Chegando num braço do rio Orinoco que desagua no Rio Negro, depois de 36 dias viajando pela floresta amazônica, Alexander von Humboldt está maravilhado. Ele se deita na beira do rio ao lado de um soldado, que passou sua vida toda nas missões do Alto Orinoco. Estamos – é bom lembrar – não só na Amazônia venezuelana, mas também no século 18, já beirando o 19. E o soldado também está maravilhado; no caso dele, por poder conversar com um homem conhecedor de coisas a que ele, vivendo ali no meio da floresta, não tem acesso. O soldado pergunta, como se Humboldt soubesse tudo o que é possível saber: qual o tamanho das estrelas? Quem são os habitantes da Lua?
Humboldt explica que sabe tanto quanto ele sobre esses assuntos: nada.
O soldado, então, responde por ele:
— Acho que não há nada lá em cima que você não teria encontrado aqui embaixo. Acho que vejo nas estrelas, como aqui, uma planície coberta de grama alta e uma floresta cortada por um rio.
Se, na nossa pesquisa para a segunda temporada do Vinte mil léguas, a Lua já começou a aparecer um pouco mais, no olhar de um soldado venezuelano ou na imaginação de um missionário jesuíta, ou numa cratera com o nome de Humboldt, na terceira temporada ela ganhou papel de protagonista: virou estampa de sacola e de um pôster que brilha no escuro. Galileu Galilei vive no mundo da Lua – e junto com ele, a gente foi transportada para lá. Lemos, com ele, a primeira descrição detalhada da Lua vista de perto com o telescópio, cheia de picos, promontórios e vales; com o Kepler, seu contemporâneo do Império Austro-Húngaro, sonhamos com uma viagem à Lua, e de lá pudemos ver o planeta Terra encher e minguar; descobrimos que é na Lua que vão parar muitas das coisas que a gente perdeu aqui na Terra, como diz Ludovico Ariosto em Orlando Furioso.
Esta é uma newsletter com uma seleção de trechos lunares de episódios do Vinte mil léguas.
Um sonho científico-fabuloso
Johannes Kepler sonha com uma viagem para a Lua. Ele escreve um pequeno livro em latim chamado Somnium, que quer dizer "sonho" – e é de fato um sonho, que foi descrito como "estranho e bizarro" numa carta que apresentou o livro a Galileu… um livro que, se eu tivesse que chutar, diria que ele não leu.
Somnium é uma obra de ficção científica, no sentido pleno desses dois termos: é ficção e é uma investigação científica – mas ninguém tinha inventado um nome pra esse gênero ainda. O livro começa com um homem que, depois de olhar numa noite por muito tempo as estrelas e a Lua, vai para a cama e cai num sono profundo. E ele sonha que está lendo um livro, e esse livro de dentro do sonho conta uma história e é com essa história que o homem então passa a sonhar. E ele sonha que é um islandês chamado Duracotus, filho de uma bruxa que conhece os segredos da natureza e comunga com demônios. Duracotus estuda astronomia com afinco e vive muitas aventuras, sempre de olho nos céus. Até que, com um feitiço preparado pela mãe, ele é catapultado da Terra até a Lua. E, de lá do alto, ele olha para a Terra.
E a Terra, vista ali da Lua, aumenta e diminui, cresce e míngua, e se move, gira. A vista da Terra é um dos mais belos pontos turísticos da Lua: de lá, o contorno da Espanha parece o rosto de uma menina que se abaixa para beijar um outro rosto que é a Argélia; a Itália e a Inglaterra são braços; e a Escandinávia é um gato prestes a dar um pulo.
Esse sonho do Kepler é a maneira que ele encontra para argumentar sobre o movimento da Terra. Desde a juventude, quando ele ainda estava na universidade, já atazanava seus professores perguntando como é que os fenômenos celestes apareceriam para alguém que estivesse olhando para eles não da Terra, mas da Lua. Quem vive na Terra não vê, não ouve nem sente esse movimento, mesmo que seja muito rápido. Mas Kepler imaginava: de fora daqui, daria para ver a Terra atravessando o céu, assim como daqui a gente pode ver a Lua fazendo isso.
Episódio 10, temporada 3 – Nada se vê
Um duque na Lua
É na lua que vão parar as muitas coisas que a gente perdeu aqui na Terra; é para lá que viaja o duque Astolfo, personagem de Orlando Furioso, um livro do começo do século 16 escrito por Ludovico Ariosto. O duque Astolfo viaja para a Lua numa carruagem puxada por quatro cavalos alados para cumprir uma missão.
