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O Substack da 300noise · Aug 4, 2026

Julho em dois tempos - Newsletter #18

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300noise · O Substack da 300noise

Passamos da metade do ano e olha quanta coisa aconteceu! Nosso estúdio de comunicação desbravou terras mineiras, bares do centro e até mesmo atravessou o Atlântico!

Julho foi um mês de (mais ou menos) descanso na 300Noise, embora nosso cientista social & jornalista tenha passado duas semanas na China e retornado com um insight interessantíssimo sobre a música brasileira que estará logo abaixo.

Nesse meio do caminho, decidimos usar também o espaço da Newsletter para retomar um assunto que vem martelando nossas cucas: o medievalismo digital. Além disso, anunciamos em primeira mão nosso novo projeto (que vai sair em primeira mão pra galera do Substack)!

Kneecap continua enfrentando resistência para se apresentar na Europa. Posições políticas firmes costumam incomodar, principalmente se forem contra o genocídio cometido por Israel contra o povo palestino. No Brasil, o grupo tem data marcada para um show que nós não perderíamos por nada.

Por falar nesse assunto, o Massive Attack também passou por problemas em Singapura. Integrantes foram levados pela polícia para prestar explicações sobre, bem, seu apoio a Palestina.

A Sony, a única major que ainda não assinou contrato com a Udio, está em uma ferrenha batalha judicial pelos direitos autorais de mais de 30 mil faixas.

A Soundcloud comprou uma das principais plataformas de música independente, a Nina Protocol. Isso é bom? É ruim? Um pitaco nosso virá em breve…

China e Marrocos são países radicalmente diferentes em tudo o que se pode pensar, mas que compartilham uma visão comum acerca do que é… música brasileira. Foram dois destinos que visitei em 2026 onde constatei essa curiosa realidade.

Quando você está em uma festa casual e alguém diz: “vou botar música brasileira!” e começa uma sequência de canções que nenhum brasileiro conhece, existe um motivo para ficar muito preocupado. É uma cena, contudo, cada vez mais normal.

Durante minha estadia na China, presenciei essa cena em pelo menos duas ocasiões. No Marrocos, vi playlists com nomes do tipo “Brazilian Aura”, vi gente dançando na rua ao som do tal do phonk, com letras em português que eu nunca tinha visto na minha vida.

Excluindo o fato de que a maioria dessas músicas sequer é feita por seres humanos, uma parte substancial da música humana produzida no âmbito do phonk é criada por compositores do Leste Europeu. Ou seja: a música brasileira que viraliza no Xiaohongshu, no Douyin e no TikTok, e que povoa as playlists dos estrangeiros, não é nem brasileira. Mas, ainda assim, a nossa estética segue alimentando a formação de uma aura global.

O phonk é a transformação da rebeldia do funk em um produto palatável e esquecível, como os infinitos artistas de lo-fi que já debatemos exaustivamente aqui nesta 300Noise. O fenômeno, por si só, não traz nenhuma grande lição ao Brasil, a não ser o fato de que é importante ter consciência de nosso tamanho: meio que sem querer, conseguimos pautar a indústria global da música com um dos gêneros mais estranhos de todos os tempos.

Mas, sobretudo, mostra que nenhum gênero — nem o nosso tão brasileiro funk — está imune à massificação e ao esvaziamento de sentido no nosso capitalismo mais-que-tardio.

Buscando colocar uma exemplificação fácil, pego emprestado aqui o conceito do teflon para refletir sobre os algoritmos e a centralização da experiência virtual em sua completa terceirização. A antiaderência modificou a nossa percepção virtual.

Copilotos de inteligência artificial nos perturbam em todos os lugares. Eles foram desenhados de maneira milimétricamente calculada para que os utilizemos, mesmo que a contra gosto. Tática comportamental que me deixa ainda mais confortável para falar sobre uma internet de teflon.

O resultado dessa previsibilidade e falta de assimilação que coloca o usuário em posição de piloto automático, é a da proliferação de conteúdos sem estrutura ou intuito bem definido. Se tratando de agências publicitárias, podemos entender isso como uma quebra da coordenação de campanhas? Sim, mas também como gerenciamento de demanda repassada para agentes artificiais.

Conteúdo passivo para ser criado e consumido. A partir dessa definição, podemos passar para qualquer campo. Podemos falar sobre Doomscrolling e tempo de tela elevado, mas também podemos falar sobre o work slop e, honestamente, só teremos um real impacto desse tipo de conteúdo em nosso cotidiano a longo prazo, dependendo do grau de adequação das empresas e da estruturação desses copilotos, agentes e derivados.

Estudo da Microsoft (Work Trend Index 2025/2026) aponta que o “débito digital” (o volume de reuniões e e-mails gerados por agentes) cresceu tanto que 68% dos trabalhadores afirmam não ter tempo para foco ininterrupto.

Pelo relatório da We Are Social: Mais de 1 bilhão de pessoas usam plataformas de IA generativa mensalmente, com ChatGPT atingindo a maior parte desse número sozinho (800 milhões semanais). Quase metade dos adultos online está “empolgada” com IA, sugerindo “potencial’“ para dobrar o número de usuários, alterando comportamentos do internauta em como se pesquisa (alô, Google) e cria conteúdo.

A lógica da produtividade alterou e a própria construção da “autonomia” e tomada de decisão foi terceirizada. No âmbito da tecnologia e comunicação (lemos aqui a palavra PUBLICIDADE piscar bem forte) a forma como profissionais estão aplicando aprovações desemboca na relação do usuário x produto (ou serviço).

