesmo. Depois vem a poesia.
Eu tinha 26 anos, voltava para o Rio – onde cresci – depois de já formada e a trabalho. O que será que aquela cidade me reservava dessa vez? Era o começo de uma vida nova. E de fato foi.
Muito dos amores que passaram pela minha vida naqueles anos, passaram também pela minha cozinha amarela.
No primeiro ano, resolvi fazer uma festa de réveillon, claro. Como a sala era micro, onde o povo se ajeitou? Na minha cozinha amarela, que lá pelas 4 da manhã era pura areia de Copacabana. Muito poético.
Sem utensílios, poucas panelas, ela me fez virar dona de um fogão e de uma geladeira. Aliás, 21 anos depois, a geladeira ainda está comigo e passa bem, obrigada.
Muitas lembranças eu tenho da minha primeira cozinha. Mas se me perguntarem qual foi a primeira comida que eu fiz nela, não lembro. Eu só queria me alimentar. A poesia veio depois.
Falando em começos, esse é mais um dos meus: uma newsletter pra ampliar a minha conversa com você. Mais uma forma de expor as minhas ideias, as minhas crenças e os meus sentimentos. Em algum momento, alguma palavra, algum tempero, alguma lembrança vai fazer a gente se esbarrar, pegar um café e prosear.
E enquanto a escrevo, fiquei pensando: quantos começos temos e somos?
Não é fácil. Entre o começo, o meio e o fim, acho que o primeiro é o mais difícil. Pra tudo. Porque o quanto a gente pode, a gente adia.
Mesmo com tudo a nosso favor, o amanhã parece sempre o melhor dia.
Na cozinha não é diferente.
O que mais ouço de quem adia começar a cozinhar é: “mas eu não tenho as ideias que você tem, não tenho mão para temperar, não sei nem por onde começar”.
E esse é mesmo o começo: o tempero.
“O sal é um dom”, já dizia Dona Canô. É, mas se você nunca usa, como saber se o tem? Se a gente nunca exagera, como saber a medida?
Quem sou eu pra discordar de dona Canô, mas na cozinha e na vida, é assim que se começa: errando. Não é mesmo?
Daí, um belo dia a gente acerta. O sal ficou na medida! Hora de achar outra coisa pra errar... até acertar.
Desde que eu me conheço por gente existe esse tempero na minha família, o tempero verde.No dia que minha mãe faz, é quase um evento. Descasca-se muito alho, higieniza-se muita salsinha, muita manjerona. Maneira-se o sal. Tudo a olho, sem receita. Processa tudo, guarda em potes, distribui pra família. É mais que um tempero, é um elo, um talismã que nos une.
E ainda deixa as carnes com um gostinho... hummm...
Para ver a receita, clique aqui.
Tenho a sorte de ser amiga dessa chef incansável e destemida.
Por isso, essa coluna não poderia começar com outra pessoa se não com ela.
Há um outro motivo também: Roberta sempre menciona a famosa frase de sua avó Iracema – amor da sua vida – que a encorajou a começar de novo. Quando tudo estava estranho e difícil na sua carreira, a Vó Iracema disse: “quando o que você estiver fazendo não estiver certo, para e começa tudo de novo”. Foi o que ela fez.
Roberta é PHD em começos e recomeços.
1- No começo da sua carreira de chef, o que te fez seguir adiante e não deixar pra amanhã?
RS: Muita vontade, coragem, determinação e uma boa dose de audácia. Não foi um conto de fadas, mas as coisas aconteceram numa velocidade mais rápida do que eu imaginava. Cada oportunidade eu agarrava como se fosse a única e me atirava de cabeça. Contar com o apoio da minha Vó foi muito importante também. Quando decidi largar tudo para ser cozinheira, a profissão não era algo tão glamuroso assim. Minha família achou uma loucura. E minha Vó costurou a mão a minha primeira dolmã e me disse: Se é isso que você quer, faça o melhor!
2 - Qual foi o seu começo mais difícil?
RS: Fechar o meu primeiro restaurante, o RS, quando estava no auge da minha carreira, porque não acreditava mais naquela forma de cozinhar. E consequente reformular o meu caminho na cozinha foi bem radical. Definir dentro mim o que eu realmente queria e readequar o conteúdo dentro de uma nova forma não foi uma tarefa fácil. Eu achei que ali estava vivendo o meu maior desafio. Mas aí veio a pandemia e tudo aquilo ficou pequeno diante do que vivemos. Acho que nesse momento estou vivendo o meu começo mais difícil. É preciso empenhar uma quantidade de determinação, força e fé incríveis para dar os passos necessários e atingir os objetivos hoje. A pandemia trouxe um conjunto de desafios que a gente simplesmente não conhecia. Emocionais especialmente. Lidar com tudo isso e ainda tocar o barco, tem sido exaustivo. Na verdade eu acho que o que tenho a meu favor é justamente o fato de ter virado a chave da mudança antes de tudo isso acontecer. Neste sentido, me sinto tranquila e confortável diante da readaptação que será necessária para todo o setor. Mas o resto será um grande desafio para todos nós por um bom tempo.
