Nas últimas semanas, estivemos um pouco ausentes e temos conhecimento disso. Enquanto parte da nossa equipe seguia com o Além do Streaming, curso que vai até o dia 30 deste mês no Sesc Paulista, o restante do grupo se aventurava do outro lado do Atlântico.
Estivemos no Primavera Sound de Barcelona para apresentar um pouco sobre o #mundinho #300Noise e nossa pesquisa sobre pendrives musicais dos caminhoneiros. Saímos na Noize em uma matéria super legal, inclusive. Essa aventura ainda contou com chuvas e ventanias que cancelaram os headliners de um dos dias do festival, muitas papas bravas e um vindouro texto focado no evento em si.
De certa forma, esse texto tem a necessidade de ser mais pessoal. Afinal, foi após uma conversa despretensiosa com um vendedor italiano de roupas vintage que tivemos nosso primeiro contato com a música napolitana. O rapaz, que casualmente fotografa camisetas de bandas vestidas por aqueles que entram em sua loja, tratou de reforçar: “A real música italiana está em Nápoles”.
Dois dias depois, estávamos em um trem, no meio de uma greve nacional, olhando o Vesúvio crescer aos poucos pela janela do vagão, enquanto o cheiro de fritura invadia o ar.
Nápoles, a terceira maior cidade do país, e o melhor lugar do mundo para se comer, segundo TasteAtlas e parte da equipe da 300Noise. Nápoles, do grego, “cidade nova”. Um dos maiores centros históricos da Europa reconhecidos pela UNESCO. Marco zero da pizza moderna e maior concentração de Diegos Maradonas por metro quadrado do mundo.
Em Nápoles, é difícil andar um quarteirão que seja sem ouvir música. E isso não se trata apenas de uma canção soando por um aparelho, mas principalmente de vozes. Pessoas cantam o tempo todo. Ao andar pela Spaccanapoli, é fácil mergulhar em uma orquestra cacofônica, com direito a copos de Aperol de 1 euro e um rantatantan constante das motos.
É possível notar fraturas e remendos dentro de Nápoles. A cidade italiana mais bombardeada na Segunda Guerra também foi a primeira cidade europeia a expulsar tropas alemãs. O Quattro giornate di Napoli, marco na luta antifascista, aconteceu já em meio ao colapso do exército italiano pós-Armistício de Cassibile, em 1943.
Sergio Bruni, cantor referência para a música napolitana, esteve no levante popular e, anos mais tarde, criaria uma das canções mais emblemáticas sobre o acontecimento.
Mas e os violões e os bandolins?
No dia 28 de setembro de 1943,
pelo Vomero e Posillipo,
pelas Fontanelle e pela Ponte della Sanità,o acompanhamento era feito pelas metralhadoras.
E os meninos de rua cantavam:
“Vão embora!
Canalhas! Desgraçados! Vão embora!”Gritavam.
Corriam.
Atiravam.
E morriam.
Quando os Aliados chegaram, encontraram uma cidade destruída por bombardeios, sabotagens alemãs, fome e abandono. Com a ocupação estadunidense, a cidade ficou entre a miséria local e a cultura militar yankee. Com isso, a música napolitana, muito enraizada na pluralidade cultural da cidade portuária, começa a entrar em contato com o jazz, o blues e o boogie woogie.
Renato Carosone é um dos nomes que demonstram essa fusão em sua música. Figura recorrente em lojas de discos e murais dentro da cidade. O artista, ao mesmo tempo, reforçava caricaturas norte-americanas e tecia críticas ao American Way of Life. Como na canção Tu vuò fa’ l’americano, onde o personagem bebe uísque com refrigerante, dança rock and roll e joga beisebol.
Fato é que dificilmente você será impactado pela cultura estadunidense em Nápoles. Suas ruas, até hoje, têm obsessões muito mais particulares. Existe um toque místico que vai te cercar discretamente. Olhares atentos podem atestar a profunda relação da cidade com o número 13, que traz sorte, segundo a Smorfia napolitana, livro que traduz sonhos para números a serem apostados na loteria, ou tômbola.
O jogo de azar está encrustado na dinâmica da cidade. Em uma mescla entre o sonho de ascensão social, a tradução de acontecimentos em numerais e o controle de jogos clandestinos pela Camorra, há um simbolismo muito grande para apostas em cada viela da cidade.
“com o livrinho do Lotto debaixo do braço, ele se senta e lê a Smorfia”
Pudemos sentir o misticismo presente em Nápoles ao esfregar o nariz na estátua de Pulcinella, escondida na esquina da Via dei Tribunali com a Vico del Fico al Purgatorio, ou ao ganharmos cornicellos do dono de um antiquário, que parecia não vender nada que estava em sua loja. É uma cidade para esfregar a nuca de caveiras e passear em túneis subterrâneos, entre uma frittatina e uma pizza a portafoglio.
