A primeira vez que senti ansiedade por ficar sem internet foi por volta de 2010, nesse chalé da foto, em cima de uma montanha. Eu consegui alguns dias de folga e fui viajar com meu pai para uma pousada encantada em Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira, divisa entre o Rio e Minas. O celular não pegava bem ali e a internet da pousada falhava toda hora. Essa foi provavelmente a primeira coisa que reparei depois de conhecer o quarto e deixar as malas no chão.
Eu parecia uma personagem caricata da cidade grande caçando sinal de Wi‑Fi. Que tipo de pessoa iria se preocupar com a Internet podendo curtir uma folga em cima de uma montanha? Essa era eu. A pousada tinha café da manhã e lareira no quarto, o que mais eu poderia querer?
O Twitter. Naquela época, meu cérebro estava condicionado a participar de uma conversa sem fim, onde cada um falava sozinho. Eu gostava de postar frases curtas supostamente engraçadas, o tempo todo performando para uma plateia imaginária. Olhava para a realidade já pensando em algo irônico para postar e, assim, criar uma personalidade online para mim.
Por mais que quase ninguém entendesse minhas piadas, eu me sentia satisfeita como se eu falasse comigo mesma, intimamente. Só nós duas sabíamos a genialidade de estar vivendo algo e falando alguma coisa engraçada sobre aquilo. Já era o bastante.
Eu gostava de enxergar a Internet como uma extensão da vida, como se fosse uma camada que deixava tudo mais interessante. Eu podia estar aqui com meu pai, mas na verdade eu também estava em outro lugar, sendo sociável e jovem, parecendo alguém legal e interessante. Com a Internet, eu podia inventar um “Eu” para mim e não precisava nunca me sentir sozinha.
Por isso, estar ali, de férias, offline, era pedir para eu abrir mão da minha vida, do jeito como eu estava acostumada a existir no mundo. Deu um “tilt” no meu sistema, que estava condicionado a estar online o tempo todo. E o pior é que eu tava precisando muito de um descanso. De me afastar um pouco da Internet, já que eu trabalhava com isso.
Fiquei horas procurando sinal até que resolvi desligá-lo e guardá-lo na mala. Esse distanciamento me obrigou a viver na realidade, que tem um ritmo bem diferente. Ajudou bastante estar em uma cidade encantada, onde você é impactado por borboletas azuis, pássaros com rabos enormes, nascentes e cachoeiras em qualquer beira de estrada. A conexão com a natureza, com os pássaros, com o fogo fez cair a ficha de que a realidade é muito superior à Internet.
Talvez esse habitat virtual funcionasse para mim enquanto vivia na loucura da cidade grande. Eu trabalhava naquela época com edição de notícias online, acompanhando o que acontecia no mundo o tempo todo. “Houve um acidente de trem na Índia.” Depois: “24 mortos no acidente em Nova Délhi”. Depois: “saiu a foto”. “Será que é uma notícia grande o suficiente para subir na capa do site?” Depois: “Errata: acidente de trem na Índia mata 240 mortos”. A agência tinha esquecido de digitar um 0. Minha vida era acompanhar gota a gota os acontecimentos no mundo todo, para informar as pessoas. E isso gerava uma enorme ansiedade, e por que não, me deixava cada vez mais grudada na tela.
Portanto, me desconectar totalmente era mais do que deixar de tuitar para uma audiência imaginada, mas também significava parar de trabalhar um pouco, e principalmente de me informar sobre o mundo.
No final da viagem, olhei para o celular no fundo da mala e o achei triste. Morto, parado, sem a minha atenção. Triste também era a minha dependência dele. Como eu tinha dado tanto protagonismo a um mero aparelho eletrônico?
Depois daquele retiro offline forçado de três dias, comecei a pensar diferente. Percebi que eu tinha um problema de ansiedade ligado à hiperconexão com a Internet. Entendi que precisava pesquisar sobre isso, escrever, e em última análise, encontrar um jeito de viver conseguindo se desconectar um pouco. Era hora de “desmorfar”.