3 - Um refogado começa pela cebola ou pelo alho?
RS: Para mim, sempre pela cebola! Minha Vó me ensinou assim e apesar de respeitar todas as formas e saberes , principalmente aqueles que carregam a simplicidade e os gestos de cozinha brasileira, acho que faz todo sentido. A cebola tem mais líquido, com isso dá uma segurada no alho que é mais afoito e tende a queimar o filme mais rápido!
4 - Para o final feliz de uma receita, como ela deve começar?
RS: Sempre pela qualidade dos ingredientes. Quanto a isso não há negociação. Não é possível mascarar, acaba aparecendo, não tem jeito. Quanto mais conexão você puder ter com os ingredientes, saber de onde vêm, quem plantou, quem colheu, mais natural e prazeroso o processo fica. E mais verdadeiro também. Eu acredito cada vez mais na simplicidade, nesta cozinha que mostra a cara e que não se esconde. E para essa cozinha a regra não muda, muito pelo contrário, os ingredientes aparecem mais, estão lá de corpo e alma, nada consegue esconder. Então mais uma vez, a qualidade é tudo!
5 - O que você falaria pra quem ainda não começou a cozinhar?
RS: Tá esperando o que?
Outro dia, pesquisei algumas receitas de pão de alho caseiro para o trabalho. Para quem ainda não sabe, sou jornalista e roteirista e meu trabalho atual me dá a chance de escrever sobre culinária. Além disso, quando cismo de fazer algum prato que nunca fiz, pesquisar várias receitas é um caminho legal e sempre muito divertido. Não raro, mesclo uma receita com a outra. Essa busca aumenta nosso repertório, faz a gente exercitar o entendimento de olhar os ingredientes pensando a função deles num preparo.
Existem muitas receitas, muitas formas de fazer esse que é o começo de um bom churrasco. De muita coisa que eu li, cheguei nesse pão de alho que compartilho aqui.
Ingredientes
(medida: colher de sopa)
2 colheres de alho bem picadinho (se você preferir um sabor menos acentuado e menos picante do alho, pode também ralar ou usar um mini processador)
2 colheres de manteiga
2 colheres de requeijão
2 colheres de queijo parmesão ralado
1 colher de salsinha bem picadinha
#foiassim
Coloque todos os ingredientes numa tigela e misture bem com uma colher, formando uma pastinha bem perfumada. Corte o pão francês por cima, criando várias fatias mas sem cortar até o final do pão. Passe a pastinha de alho entre os cortes, espalhando bem pela parte do miolo em cada fatia. Por cima, dê uma pincelada em todo o pão com a pastinha e leve ao forno pré-aquecido ou para a churrasqueira. Se usar o forno, cuidado para não deixar queimar embaixo. O ideal é que a temperatura do forno permita que o pão fique um tempinho lá para que a pastinha e o alho possam impregnar no pão sem sair do forno ainda cru.
Testamos também - no caso eu e minha família e não a minha "equipe" que não existe - cortar o pão ao meio, no sentido do comprimento, e passar a pastinha sobre o miolo, colocando no forno ou na churrasqueira abertos. Funciona super bem também, teve até quem preferiu dessa forma.
Eu às vezes me pego vendo uns vídeos no Instagram igual cachorro vendo o frango de padaria rodar naquelas máquinas... em looping, hipnotizada.
Muitas vezes pela beleza do vídeo ou por uma ideia que achei genial.
Vídeos com massas lindas e fofas são sedutores.
Tudo isso vai aumentando nossas referências também.
Vou sempre compartilhar aqui um vídeo desses que vejo e gosto.
Quem sabe não te inspire ou até mesmo abra possibilidades?
O dessa semana é essa torta, feita a partir de um bolo. Eu perdi a conta de quantas vezes vi.
Para assistir, clique aqui.
E já que está terminando essa nossa conversa, fica aqui o lembrete do meu começo nos ebooks. Tão despretensioso mas tão fascinante.
Antes de ir morar sozinha e precisar cozinhar pra me alimentar, eu fazia uma graça cozinhando risoto pros amigos. Fiz muito. Errei muito.
Um dia, acertei. Aí virou um prazer.
Por isso, consegui colocar dicas e segredinhos que aprendi num livreto virtual. Falo sobre o caldo, os tipos de arroz, a receita básica e mais 10 receitas legais pra praticar.
Deixo o link aqui para quem quiser conhecer. Ou presentear, quem sabe?
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