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Vamos Escrever de FUm · Oct 6, 2024

Especialistas em asfalto

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Vamos Falar de FUm 🏁🎙🔊 · Vamos Escrever de FUm

O asfalto é uma das superfícies que compõe o WRC e que tradicionalmente exige uma condução precisa, com trajetórias mais limpas e travagem tardia em relação às restantes.

Quando comecei a acompanhar o campeonato no início do milénio, era comum as equipas terem pilotos especialistas em asfalto e que participavam frequentemente nestas provas para aumentar as chances de marcarem mais pontos no Campeonato de Construtores. Vêm-me à memória o Gilles Panizzi, Philippe Bugalski e François Duval – uns mais bem-sucedidos que outros, claro.

Gilles Panizzi - Rallye Catalunya 2002 [Foto: Getty Images]

Ao longo das épocas, o recurso a terceiros pilotos orientados a resultados em provas específicas foi oscilando, tendo diminuído nas épocas da mudança de década e regressado em força em 2018 com o antigo diretor de equipa da Hyundai, Andrea Adamo, quando Hayden Paddon e Dani Sordo partilham o terceiro carro. Em 2019, a tendência agrava-se com Sebastien Loeb, Craig Breen e Andreas Mikkelsen a fazerem temporadas parciais. A estratégia funcionou, resultando na marca sul coreana a conquistar o tão desejado Campeonato de Construtores pela primeira vez.

Desde então, devido também ao menor número de carros inscritos por equipa, a rotação de pilotos no terceiro carro é bastante comum e é uma “moda” ter pilotos a tempo parcial. Na presente época, apenas cinco pilotos parecem estar a caminho de fazer a temporada completa – mas parece que podem ter os dias contados, com a Hyundai, alegadamente, a considerar ter três pilotos a tempo inteiro na próxima época devido aos resultados medíocres e falta de ritmo que os seus pilotos a tempo parcial apresentam. Será que os especialistas em asfalto estão extintos e não fazem a diferença nos tempos que correm?

Para responder a esta pergunta, compilei e analisei os dados de todas as classificativas das provas de asfalto realizadas desde 2021: Monte Carlo, Croácia, Catalunha, Ypres, Europa Central e Japão. Um total de dezasseis provas, que engloba o final da geração anterior dos WRC e o início da atual com os Rally1.

Para cada prova, compilei os segundos por quilómetro de classificativa que os pilotos perderam para o tempo mais rápido. Sabendo quantos segundos cada piloto perdeu para o tempo ideal de cada prova, conseguimos analisar com mais detalhe o desempenho dos pilotos e diluir possíveis problemas que estes tenham encontrado. Um exemplo prático é a prestação do Thierry Neuville na Croácia em 2022 – o piloto terminou a prova a dois minutos e vinte e um segundos do vencedor, mas acumulou um total de dois minutos de penalizações por situações fora das classificativas. Neste caso, considerar apenas o resultado como métrica de desempenho é demasiado redutor.

Considerei também a percentagem média de classificativas que cada piloto concluiu, que é atualmente um dado menos relevante do que quando comecei a acompanhar o WRC há duas décadas, dado o sistema de pontuação atual e a adição do super-rally, mas ainda assim achei pertinente para a análise.

Como forma a tornar a análise mais fidedigna, foram retirados os pilotos que fizeram menos de cinco provas, por não considerar que tenham uma amostra suficientemente diversa para serem. Inclui pilotos como Sébastien Loeb, Teemu Suninen, Nil Solans, Andreas Mikkelsen, Grégoire Munster e Jourdan Serderidis.

Tabela com dados recolhidos

Algo que sobressai logo nestes dados é o impacto da nacionalidade dos pilotos. Os pilotos que crescem a correr no centro e sul da Europa, participam em provas de asfalto com mais regularidade do que os pilotos que crescem no norte, na zona da Escandinávia e Báltico. Claro que esta tendência inverte se formos analisar provas rápidas de terra ou na neve. Dito isto, não é com grande surpresa que verificamos que nos quatros primeiros temos pilotos da Europa central, do sul e da Grã-Bretanha. 