15 anos depois, vejo muitas pessoas passando pelo mesmo vício na Internet e no celular. Cada um com a sua história. O celular dá o que você precisa no momento. Distração, passar o tempo, trabalhar… É como o cigarro: você pode fumar para acordar ou para dormir, para ter fome ou para fazer digestão.
A maior parte das pessoas é viciada em celular porque ele é feito para isso. Ficar sem ele não significa só deixar de se mostrar nas redes sociais, mas também abrir mão de participar do mundo e do ritmo das coisas. E, acima de tudo, significa deixar de ser o seu “Eu” que só existe online.
“Eu me preocupo com o tempo de tela da minha mãe, mas é a única coisa que parece acalmá-la”
Os retiros nessa mesma montanha se tornaram uma prática que tento repetir desde então. Mas não consigo todo ano. Fazia três anos que eu não me submetia ao “Hotel Offline”. A última vez tinha sido intensa; desliguei o celular por 11 dias bem nos dias que antecederam a eleição do Lula em 2022. Era completamente subversivo ficar sem informação nenhuma naquela altura do campeonato. Aquela eleição decisiva nos fazia pensar que o mundo podia acabar, qualquer que fosse o resultado.
Dessa vez, em 2025, fiquei 8 dias com o celular desligado (força, guerreira!). Eu estava pronta para esse desafio. Férias do trabalho. Tentei empacotar meu retiro espiritual offline como se fosse algo que faço todos os anos, quem sabe isso começa a acontecer. Contei para meus colegas Gen-Z como se fosse uma prática de elevação espiritual, que eu, muito moderna, tinha criado para mim. Minha colega de 21 anos disse: “nossa, mas pra quê??” Para ela, era algo completamente estranho escolher ficar sem o telefone. Seria um sofrimento sem motivo, à toa. O que mais haveria lá fora de mais interessante do que dentro da tela do celular? Eu expliquei meus motivos, mas perdi ela logo na primeira frase. Mesmo assim, eu fui, é claro, segura de ter avisado a todos que importava que eu estaria offline.
Entrei na nossa cabana, que era quase como uma nave espacial. E já desliguei o telefone na hora, como se fosse um pré-requisito. Era uma nave, pois nós tínhamos tudo o que precisávamos ali, e não falo de kits de primeiros socorros, mas de pães, queijos, garrafas de Soju e pedaços de panetone cobertos de chocolate, que eu tinha ganhado de uma amiga chique. Toda uma alimentação balanceada. A uma curta caminhada, uma cachoeira. Todos os dias, a chance de tomar uma sauna a 70 graus, seguida de uma ducha com a água cristalina e congelante da montanha. O retiro espiritual estava garantido.
Dois cachorros de chácara carinhosos nos davam bom dia logo pela manhã, e no café eram oferecidos queijos frescos que vinham no lombo de cavalos trazidos pelo último tropeiro que cruzava Minas Gerais até ao Rio de Janeiro para este fim. Completavam o banquete: iogurtes feitos pelo casal dono da pousada, ambos com 74 anos, leite fresco de vaca, biscoitinhos de nata e aveia caseiros, frutas e pão de queijo assado na hora. Que tipo de maluco sentiria falta da Internet?
Eu sabia que esse ano não seria eu. Era a única chance dos 1000 dias anteriores em que eu poderia ficar um tempo longe do WhatsApp. Consegui curtir o silêncio, escrevi, desenhei, joguei Jogo da Vida. O desenho que fiz (abaixo) mostra que talvez eu esteja lembrando de forma idealizada e tranquila esse período.
Na verdade, peguei aversão por ligar o celular. Tinha medo de voltar para a realidade. No último dia, logo antes de ligar o aparelho, olhei para as árvores que ficam em cima da montanha, bem no contorno do céu. Tive vontade de chorar de tão bonito. E pensei algo que sempre penso quando as férias são boas: “eu poderia morar aqui”.
Nesses dias, me tornei mais observadora dos pássaros. Entrei em cachoeiras congelantes. Fiz trilha. Tomei cerveja feita com água de cachoeira (vejo um padrão em tanta água de cachoeira). Parei de ter medo de insetos. Me senti idiota por ter comprado tantas maquiagens na Black Friday. Foram muitas transformações em um mero encontro com a natureza e ficou claro que eu sempre vou precisar lutar para não cair de novo e ir vivendo no automático, em um estado de permanente distração.
