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O Substack da 300noise · Aug 13, 2026

TEMPO QUEBRADO S2E1 - ENTREVISTA COM LUA VIANA (Antropoceno, Sonhos Tomam Conta e DJ URUTAU)

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300noise · O Substack da 300noise

Embarquem conosco nessa mais nova temporada de Tempo Quebrado, podcast de entrevistas, debates e discussões da 300Noise. Caso seja novo no pedaço, esse foi um dos programas que tivemos durante a pandemia, entre 2021 e 2023.

Em novo formato e com proposta diferente, voltamos com convidados muito especiais para uma mini primeira temporada. Contamos muito com a sua ajuda para espalhar a palavra, mandar um feedback e, até mesmo, sugerir pessoas para estarem aqui com a gente.

O material sairá em primeira mão para a galera que está inscrita em nosso Substack, com direito a um material extra sobre o episódio. Depois, disponibilizaremos o áudio nas demais plataformas, certo? Por isso:

Talvez você não lembre mais disso, mas tem uns 10 anos, quando a extrema direita global começava a ganhar mais tração enquanto movimento político internacional, alguns influencers estadunidenses tentavam pregar na internet a ideia de que o conservadorismo seria a nova contracultura, um novo punk.

Como que um movimento como o punk, que é baseado na subversão dos valores conservadores, na crítica ao capitalismo e na experimentação de uma nova estética e um novo projeto político para vida da juventude poderia ser conservador? A ideia dessa “nova direita” era tentar igualar os movimentos de contracultura que marcaram a história recente e as suas ideias retrógradas.

Os últimos anos da montanha russa política do Brasil trazem para essa questão alguns pontos que são no mínimo interessantes. Em 2018 o Bolsonarismo, parte brasileira mais forte da extrema direita internacional, se propunha como um movimento de contracultura, “antissistema”.

O Bolsonaro era um político de décadas de carreira com filhos que também integravam os partidos mais corruptos do centrão? Sim! Mas a ideia de “estou contra tudo isso que tá ai, tá ok?” seguia essa mesma proposta.

A extrema direita viu uma mudança no horizonte, a juventude está insatisfeita com a política, infeliz e ansiosa em relação ao futuro, e assim isso se tornou uma oportunidade de ouro para capitalizar em cima dessa e outras tantas crises atuais.

Na verdade toda essa situação tem sido um dos grandes tópicos de discussão não só dentro da política brasileira como internacionalmente, tentando entender o que aconteceu para que a extrema direita voltasse a ganhar tanta força e o que fazer em relação as tantas crises que se aproximam da humanidade: crise do capitalismo, crise ambiental, crise da democracia liberal, crise de saúde mental.

Um dos textos mais interessantes sobre isso é justamente o capítulo 2 da versão brasileira de Realismo Capitalista de Mark Fisher: e se você organizar uma manifestação e até o patrão aparecer nela? Ou seja, a revolta vem sendo cooptada pelo capital.

O mesmo acontece na cultura e na música. O que aconteceria se um festival de música alternativa contasse também com a banda do MBL em seu lineup?

A música alternativa vem se tornando mais uma dessas trincheiras ideológicas. Ao mesmo tempo que vivemos o que talvez seja o maior crescimento de mercado do indie/rock triste é inegável que vivemos também o momento de maior alienação e individualismo dentro dessa cena.

De onde vem esse individualismo e despolitização que toma conta da música alternativa? Como a música alternativa pode se politizar novamente? Que projeto político pode nascer neste momento de crise total da humanidade?

Nosso podcast de entrevistas e ensaios voltou! Neste primeiro episódio da segunda temporada chamamos para responder essas e muitas outras perguntas recebemos Lua Viana!

Ela é a artista por trás do Antropoceno, projeto que mistura metal, música de terreiro, sons da natureza entre outras tantas referências, além de também ser a criadora da Sonhos Tomam Conta, que puxa mais para o shoegaze e o rock triste. Entre seus próximos projetos temos também uma nova face dela como DJ Urutau, focando no funk experimental misturado com sons de pássaros.

Essa conversa começou a ganhar forma quando a Lua postou um vídeo debatendo a polêmica da banda do MBL no Lollapalooza e a despolitização da música alternativa e seus espaços de cultura, um tema de fundamental importância para a cultura e a política nos próximos anos no Brasil.

Durante a conversa muitos momentos foram interessantes para se tentar pensar uma forma menos pessoal e mais materialista, objetiva, para pensar a cena da música alternativa e alguns dos dilemas que estão rondando o momento histórico e político de alienação da juventude e crescimento da extrema direita dentro dos espaços alternativos.

Um aviso que vale ter em mente desde o começo de nossa conversa é que não estamos falando sobre gostos pessoais ou de bandas específicas, mas de um movimento material que interliga o andar da história recente, ou ainda o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, e as dinâmicas culturais que se interligam a isso.

“A partir dessa consciência, que eu acho que esse que é o que eu tô tentando fazer, né? Esse esforço de conscientização mesmo, né? Pra que a gente possa entender sobre como que esse cenário se estabeleceu aqui no Brasil e por que que ele é tão facilmente captado por grupos de extrema direita, né? Não é pra julgar ninguém. Dentro de seu gosto pessoal, dentro de sua individualidade, né? É pra tentar compreender e ajudar a gente a compreender como fenômenos coletivos acontecem, sabe?”

Um dos conceitos que mais atravessou esse debate sobre a cena alternativa foi justamente o de Colonialismo cultural. Indo além no trabalho da Lua, também recomendo demais ler seus textos Colonialismo cultural e soberania nacional e O futuro ancestral como projeto estético, que apesar de não ser imprescindível para entender a entrevista, é legal para já chegar nela entendendo de onde estamos partindo na conversa.

“Nesse texto eu estava tentando traçar mesmo o histórico de como que esse fenômeno do colonialismo cultural se estabeleceu no Brasil. E todo o ponto que eu estava tentando construir é que ele foi sempre um fenômeno material. O que aconteceu através da própria forma física de distribuição da música.”

“E com isso, quero dizer rádio, TV, CD, vinil e streaming. Nesse sentido mesmo. Porque lá nos anos 60, por exemplo, os Beatles não chegavam até o O pessoal aqui no Brasil, através, sei lá, de ondas telepáticas, o pessoal ouvia os Beatles através de CDs, das rádios, da TV, através dessas tecnologias que foram impostas e colocadas pelos Estados Unidos e pela Europa para dentro do Brasil, que foram importadas para cá, quer dizer, que foram exportadas para cá. Através de produtos que a gente de fato teve contato com a cultura americana, né? Com a cultura americana, anglófona, europeia e ocidental.”

Um dos pontos mais interessantes da conversa foi justamente quando Lua interligou sua transformação pessoal da Sonhos Tomam Conta para Antropoceno com a questão geral da cena alternativa:

“Mas a parada é que você ficar falando muito sobre suas questões pessoais, sobre seus problemas pessoais de depressão, de baixa autoestima, de trauma, ficar focando muito nisso, se tornou uma tecnologia para despolitizar as pessoas. E é importante que a gente tenha isso em mente, sabe? Porque é por isso que foi tão fácil transformar o Radiohead em produto, porque esse foco excessivo na depressão, na alienação, em questões de autoestima, é uma coisa que é perfeita para ser vendida hoje em dia como uma estratégia de minar a capacidade de organização coletiva, em prol de você pegar, colocar seu fone, ficar deitado na sua cama, deprimido, sem fazer nada e aceitar a realidade como ela é, sabe?”

Espero que gostem!

MF_Vão

Referências importantes do episódio:

Read the original on 300noise.substack.com

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