O primeiro a realçar é o Sebastien Ogier. Não só foi o piloto que mais perto se encontrou do tempo ideal, como foi o único que completou a totalidade das classificativas. Não é por acaso que é considerado um dos melhores de todos os tempos com a consistência e a fiabilidade que apresenta.

O Thierry Neuville ser segundo nesta lista, não é algo que me surpreenda. Talvez não esperasse que estivesse quase ao nível do Sebastien Ogier, contudo, também há algo que o separa dos melhores e dos campeões, que são os erros que comete. Não tem a mesma fiabilidade, e os acidentes, por culpa própria, na Croácia em 2023 e Ypres em 2022, mancham este registo. Num momento em que duas provas de asfalto o separam da possibilidade de conquistar o seu primeiro título, isto é um fator a ter em conta porque nem o maior fã do piloto belga, estará plenamente confiante que este não errará.

Os quatro pilotos seguintes surpreendem-me pela distância a que estão dos dois primeiros. Considerando que cada prova do WRC tem regularmente trezentos quilómetros de distância ao cronómetro, cada décimo de segundo por quilómetro equivale a trinta segundos no final da prova.

Não considerava o Elfyn Evans um piloto tão acima da média em asfalto e, muito provavelmente estou a ser influenciado negativamente pela sua queda de forma desde a introdução dos Rally1. É um dos pilotos a ter em conta todos os fins de semana porque muitas vezes quando a velocidade não está presente, aparece a sua consistência e persistência. Daí ter o segundo melhor registo nas classificativas terminadas e, à data que escrevo isto, ainda se encontra na luta pelo título de campeão do mundo.

O Dani Sordo sempre foi um dos pilotos com boas prestações em asfalto. Mas a sua reputação como piloto de equipa e certeiro acaba manchada por duas desistências no Rally do Japão em anos consecutivos.

O Kalle Rovanperä e o Ott Tänak, sem grande surpresa, não são tão competitivos neste tipo de superfície, ainda que não os impeça de conquistarem excelentes resultados. O Kalle teve em 2022 o melhor rendimento em provas de asfalto, onde conseguiu uma vitória na Croácia, que até ao momento é a sua única em asfalto. Nas restantes épocas, não tem deslumbrado de todo. O Ott Tänak já possui mais vitórias em asfalto, quatro das vinte vitórias na carreira, sendo que três delas foram na Alemanha com o Toyota Yaris. Penso que podemos afirmar que esta dupla é especialista em terra.

Olhando para os seis primeiros da lista, visto que os restantes se encontram demasiado longe, podemos afirmar que os especialistas em asfalto são efetivamente uma espécie de pilotos extinta. Os pilotos atualmente parecem ser mais versáteis e capazes de ser competitivos em todas as superfícies, tanto que podemos ver no histórico de cada um que as vitórias e pódios em asfalto estão longe de ser a maioria, ou se quer próximos de ser metade. A contínua profissionalização da categoria, e as poucas vagas existentes no pelotão atual, leva a que esteja num nível muito elevado e só os mais fortes se mantenham. Teremos sempre pilotos que a espaços mostram a sua rapidez e talento, mas fazê-lo constantemente é algo que separa um Oliver Solberg de um Kalle Rovanperä, por exemplo.

O Sebastien Ogier, Thierry Neuville, Elfyn Evans, Kalle Rovanperä e Ott Tänak são hoje em dia a cara do WRC, são os pilotos que esperamos à partida que ocupem as posições cimeiras das provas que participam, sejam elas quais forem. Com mais ou menos sucesso, são pilotos de alto nível que marcam uma geração e nos mantêm interessados num campeonato que já viveu dias bem melhores. E a eles, nada menos do que gratidão por tantas horas bem passadas a vê-los correr!

Obrigado por terem chegado até aqui, espero que tenham gostado e marcamos encontro no próximo podcast de WRC no Vamos Falar de FUm.

Read the original on vff1.substack.com

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