Chegou a hora de ir embora. Liguei o celular e scrollei três vezes a tela, vendo o tanto de novas mensagens que tinham chegado no WhatsApp. Senti um rush de dopamina. Será que aconteceu algo importante? Ganhei uma herança? Morreu alguém? A vizinha do outro prédio me avisava sobre um desfile de enormes balões que teria perto de casa. A secretária do dentista me avisava que ele iria entrar de férias. A mulher do freela pedia para eu reenviar a nota que emiti em agosto, pois ela perdeu. A assessora de investimentos me aconselhava a investir em ouro. Havia 259 mensagens no grupo do trabalho. O publi que a gente tinha contratado saiu pela culatra. Um colega me avisava que foi contratado pela empresa em que trabalho. Tentei olhar só o que fosse importante ou urgente, mas quando vi, já estava respondendo a todas as mensagens que esperavam algo de mim.
Meu filho queria fazer uma última fogueira antes de irmos embora e me pediu ajuda para pegar lenha. Eu fui com o celular na mão, completamente distraída. Ele disse: “Já voltou tudo ao normal, né, mamãe?” Aquilo me perfurou como uma facada. Eu não quero mais viver nesse estado de olhar o mundo através da tela do celular. Mas às vezes a internet é tão irresistível… Ela pede minha atenção, espera minha presença. Ou sou eu que uso isso como desculpa?
A Internet na verdade não tá nem aí com o que eu posto, ela já tem o suficiente sobre mim para me manipular a comprar coisas. Ela escuta meu microfone, vasculha as minhas fotos. Na verdade, o mais seguro seria eu usá-la cada vez menos, sabe-se lá o que nos aguarda no futuro quando todos os dados da humanidade deixarem de ser usados para o capitalismo e caírem nas mãos de autocratas.
Essa distância me fez ver o quanto de conteúdo eu coloco para dentro e obrigo meu cérebro a metabolizar. Como salgadinho viciante com pouco valor nutritivo. Nesses dias, fiz como os fenícios e li um livro em vez de olhar o celular. Foram 281 páginas lidas em uma semana. O quanto eu poderia estar usando meu tempo melhor se não estivesse tão grudada ao feed?
Acho que a experiência toda, ano após ano, me ensina a enxergar qual a dosimetria (péssimo momento para usar essa palavra) necessária para o uso do celular. Será que todo mundo pode/precisa ter acesso a mim 24 horas por dia, desde o encanador até meu chefe? Será que vou perder tanta coisa do Zeitgeist se eu desligar o telefone quando chegar em casa depois do trabalho? E se eu me sentir entediada, será que não tem 1 (um) só livro que seja melhor que o conteúdo online que eu vejo? Acho que essa é a verdadeira sabedoria das férias.
Até porque eu não quero ser manipulada por um algoritmo nesse mundo que se desenha por aí. Quero minha privacidade de volta e poder contar da minha viagem para meus amigos, sem que eles já saibam de tudo mesmo antes de eu voltar.
Dias após chegar em São Paulo, eu não tinha postado nada. Até porque não tinha tirado fotos, só algumas com uma Cybershot safada. Comecei a receber no feed o anúncio de um app que dizia: “Voltou de férias e ainda não postou nada? O app X cria um vídeo com as suas fotos para você mostrar para seus amigos como foi legal a sua viagem.”
Eu queria ser a árvore no topo da montanha.
O livro que li na montanha foi “O Ato Criativo”, do Rick Rubin, um produtor musical lendário que não curte muito ir ao barbeiro. Eu sempre via vídeos dele e seu livro em lojinhas de museu. Numa promoção da Amazon, achei por cerca de 30 reais e resolvi comprar para ler na viagem. Esse livro é uma verdadeira aula sobre como desbloquear a criatividade e criar uma obra de arte.
Ele traz insights para ajudar a reencontrar o estado puro de inocência e inspiração dentro de si, e não podia ter combinado mais com meu momento. É um livro bem interessante também para quem escreve ou compõe músicas.