Há algo de especial ao bater pernas pelo Quartieri Spagnoli. Se as grifes tomam conta da Via Toledo, subindo apenas um quarteirão, há um reduto boêmio. Lá, entre amuletos da tômbola presos em varais, a figura das Femminielli significa boa sorte. O Maradona tem altar, a bebedeira dura até o sol raiar e, ao menos em nosso humilde relato, a música latina não para de tocar.
Em outra ampliação da conexão entre o sagrado e o profano, femminiellis se reúnem no dia 2 de fevereiro para a peregrinação e festa da Candelora (ou Candelária) no Santuário da Madonna di Montevergine, ou, para os napolitanos, Mamma Schiavona, a “Mãe dos Marginalizados” (também chamada de Gay Madonna).
A concepção de marginal é algo que também se conecta muito com Nápoles e um movimento musical que acompanhou um momento delicado para a cidade. Neapolitan Power foi um movimento cultural que surgiu entre as décadas de 60 e 70. Além de música de vanguarda e conexão com a identidade folclórica do lugar. Seja através da incorporação dos dialetos napolitanos e do resgate da tammurriata, ou das letras que retrataram a vida operária e as mazelas sociais, dos esquecidos, dos desajustados.
A década de 70 foi marcada pela desindustrialização da cidade, conflitos internos da Camorra e uma epidemia de cólera. Com um crescimento do desemprego, especulação imobiliária e superlotação de moradias, os napolitanos se apoiaram em organizações sindicais e em muita produção cultural.
Um dos principais nomes desse movimento foi Pino Daniele, artista que fundiu o blues, a rumba e a tarantella, criando o Tarumbò. Seu disco mais conhecido, Nero a metà (negro pela metade), revela um pouco do processo de miscigenação do pós-guerra e da própria mistura de ritmos musicais em seu trabalho.
No Brasil, costumamos ouvir Pino Daniele através da versão de E po’ che fa (Bem que se Quis) gravada por Maria Bethânia, ou Quanno Chiove (Quando Chove), de Patrícia Marx.
Inclusive, ao falar sobre a miscigenação em Nero a metà, Pino Daniele se referia a James Senese, filho de uma mãe italiana e um soldado afro-americano e um dos fundadores de Napoli Centrale, grupo que misturava jazz fusion, funk, rock progressivo e dialeto napolitano.
A década de 1980 reservaria outro símbolo para essa Nápoles ‘mestiça’, periférica e frequentemente estigmatizada pelos próprios italianos. Em 1984, um argentino desembarcaria na cidade para se transformar não apenas em ídolo esportivo, mas em uma espécie de santo popular. Diego Armando Maradona entrou no Napoli em um momento em que a rivalidade entre o norte rico e industrializado e o sul pobre ainda atravessava o cotidiano italiano.
Aos pés do Chiostri di San Martino, onde a vista não alcança o oceano, você encontrará o mural e o museu de Maradona. Mas a verdade é que basta olhar para qualquer canto, seja seu santinho repousando no caixa de um bar, na camiseta da seleção argentina de uma criança, ou em uma capelinha feita de madeira que protege uma esquina qualquer da Via Emanuele de Deo. Ele é uma divindade napolitana.
Talvez por isso suas homenagens não soem como homenagens esportivas. Cantos como Ho visto Maradona se aproximam mais de uma profissão de fé do que de uma música de arquibancada. A verdade é que o título que o jogador trouxe não foi tão fundamental quanto a sua relação com a cidade e suas feridas. Em uma conversa casual, tentando entender a relação de um napolitano com o craque argentino, pudemos ouvir: “Maradona foi um herói da classe trabalhadora”.
A década de 1990 marcou uma nova transformação na música napolitana. Se os artistas ligados ao Neapolitan Power haviam utilizado o jazz, o blues e o rock para dialogar com as questões sociais do pós-guerra e da crise urbana dos anos 1970, uma nova geração passou a incorporar referências vindas do reggae jamaicano, do dub e do hip hop. A cidade seguia convivendo com altas taxas de desemprego, a influência da Camorra, a chegada de novos fluxos migratórios e o fortalecimento de centros sociais e movimentos juvenis organizados.
Foi nesse cenário que surgiram grupos como o Almamegretta e o 99 Posse. Formado em 1988, o Almamegretta desenvolveu uma sonoridade marcada pela mistura entre canção napolitana, dub, música eletrônica e influências do Mediterrâneo. Por outro lado, o 99 Posse nasceu em 1991 dentro da Officina 99, um centro social ocupado de Nápoles, aproximando o dialeto napolitano do rap, do reggae e da militância antifascista.
