Você já tentou fazer uma dieta e não conseguiu? Ao primeiro sinal de uma tentação gastronômica, se entregou à comida, mesmo querendo muito emagrecer? Já sonhou em ter sucesso profissional, mas abandonou o MBA no meio do caminho? Ou se formou em inglês há 20 anos e nunca mais estudou? Sonhou em ser atleta, mas no dia da corrida esqueceu o RG?
Já deixou morrer planos, sonhos e vontades simplesmente por não confiar em si mesmo para conseguir o que deseja?
Todos nós já passamos por isso e seguimos tropeçando nos nossos próprios desejos. Todos carregamos um chamado. Uma vontade grande de dar certo. Um talento. Sabemos que existem coisas que nos fariam completamente felizes e realizados, mas simplesmente não percorremos o caminho necessário para alcançar nossos sonhos.
O nome dessa força é Resistência.
Você também pode chamá-la de bloqueio ou autoboicote.
É uma força negativa que nos impede de criar e de fazer aquilo que gostaríamos. É aquela sensação de “queria tanto que desse certo”, misturada com “eu não sou tão bom assim” e mais uma pitada de “deixa para lá”.
Talvez Freud chamasse isso de pulsão de morte. Para ele, Thanatos é a tendência intrínseca de todo organismo de retornar ao estado inanimado, à morte. Em oposição à pulsão de vida (Eros), que busca a preservação e a propagação da existência.
A primeira vez que entendi que o autoboicote que pautava a minha vida era algo humano e comum a todos foi ao ler o livro “The War of Art: Break Through the Blocks and Win Your Creative Battles", de Steven Pressfield. Segundo o autor, onde há criação, há sempre resistência.
“A resistência dirá qualquer coisa para impedi-lo de fazer seu trabalho. Ela perjurará, fabricará, falsificará, seduzirá, intimidará, bajulará. A resistência é multiforme. Assumirá qualquer forma, se for preciso, para enganá-lo. Argumentará com você como um advogado ou enfiará uma pistola nove milímetros na sua cara como um assaltante. A resistência não tem consciência. Prometerá qualquer coisa para fechar um acordo e, em seguida, trairá você assim que virar as costas. Se você acreditar na palavra da resistência, merecerá tudo o que receber. A resistência está sempre mentindo e falando besteira.”
— Steven Pressfield
O escritor e empreendedor Seth Godin descreve a resistência como o ato de fazer qualquer coisa para impedir que façamos algo que nos dá medo. Ele também a relaciona ao chamado “cérebro lagarto”, uma parte primitiva do nosso cérebro responsável por instintos de sobrevivência, reações automáticas (luta ou fuga), fome e regulação física.
Essa parte do cérebro tem uma única missão: nos manter seguros.
Por isso, deixar de criar ou publicar algo significa menos riscos, menos exposição, menos julgamento, menos mudanças. É o nosso sistema primitivo tentando nos proteger, mas que acaba jogando o bebê fora junto com a água do banho.
Sem criação, não existe nada novo que nos empolgue ou nos faça felizes. E mais: sem desafios que nos assustem, ficamos presos em uma zona de conforto que, com o tempo, se torna tudo menos confortável.
Talvez por isso o retrato do artista perturbado pela própria arte seja tão comum no nosso imaginário. Criar é lutar contra o instinto de permanecer seguro. Ao mesmo tempo, somos aterrorizados pela arte que ainda não conseguimos criar.
A resistência também se esconde atrás de muitos disfarces:
Procrastinação
Perfeccionismo
Preguiça
Cansaço
Focar no urgente em vez do importante
Falta de investimento básico para fazer o trabalho
Ignorar métricas úteis
Obsessão por métricas que não importam
Começar projetos e não terminá-los
Esperar pela inspiração perfeita
Prometer demais e entregar de menos
Distrair-se com novas tecnologias e ferramentas
Pesquisar infinitamente em vez de executar
O segredo parece simples: vá com medo mesmo.
Mas não é tão simples assim. A resistência é sorrateira. Ela se esconde atrás da racionalização e usa justificativas aparentemente legítimas.
“Talvez não seja mesmo um bom dia para ir à academia, estou tão cansado do trabalho.”