Lá pelas tantas nessa história, o Orlando, que dá título ao livro, enlouquece, fica doido e furioso. O duque Astolfo, seu bom amigo, decide ir à Lua para ajudá-lo a recuperar sua sanidade, porque é na Lua que vão parar todas as coisas que a gente perde na Terra – inclusive a razão. Nesse livro, escrito décadas antes de Galileu apontar seu telescópio pros céus, a Lua é descrita como sendo idêntica à Terra: chegando lá, o duque encontra rios, montanhas, cidades com casas e até repartições públicas. Da Lua, ele vê a Terra e percebe também que ela é como a Lua quando vista por nós. Mas a diferença é que na Terra você perde as coisas; e, na Lua, você encontra. Lá, numa grande pilha de coisas perdidas, está a fama que já passou; ao lado, estão as rezas feitas da boca pra fora, e em seguida as promessas quebradas; também estão as horas desperdiçadas e os livros que a gente leu com pressa, sem aproveitar a leitura; estão nessa pilha os planos que a gente poderia ter levado a cabo, mas não levou; e também os elogios vazios, de bajulação, e os gestos de caridade que foram sendo adiados e adiados até que nunca foram feitos. O duque Astolfo vê as próprias memórias, mas só de relance – porque as memórias mudam de forma e escapam quando a gente tenta agarrá-las. A única coisa que ele não encontra na lua é a loucura, porque essa vive muito bem aqui com a gente.
Então, depois de avaliar todo esse estoque, o duque encontra finalmente o que ele buscava: a sanidade de seu amigo Orlando. É um líquido ralo, que fica dentro de um frasco de vidro tampado para não evaporar. No minuto seguinte, o duque Astolfo toma um susto: ele vê que tem ali um frasco com o nome dele. Ele também tinha perdido um bom tanto da própria razão, e o pior: nem tinha se dado conta. Então ele inala sua razão de volta e percebe que ali estão as sanidades de muitas pessoas conhecidas e consideradas sãs: principalmente os filósofos e poetas estão bem representados. No caminho de volta pra Terra, com o frasco de seu amigo Orlando debaixo do braço, ele resume: de modo geral, todo mundo é mais ou menos louco, e endoidece porque dá valor demais a uma só coisa, em vez de perceber que o que mais vale é a soma de todas as coisas que compõem a vida.
Episódio 3, temporada 3 – Um universo policêntrico
Uma Lua acidentada
Galileu Galilei, em seu livro Sidereus nuncius (1610):
[...] não quero de maneira nenhuma passar em silêncio um fato digno de atenção, que observei quando a Lua avançava para a primeira quadratura [...]. Um enorme golfo tenebroso situado para o lado do corno inferior, insinua-se na parte luminosa.
Tendo observado durante muito tempo este golfo sombreado e vendo-o todo mergulhado na escuridão, finalmente, passadas cerca de duas horas, começou a despontar uma espécie de cume luminoso [...]. Crescendo pouco a pouco, apresentava uma forma triangular e estava ainda completamente separado e desligado da zona luminosa. Logo depois, começaram a brilhar em torno dele três outras pequenas pontas, até que, quando a Lua tendia já para o ocaso, essa figura triangular estendeu-se e ampliou-se, para finamente se unir ao resto da parte luminosa e, como um enorme promontório, sempre rodeada dos três picos brilhantes já mencionados, irrompeu no golfo escuro.
Golfos, cumes, pontas, promontórios, picos. A superfície da lua descrita por Galileu não é lisa, não é imaculada, não é uma pérola: ela é toda acidentada, assim como a Terra. Ela é cheia de manchas escuras e vastas. Galileu descreve essa superfície e imagina que a face escura, aquilo que ele não pode ver, também tem essas mesmas características. E ele diz que, juntando observação com um pouco de imaginação, qualquer pessoa é capaz de compreender – abre aspas –,”com a certeza dos sentidos” – fecha aspas –, que a lua não é o que imaginavam.
Episódio 2, temporada 3 – Mensageiro das estrelas
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Vamos sempre conversar a partir de um ou mais livros, e estes são os próximos:
29 de agosto | Kwaidan, Lafcadio Hearn. Editora Fósforo, trad. Sofia Nestrovski.
Um livro de contos e ensaios sobre fantasmas, mosquitos, goblins, formigas e personagens metade perdidos nas nossas memórias da infância. Lafcadio Hearn foi um greco-irlandês sem pátria nem família, que buscou pertencimento nos lugares onde era objetivamente um estranho: em meio à cultura creole do sul dos Estados Unidos, numa ilha da Martinica, e no Japão, onde recebeu um novo nome, Yakumo Koizumi, e finalmente descansou.
26 de setembro | Meninas, Liudmila Ulítskaia. Editora 34, trad. Irineu Franco Perpétuo
Seis contos engraçados, tristes, maldosos, delicados e espertos numa Rússia que poderia ser qualquer lugar no mundo — porque o verdadeiro território deste livro é a infância —, mas que é ao mesmo tempo uma Rússia russíssima, soviética, pesadona.
31 de outubro | A obra-prima ignorada, Honoré de Balzac. Antofágica, trad. Leda Cartum
28 de novembro | Imagens imóveis, Janet Malcolm. Companhia das Letras, trad. Paulo Henriques Britto
12 de dezembro | Os anéis de Saturno, W. G. Sebald. Companhia das Letras, trad. José Marcos Mariani de Macedo
Os encontros ficam gravados aqui (só para assinantes).
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