A Officina 99 fica ao lado de onde turistas, como nós, pegam trens diariamente para visitar as praias da Costa Amalfitana e as ruínas de Pompeia; o local já foi uma oficina de manutenção ferroviária. O espaço, após sua ocupação, passou a ser um polo cultural com exibição de filmes, festivais de música e discussões políticas.
Apesar das diferenças estéticas, ambos os grupos compartilhavam algumas características presentes desde o Neapolitan Power: o uso do dialeto napolitano, o interesse pelas transformações sociais da cidade e a tentativa de construir uma identidade cultural derivada da imigração, desigualdade, periferia, trabalho precário e conflitos urbanos.
Não por acaso, o disco Animamigrante (1993), do Almamegretta, e Curre Curre Guagliò (1993), do 99 Posse, tornaram-se referências de uma geração que enxergava Nápoles não apenas como herdeira de uma tradição local, mas também como uma cidade portuária conectada aos fluxos culturais do Mediterrâneo, da África, do Caribe e do restante da Europa.
Curiosamente, o Neapolitan Power chegou até os ouvidos da 300Noise, não pelas bandas dessa época, mas por uma continuidade e uma reconstrução desse movimento. Entre scrolladas infinitas em busca de novidades musicais, nossa equipe se deparou com um grupo que estava trazendo uma nova efervescência para a cena napolitana. Nu Genea surgiu em nosso radar como uma referência para a New Neapolitan Power.
Mais focada em sintetizadores e uma fusão com funk e disco music, a cena atual acompanhou também o lançamento da coletânea Napoli Segreta, que conta com a curadoria do coletivo sobre a cena de disco funk napolitana da década de 70 e 80.
Há uma explicação muito simples para o desgosto das pessoas por Nápoles, e há uma magia grandiosa em pisar naquela que é tida por muitos europeus como “a pior cidade da Europa”. É difícil se colocar dentro do emaranhado napolitano e enxergar a beleza em sua peculiar desordem. Para nós, um bando de paulistas no litoral mediterrâneo, a cidade não poderia ser mais calorosa e acolhedora. Imagine então para um carioca?
Em Spaccanapoli, é possível reparar em uma faixa fixada ao lado da igreja de Gesú Nuovo, entre bandeirolas do Maradona e bilhetes de loteria: “Quando você vai a Nápoles, você chora duas vezes: quando você chega e quando você sai”. Certamente quem a escreveu sabia muito...
Camorra: Organização criminosa de origem mafiosa originária da região da Campânia, no sul da Itália, com forte atuação na cidade de Nápoles. Envolve-se em atividades ilegais como tráfico de drogas, extorsão, contrabando e controle de jogos de azar.
Cornicello: Amuleto tradicional italiano, em formato de pimenta vermelha ou chifre, utilizado para afastar o mau-olhado e atrair boa sorte.
Femminielli: Termo napolitano que designa pessoas designadas homens ao nascer que adotam expressão e papéis de gênero femininos. Na cultura popular de Nápoles, são tradicionalmente associadas à boa sorte.
Frittatina: Prato da culinária napolitana consistente em uma porção individual de macarrão (geralmente bucatini ou ziti) misturado com ovos, queijo, ragù e ervilhas, empanada e frita.
Neapolitan Power: Movimento musical e cultural surgido em Nápoles entre as décadas de 1960 e 1970, caracterizado pela fusão de ritmos tradicionais locais com rock, jazz e blues, e por letras de cunho social.
New Neapolitan Power: Designação atribuída pela crítica musical à cena contemporânea de Nápoles que resgata a herança do Neapolitan Power, incorporando influências de funk, disco e música eletrônica.
Pizza a portafoglio: Variedade de pizza napolitana de massa fina, dobrada em quatro partes para ser consumida com as mãos, tradicionalmente vendida em barracas de rua. O nome refere-se ao formato de carteira.
Pulcinella: Personagem da commedia dell’arte originário de Nápoles, caracterizado por máscara preta, roupas brancas e comportamento astuto e cômico. É considerado o símbolo do folclore napolitano.
Quartieri Spagnoli: Bairro histórico e popular de Nápoles, localizado no centro da cidade, conhecido por sua arquitetura densa, vida noturna e forte identidade cultural local.
Quattro giornate di Napoli: Insurreição popular ocorrida em Nápoles entre 27 e 30 de setembro de 1943, na qual a população local expulsou as tropas de ocupação alemãs antes da chegada dos Aliados.