“Talvez eu deva esperar para fazer aquele curso, quando a situação melhorar.”
Ela nos convence, pouco a pouco, a permanecer parados. O que ela esquece de mencionar é que as condições nunca estarão perfeitas para fazer qualquer coisa que nos dê medo.
Algumas pessoas parecem esperar receber um diagnóstico grave que lhes dê poucos meses ou anos de vida para finalmente assumir seus próprios desejos. Aí decidem viajar de moto, pintar o cabelo de roxo ou fazer uma tatuagem.
Mas será que precisamos estar à beira da morte para nos permitir ser criativos ou perseguir nossos sonhos?
No fundo do coração, todos nós sabemos o que queremos fazer. Só não colocamos o plano em prática. Não acreditamos em nós mesmos. Não sentamos na cadeira para fazer o trabalho necessário.
Seth Godin diz que a resistência não desaparece, nem mesmo para pessoas bem-sucedidas. O importante é perceber o medo e continuar trabalhando da mesma forma, sem esperar inspiração divina ou condições perfeitas.
Ao perceber o medo, diga a si mesmo: você está diante de algo importante.
Algumas técnicas para lutar contra a resistência:
Criadores profissionais não esperam motivação. Eles criam rotinas: escrevem todos os dias, trabalham em horários definidos e transformam a criação em hábito. Quando existe prática, não precisamos negociar com o cérebro lagarto. Nós simplesmente começamos.
Prazos criam limites. Seth Godin recomenda estabelecer deadlines firmes, mesmo que inventados por você. Menos tempo significa menos espaço para o medo dominar o processo.
Um dos maiores mitos da criatividade é acreditar que precisamos de inspiração. Na realidade, a inspiração costuma aparecer depois que começamos a trabalhar. Criar não é esperar um momento mágico. É aparecer e fazer o trabalho.
Muitas pessoas esperam que alguém descubra que elas têm um livro escondido no Google Docs e as convide para publicá-lo (eu mesma).
Seth Godin deu um conselho no podcast da Mel Robbins:
“Faça um PDF. Mande para algumas pessoas. Peça que compartilhem se gostarem. Se for bom, seu telefone vai tocar. Se não tocar, faça algo melhor.”
Parece simplista, mas há algo muito valioso nesse conselho. Não se apegue ao material. Solte-o no mundo.
Se ele tiver qualidade para existir, deixará de ser apenas seu e passará a ter vida própria. E de onde veio essa ideia, certamente virão muitas outras.
Veja o caso de James Cameron. Nos anos 90, ele ficou absolutamente obcecado em chegar aos destroços do Titanic. Descobriu que alguém havia conseguido mergulhar até 3.800 metros de profundidade, algo que parecia humanamente impossível.
Ele então decidiu unir um projeto criativo a esse sonho: fazer um filme que pagasse pela expedição de mergulho.
Ao produzir o filme, novamente foi ousado. Mandou construir uma réplica detalhada do navio e criou complexos rigs de câmera para filmar as cenas. O custo da produção chegou a US$ 200 milhões, algo gigantesco para os anos 90.
O resultado? O filme arrecadou cerca de US$ 2 bilhões e se tornou uma das maiores bilheterias da história.
Mas Cameron não ficou preso ao próprio sucesso. Logo retomou um projeto antigo que tinha na gaveta, algo ainda maior: Avatar.
O filme redefiniu os efeitos visuais e continua sendo até hoje a maior bilheteria da história do cinema, com cerca de US$ 2,9 bilhões arrecadados.
Nunca haverá uma hora melhor do que agora.
Beethoven ficou surdo e ainda assim compôs algumas das maiores obras da história da música, como a Nona Sinfonia. Stephen Hawking foi diagnosticado com ELA aos 21 anos e mesmo assim revolucionou a física moderna. Van Gogh lutou contra doenças mentais, pobreza e rejeição em vida e hoje é um dos artistas mais celebrados da história.
Então fica a pergunta:
Qual é a obra de arte que está esperando a sua boa vontade para vir ao mundo?
Comece a trabalhar nela hoje.
Ou assista a esse vídeo.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.