CONTO AUTOBIOGRAFICO 01: QUE FOLHINHA É ESSA?
Uma das poucas coisas que gosto em morar onde moramos hoje é que aqui temos acesso livre a hortaliças frescas. Tanto quanto pudermos comer!
Explico: há alguns anos alugamos parte do nosso terreno para um habilidoso horticultor e, como parte do acordo de locação, recebemos quantas verduras quisermos para consumo próprio. Sem qualquer custo ou abatimento nas mensalidades. Diariamente, nossa mesa é enriquecida com alfaces, couves, rúcula, cebolinha, coentro, salsa, pimentas de variados tipos e, em determinada época do ano, tomates frescos. A variedade é mais ou menos essa aí mesmo. Salvo uma ou outra experiência esporádica, o Homem da Horta sempre planta a mesma lista de vegetais repetidamente. Semana após semana.
Isso não é uma reclamação — pelo amor de Deus! — é apenas um dado importante em minha defesa e pra que você entenda por que a coisa aconteceu como aconteceu.
—
Ontem, pouco antes do almoço, a pedido da minha esposa, fui à horta buscar condimentos para um frango ao molho que ela preparava. A encomenda foi o que chamamos aqui de cheiro-verde: cebolinha, coentro, salsa. Se encontrasse pimenta-de-cheiro, seria bem-vinda também.
Cheguei na porta da principal das três estufas e acenei para o proprietário, que atendia um cliente.
Ele acenou de volta.
Com o passar do tempo, e com a rotina, ganhei a liberdade de entrar e colher, eu mesmo, o que julgasse necessário, sem ter que ocupar a ele ou um dos seus funcionários.
Primeiro, fui na área das cebolinhas.
Enquanto tirava cada folhinha cuidadosamente, pensei nesse leve desconforto que ainda sinto em vir aqui, pegar o que quiser e sair sem pagar. Não que nosso inquilino já tenha demonstrado descontentamento quanto a isso ou quanto ao acordo inicial. Nada disso! Mas ainda não fico muito à vontade em entrar aqui e sair com sacolinhas cheias sem entregar algum dinheiro em troca.
Levantei com algumas cebolinhas na mão e fui para o canteiro das salsas. Foi quando, na leira ao lado, notei um tipo de folhagem que ainda não tinha visto por aqui.
Eram ramos pequenos, esparsos, os talinhos lembravam coentro, mas com folhas diferentes. Peguei uma folhinha e levei ao nariz.
— Hum, o cheiro é bom!
Pareceu familiar, mas não consegui lembrar que condimento era.
— Vou levar um pouco disso também.
Fui arrancando um ramo atrás do outro e — pensei nisso depois e ainda não sei dizer por quê — o cheiro pareceu mais intenso e gostoso. Acho que fiquei meio empolgado.
Continuei arrancando e enchendo minhas mãos com essa erva aromática que não sei o nome, mas que certamente reconheço o cheiro.
— Isso aqui, picadinho no frango, vai ficar uma delícia.
Aí o Homem da Horta, que tinha terminado de despachar o cliente, entrou na estufa. Eu o vejo e, até empolgado pela novidade, deixo a leira e vou ao encontro dele com as duas mãos cheias daquilo.
— Oi, eu peguei um pouco disso aqui.
Ele olhou para os ramos na minha mão. Olhou para o canteiro por cima dos meus ombros. Olhei também e percebi que talvez tenha me empolgado demais. Talvez tenha arrancado mais do que precisaria pro almoço... para os almoços de toda uma semana.
Acho que desmatei quase a metade do canteiro. Minha empolgação baixou um pouco.
Perguntei:
— Gostei do cheiro. O que é?
— Você é doido?
— Hã?
— Isso são mudas de cenoura. Eu acabei de plantar.
Provavelmente ficaremos sem hortaliças por um tempo.
Isso aconteceu, e foi originalmente escrito, em 2017. Abaixo, uma foto real da estufa que fiquei proibido de frequentar por meses.
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