Smorfia napolitana: Tradição e sistema de interpretação de sonhos e acontecimentos do cotidiano para a obtenção de números a serem apostados no jogo de loteria italiano, o Lotto.
Spaccanapoli: Conjunto de vias estreitas e retilíneas que atravessam o centro histórico de Nápoles no sentido leste-oeste, dividindo a cidade em duas partes.
Tammurriata: Dança e canto tradicional da região da Campânia, na Itália, executada ao som do tammorra, um grande pandeiro de armação, geralmente em contextos de festas religiosas ou populares.
Tarumbò: Estilo musical desenvolvido pelo cantor italiano Pino Daniele, resultante da fusão da tarantella napolitana com o blues e o rhythm and blues.
24 Grana: Banda formada em Nápoles em 1993, uma das pioneiras do rap e rock alternativo em dialeto napolitano. Manteve forte ligação com os centros sociais e a cena underground italiana dos anos 1990.
99 Posse: Grupo formado em 1991 no interior do centro social Officina 99, em Nápoles. Pioneiros na fusão de rap, reggae, dub e eletrônica com militância antifascista e letras em dialeto napolitano. O álbum Curre Curre Guagliò (1993) tornou-se marco da música italiana engajada.
Almamegretta: Banda formada em Nápoles em 1988, referência na mistura de canção napolitana com dub, eletrônica e sonoridades do Mediterrâneo e do Oriente Médio. O álbum Animamigrante (1993) é considerado um dos discos fundamentais da música italiana dos anos 1990.
Bisca: Projeto liderado por Alfredo Musella, ex-integrante do 99 Posse. Combina reggae, dub, rap e tradição napolitana, mantendo o caráter político e o uso do dialeto local.
Città Frontale: Coletivo artístico e musical ativo em Nápoles entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970. Ligado ao teatro-canção e à experimentação, misturava folk, rock progressivo e engajamento social.
Co’Sang: Duo de rap napolitano formado por Poeta e Ntò, ativo entre 2003 e 2010. Considerado um dos grupos mais influentes do hip-hop italiano, com letras que retratam a vida nas periferias de Nápoles.
Foja: Banda formada em Nápoles em 2005, liderada por Dario Sansone. Mistura rock, folk e tradição napolitana, sendo um dos nomes mais relevantes da cena autoral contemporânea da cidade.
La Paranza: Grupo napolitano ativo desde os anos 1990, dedicado à fusão de reggae, dub e ritmos tradicionais do sul da Itália, com forte presença ao vivo e letras em dialeto.
Liberato: Projeto musical anônimo lançado em 2017, que mistura música napolitana tradicional, pop, eletrônica e ritmos mediterrâneos. Tornou-se fenômeno internacional sem jamais revelar sua identidade.
Mammamaria: Banda contemporânea que combina tarantella, world music e eletrônica. Representa a nova geração de artistas que resgatam tradições do sul da Itália com sonoridade moderna.
Musicanova: Grupo fundado por Eugenio Bennato e Carlo D’Angiò nos anos 1970, responsável pelo resgate e reinvenção da música popular do sul da Itália, misturando folk tradicional com arranjos progressivos.
Napoli Centrale: Banda liderada por James Senese nos anos 1970, peça fundamental do movimento Neapolitan Power. Combinava jazz fusion, funk, rock progressivo e dialeto napolitano, com letras voltadas às questões sociais da cidade.
Nu Genea: Duo formado em Nápoles por Lucio Aquilina e Massimo Di Lena. Responsáveis pelo renascimento da música napolitana contemporânea, misturando funk, disco, jazz e tradição local. Curadores da coletânea Napoli Segreta.
Nuova Compagnia di Canto Popolare: Grupo fundado em Nápoles em 1970, dedicado ao estudo e à releitura da música tradicional da Campânia e do sul da Itália. Um dos pilares do folk revival italiano.
Osanna: Banda de rock progressivo formada em Nápoles em 1970. Um dos grupos mais importantes do prog italiano, com o álbum Palepoli (1972) combinando rock, jazz e elementos da tradição napolitana.
Showmen: Banda beat ativa nos anos 1960, pioneira na mistura de rock internacional com melodias e letras em napolitano. Influenciou diretamente a geração que viria a formar o Neapolitan Power.
Zeo: Projeto da cantora e produtora napolitana Zoe Pia, que mistura jazz, eletrônica e tradição napolitana. Um dos nomes mais destacados da nova cena experimental da cidade.
Napoli Segreta: Coletivo e projeto de curadoria musical dedicado ao resgate da cena disco, funk e boogie napolitana das décadas de 1970 e 1980, responsável pela coletânea homônima que repercutiu internacionalmente.
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