A carta traduzida abaixo é uma resposta do seu pai quando Lewis Carroll pediu, de presente de aniversário de sete anos, “uma lixa, uma chave de fenda e um anel”. O pai estava viajando a trabalho pelo interior da Inglaterra, como de costume. E seus onze filhos o esperavam em casa, sonhando com o que ele traria de interessante na mala.
Tendo pedido uma lixa, uma chave de fenda e um anel — um pedido normal para qualquer criança adulta por dentro — o pequeníssimo Lewis Carroll recebeu, pelo contrário, isto. Uma carta escrita por um adulto meio criança por dentro. Normal:
Assim que eu chegar em Leeds, vou berrar no meio da rua, FERREIROS, FERREIROS. Seiscentos homens sairão correndo de suas oficinas — voando em todas as direções —, tocando sinos, gritando para a polícia, atando fogo na cidade. Eu EXIJO uma lixa, uma chave de fenda e um anel, e se não me trouxerem essas três coisas imediatamente, em menos de quarenta segundos, o único ser que vai continuar respirando nessa cidade será um gatinho — que só não terei matado por falta de tempo. Que choradeira boa que vai ser! Todo mundo arrancando os cabelos. Os bebês e os porquinhos, os camelos e as borboletas, todos vão rolar sarjeta abaixo — as velhas escapulindo pela chaminé, seguidas das vacas, os patos se escondendo nas xícaras de café, os gansos gordos tentando caber em bolsinhas. Até que finalmente o prefeito de Leeds será encontrado num prato de sopa, todo empapado de creme, completamente coberto de amêndoas, tentando se passar por um bolinho para escapar da terrível destruição da cidade! Ai! Onde está minha mulher? Ora, está perfeitamente segura escondida dentro do próprio alfineteiro — e até colou um emplastro nas costas para disfarçar a corcunda. E seus filhinhos queridos — os setenta e oito coitadinhos e indefesos —, ela os enfiou na boca e guardou atrás da dentadura.
Na adolescência, Charles Lutwidge Dodgson — era esse, afinal, o nome por trás do pseudônimo Lewis Carroll, que só nasceria quando nascesse a personagem Alice — foi estudar num colégio interno, longe da família.
De lá, para afugentar a solidão e o tédio, criou uma revista com o propósito de entreter os irmãos, quando voltasse para casa nas férias. Escreveu todas as matérias, ilustrou-as, experimentou com pseudônimos variados — embora nunca quisesse enganar ninguém com isso, mas sim divertir os outros e a si próprio, saindo um pouco da própria identidade.
Na capa, desenhou essa figura andrógina, de rosto sem contorno e sapatos de elfo. Vale a pena ler o que está escrito na imagem: as criaturinhas benéficas que voam por baixo do guarda-chuva são “alegria”, “contentamento”, “ânimo", “conhecimento”, “bom gosto”, “bom humor”; já os demoniozinhos de cabelo desgrenhados no alto são “tristeza”, “rancor”, “tédio”, “mau humor” e, o melhor de todos, “alloverisness”, algo como “estar-em-toda-parte”, essa sensação de dispersão sem sentido, de um estar-à-toa ruim (totalmente diferente do estar-à-toa bom).
A criatura se protege dessas pedradas com seu guarda-chuva, que, como dissemos, é mágico. O que ele representa? “piadas”, “adivinhas”, “diversão”, “poesia”, “contos”.
O caos criativo do pai veio dar nisso: é um caos de linhagem. Mas a sensibilidade de Carroll parece ser mais delicada. Num dos textos mais longos que escreveu para a revista, perguntava: “Onde termina a terça-feira quando ela se transforma na quarta?”.
Onde, afinal, o dia muda de nome quando corre em torno da Terra? Onde ele perde a identidade? […] não existe nada que separe um dia do outro, e o mesmo vale para as semanas, os meses etc., de modo que deveríamos dizer que “a Batalha de Waterloo aconteceu hoje, cerca de dois milhões de horas atrás”.
A pergunta tem um fundo melancólico e, se levada ao limite, é mais desesperadora do que a cena da chacina doida inventada pelo pai. Anos depois, Lewis Carroll iria muitas vezes capturar sua personagem, Alice, triste demais diante de grandes perguntas abstratas, dessas que não dá para responder. Aliás, a “maravilha” do País das Maravilhas, não é maravilhosa: no inglês do finalzinho do século 19, “wonder” nem sempre é algo bom, mas sim desconcertante.
Toda vez que acaba sem resposta no país das maravilhas, Alice olha para o nada e guarda silêncio — que só não é constrangedor para ela e os outros personagens à sua volta porque uma criança de sete anos não percebe que as outras pessoas continuam existindo enquanto ela sumiu para dentro de si mesma para pensar.
[Alice] Ficou um pouco agitada. “Porque posso acabar sumindo, sabe? Igual a chama de uma vela. E então como eu seria?” E ela tentou imaginar que cara tem a chama de uma vela depois que a vela é apagada […].
O país das maravilhas, Antônio Cícero
Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
De A cidade e os livros (2002), reimpresso em Fullgás: poesia reunida
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23 de maio | Vamos para um segundo encontro sobre essa peça, porque um foi muito, muito pouco. A gravação do primeiro está online, aqui:
Gravação do encontro de 18/04
·
Apr 18
Primeiro encontro sobre Rei Lear, de Shakespeare — primeiro, porque decidimos, no calor da hora, que um só encontro seria pouco. No sábado, 23/05, vamos voltar a essa peça. Os ensaios do Montaigne ficarão para o encontro de junho.
Rei Lear, William Shakespeare. Recomendamos algumas traduções:
Editora 34, Trad. Rodrigo Lacerda
Companhia das Letras, Lawrence Flores Pereira
Editora Peixoto Neto, Carlos Alberto Nunes
junho: férias. Não haverá encontro. O que dá tempo de sobra para se preparar para…
25 de julho | Em sua mesa, havia uma balancinha com a placa que dizia: “O que sei eu?”. O pensador do pensamento, ensaiador dos ensaios, o homem que um dia decidiu que era possível escrever sobre tudo, e assim o fez:
Ensaios, Michel de Montaigne. Recomendamos algumas traduções:
Editora 34, Trad. Sérgio Milliet
Companhia das Letras, Rosa Freire Aguiar
Recomendamos a leitura, sobretudo, dos seguintes ensaios: “Que filosofar é aprender a morrer”, “Sobre os canibais”, “Sobre a solidão”, “Sobre a inconstância de nossas ações”, “Sobre os coxos”, “Sobre a experiência”.
29 de agosto | Kwaidan, Lafcadio Hearn. Editora Fósforo, trad. Sofia Nestrovski
26 de setembro | Meninas, Liudmila Ulítskaia. Editora 34, trad. Irineu Franco Perpétuo.
31 de outubro | A obra-prima ignorada, Honoré de Balzac. Antofágica, trad. Leda Cartum
28 de novembro | Imagens imóveis, Janet Malcolm. Companhia das Letras, trad. Paulo Henriques Britto
12 de dezembro | Os anéis de Saturno, W. G. Sebald. Companhia das Letras, trad. José Marcos Mariani de Macedo.
Os encontros ficam gravados aqui (só para assinantes).
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