“Não importa se estamos produzindo arte formal ou não. Todos nós vivemos como artistas. Pelo mero fato de estarmos vivos, já podemos nos considerar participantes ativos do processo contínuo de criação. Viver como artista é um modo de estar no mundo. É uma prática de atenção.”
Eu já tinha ouvido esse podcast há algum tempo e lembro que tinha gostado. Resolvi ouvir de novo e me senti muito inspirada pelo modo como Diane enxerga o mundo.
“Envelhecer é viver. Não é decadência.
É uma continuação da vida.
Em vez de perguntar quantos anos você tem, pergunte:
quanto você já viveu?
Isso muda tudo.”
Diane nasceu de uma mãe que tinha acabado de escapar de Auschwitz, muito frágil e que não era aconselhada a ter filho. Ela diz que isso deu uma força enorme para ela ao crescer, ela sentia que tinha de fazer acontecer, já que só de ter nascido já era uma vencedora. Ela é inventora do lendário Wrap Dress (vestido envelope) que deixa todas as mulheres bonitas por seu modo de amarrar na cintura, e envolver o decote. Ainda hoje, Diane nada no mar frequentemente, seguida por um barco. Ela conta que medita enquanto nada por mais de uma hora. Eu achei isso mais do que inspirador e se tornou um ideal de algo a conquistar também.
“The most important relationship you have in life is the one you have with yourself. Once you have that, any other relationship is a plus, not a must.”
— Diane von FurstenbergEm português:
“O relacionamento mais importante que você tem na vida é aquele que você tem consigo mesmo. Uma vez que você tem isso, qualquer outro relacionamento é um bônus, não uma obrigação.”
— Diane von Furstenberg
Esta é a minha obsessão atual. Eu já conhecia a Pamela Adlon por sua parceria com o comediante Louis CK. Por anos consumi tudo o que ele produzia pois achava engraçado, e ela teve uma participação na série Louie. Lembro de saber que ela tinha produzido uma série com o Louie, mas nunca tinha encontrado para assistir. Agora, mais de 10 anos depois, entrou no catálogo da Disney + e eu tenho assistido devagarinho para não gastar de tão boa que é.
Ela faz o papel de Sam Fox, uma atriz de 50 anos de L.A, mãe solo de três filhas. Ela é original, desencanada, exausta, tudo ao mesmo tempo. As filhas são um caso a parte, ótimas atrizes, em papeis reais, falhos, não idealizados. Esta série foi um dos primeiros trabalhos da Mikey Madison (que “roubou” o Oscar da Fernanda Torres com Anora), e eu adoro também a Hannah Alligold, a filha do meio. Elas vão crescendo conforme passam as temporadas, é bem legal.
Está muito bom esse documentário do Steve Martin na Apple TV. São duas partes, praticamente dois filmes longos, por isso demorei alguns meses para assistir. A primeira parte mostra o início da carreira de Martin, primeiro como mágico e performer nos parques da Disney, e depois inventando um tipo próprio de humor stand-up, usando o corpo e trazendo pensamentos absurdos. É claro que ele era pouco entendido pelas pessoas e passou mais de quinze anos amadurecendo seu estilo. Até que estourou, lotou estádios e se tornou o primeiro comediante mainstream, por assim dizer, por ter reunido tantas pessoas em seus shows. Foi inevitável virar ator e fazer cinema, primeiro como O Panaca (The Jerk) e depois com uma série de papeis, sendo o Pai da Noiva o mais conhecido por aqui. Sua trajetória no cinema não foi linear, e nem sempre de sucesso, foi muito criticado. Hoje, com 80 anos, diz que sua vida foi ao contrário. Não foi tão feliz na juventude, e teve a sua primeira e unica filha aos 67 anos. A edição do documentário é bem diferente, e mostra outras fases da carreira dele também, como músico de banjo, e desenhista de cartoons. Um artista realmente completo e que talvez nunca seja completamente entendido, mas continua fazendo arte mesmo assim.
E por último essa citação que tá salva na minha área de trabalho perdida faz tempo…
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