E essa discussão é bem mais profunda. Quer um olhar bem técnico sobre isso? Recomendamos o artigo AI Tools in Society: Impacts on Cognitive Offloading and the Future of Critical Thinking publicado pela revista Societies. Uma reflexão sobre o descarregamento cognitivo e as lacunas causadas pelo uso da ferramenta.

O contraste entre o relatório da Microsoft e o artigo da Societies está na forma de refletir sobre a dinâmica de execução de tarefas e autonomia de tomada de decisão. Ou seja, uma lógica de “gerenciar” lideranças responsáveis por agentes virtuais que cuidam da execução. A mesma ideia que surge dentro do Whatsapp através do recurso de resumir a conversa ou fazer uma busca inteligente.

Em um cenário ainda maior, temos o medievalismo digital, pautado na ideia do cyberfeudalismo. Há espaço para outras variações desse conceito? Sem dúvidas. No ano passado, nossa equipe esbarrou com um texto interessantíssimo sobre um tal “Sad Dandy” que reflete sobre o assunto com pitadas do Capital Cultural de Bordieu, embate entre Apolo e Dionísio, Mark Fisher e Nietzsche.

No que consiste o Neo Feudalismo e o Cyberfeudalismo?

Bem, por um lado ele parte do conceito de Habermas (Refeudalisierung) que problematiza a privatização das formas de comunicação e seus efeitos na “esfera pública”. Dos jornais, da crítica e do debate, às redes sociais e ao marketing.

Temos então uma nova definição hierárquica para o “feudo”. Temos o Vale do Silício e os agentes midiáticos. Temos o arrendamento de espaços para cultivo e produção de relatórios intermináveis. Temos uma lógica facilmente identificável. Se aproximando do que Yanis Varoufakis concebe como tecnofeudalismo: uma mutação do capitalismo em um sistema feudal moderno.

Essa autonomia terceirizada remete às esferas de ressonância de Sloterdijk. Nelas, o algoritmo atua como um espelho acústico, devolvendo apenas o que já sabemos e eliminando o estranhamento. Assim, surge a internet de Teflon: nada penetra, nada transforma, nada gruda.

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Esferas Vol. I: Bolhas: Volume 1

A FLIPEI chega à sua 8ª edição, ancorando ainda mais seu projeto cultural colaborativo, acessível e em disputa com a lógica de concentração dos grandes mercados editoriais. Com acesso gratuito e protagonismo das editoras independentes, a festa celebra a circulação de ideias emancipatórias como prática política insurgente em torno do livro.

A FLIPEI 2026 vai acontecer de 5 a 9 de agosto no Espaço Cultural Elza Soares, Café Colombiano, Pratododia, Sol y Sombra Bar e Central 1926.

Programação completa aqui!

Nosso podcast de entrevistas está voltando em agosto! Fique de olho, teremos diversas conversas sobre cultura, cena alternativa, música eletrônica, fim dos tempos e muito mais. Nessa nova temporada, trazemos todo o conteúdo para o Substack, em formato de texto e com material extra.

E nossa primeira convidada é…

O site Every Noise at Once é uma biblioteca de todos os estilos musicais do mundo. Bem, a ideia é mais ou menos essa. Você pode explorar coisas diferentes, nomes inusitados e integrar mais profundidade para a pesquisa através das páginas secundárias e dos principais expoentes de cada estilo em questão.

Nosso site está de cara nova e tem um apanhado de materiais nossos para download. Você pode se divertir explorando nossas pesquisas. Agradecemos ao nosso mestre dos computers G.G. pelo trabalho e esforço no projeto. www.300noise.com.br

Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem a próxima (sem spoilers).

Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.

Rincon Sapiência - Um Corpo Preto

Uma grata surpresa do gigante rapper de Itaquera. Seguindo com a sua mesma marca de flow e tipo de rima, o álbum consegue transitar sem problema entre as muitas referências e gêneros que compõem a música preta contemporânea, com transições que te prendem na audiência. Talvez o trabalho mais interessante dele.

Protest the Hero - Within

bebendo de elementos nostálgicos, Protest the Hero, entrega um disco bem pontual, entre bons momentos, alguns tropeços e letras bem afiadas.

Panda Bear & Sonic Boom - A ? of WHEN

Segundo álbum da parceria entre o baterista e produtor Panda Bear e o compositor e produtor Sonic Boom. Uma psicodelia perfeita para quem gosta de um indie eletrônico com mais “tempero”. Para os viúvos de outras fases do animal collective em especial, vale a escuta.

Charli xcx - Music, Fashion, Film

O que vem para uma carreira após algo tão impactante quanto Brat? Charli nos responde com uma ode a si mesma e a vontade de permanecer influente enquanto zeitgeist da cultura pop. Estamos falando de um disco que não foi feito para ser disruptivo, mas revelador.

Hesse Kassel - Morir Saltando

A cena chilena continua impressionando. Nessa altura do campeonato os comparativos com a windmill scene, ou com bandas como Black Country, New Road já são pura injustiça. Hesse Kassel entrega em Morir Saltando uma sonoridade muito própria, mesmo que derivada de diversas influências. E talvez essa seja a graça, o leque que está por trás desse álbum é muito diverso e certeiro. Uma experiência intensa do começo ao fim.

Strokes - Reality Awaits

Vamos com calma…

Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!

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Como faço para colaborar com a 300Noise?

R: mande sua proposta aqui mesmo, ou em nosso e-mail: 300noise@gmail.com

Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?

R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com

Onde acesso os projetos da 300noise?

R: www.300noise.com.br

Qual o próximo projeto e pesquisa de vocês?

R: Precisamos de férias!!!

Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?

R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!) Quer entender melhor o que oferecemos? Quer contratar a 300noise? Mande um email para 300noise@gmail.com

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Read the original on 300noise.substack.com

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