Se tem uma coisa que me incomodou por muitos anos foi a minha sede de apreciação. Explico: é como se houvesse uma força interna, ubíqua. E ela contaminasse minhas ações com uma expectativa de que, se bem realizadas, se excelentes, essas ações encontrariam a devida atenção e apreço pelo meu empenho. Inocência; mas quanta coisa acontece lá escondida na nossa mente antes de percebermos. E mais: talvez esse impulso não seja a realidade de todos, mas, com certeza, é a agonia de muitos.
Mas há algum precedente científico sugerindo que precisamos ser vistos e apreciados. Que muitas vezes a conexão é adaptativa e auxilia na saúde e na longevidade. Ou seja, esse organismo que você é, que eu sou, que sente, pensa e age, precisa também que alguém lhe reconheça o valor. Está na nossa infraestrutura a ânsia de um testemunho benevolente sobre nossa existência. O problema é que essa expectativa de reconhecimento, que nasce conosco, se intensifica em algumas circunstâncias. E acaba sendo usada por quem domina a civilização para otimizar, de alguma forma, a própria vida. E isso à custa das vidas de muitos outros.
Falando em vida, e olhando pra minha, percebo também esse ciclo, no qual uma falta lá no início gerou uma sede que é explorada hoje. Pais ocupados demais com as próprias tragédias têm pouco tempo para apreciar algo que não seja o abismo em que vivem. O que inevitavelmente desconecta a prole da própria tribo, gerando uma sede fantasma que vai governar percepções e comportamentos ao longo de muitos anos, se não por toda a vida.
E uma dessas tragédias que tanto ocupam os pais é a escassez. Ora, com uma ou muitas bocas para alimentar, num mundo que devora os recursos numa velocidade muito maior do que conseguimos conquistá-los, quem tem tempo para se conectar, apreciar, a própria cria? Servir a criança com conexão, reconhecimento, resseguro, etc?
Isso me traz à outra pergunta: de onde vem essa escassez? Não haveria terra para todos? Comida, abrigo para todos? Podemos buscar mais profundamente a resposta, mas não basta mais do que uma rápida zapeada pelo GPT para constatar que, embora não faltem recursos, a escassez abunda. Você pode, cara leitora, caro leitor, acusar essa minha relação entre apreciação e a falta material de pueril e temerária. Mas converse com qualquer pessoa que faz escala 6x1 para ver se há tempo de apreciar algo que não seja um dia de repouso. Não quer dizer que estar remediado materialmente gera, ato contínuo, conexão. Quer dizer apenas que estar preso na teia da penúria torna essa apreciação muito mais remota.
O que me faz ver essa escassez na qual vivemos como um projeto, e não um acidente. Poucos têm tudo, à custa da ocupação de quase todos. Até aí nada de novo. O sistema em que estamos marinados nos assola com a ameaça de falta, para tutelar nossa atenção (e, consequentemente, nossa apreciação), direcioná-la a um território mais “lucrativo” para alguém. Ora, quem vai gerar o retorno sobre todo o investimento feito na civilização ao longo das eras? Como se essa civilização precisasse de investimentos tutelados para florescer o próprio gênio. E, pior, como se fosse obrigação do ser humano gerar retorno sobre investimento.
Parece então que o nervo dessa ideia não é a apreciação em si, mas sim a sede que sentimos. A sede como orientador da atenção durante a vida, conectada a um sistema que a gerencia.
Por isso, a rede social não socializa, mas gera sede de contato próximo;
O app de relacionamento não conecta gente com perfis correspondentes, porque senão a sede acaba e, com isso, o lucro;
O plano de saúde não serve para gerar saúde (assim como muitos remédios não remediam);
E o que frequentemente se considera comida hoje sequer se enquadra como alimento, ao se ler a lista de ingredientes.
Mas para que essa pirâmide de sede se sustente e seja lucrativa, um elemento crucial é a nossa alucinação coletiva. Precisamos acreditar em muita coisa até tornar a falta o fundamento da nossa realidade. Sem revolta, sem embate, sem contornos. A caverna de Platão, que antes era apresentada como mito imemorial, hoje é vestida com a roupagem do desejo, e uma plaquinha de “visite o decorado” na porta. A alucinação não é uma armadilha que vemos e conseguimos desviar, ela é o parque temático onde vivemos e acreditamos ser tudo o que existe. E sonhar com o que nos falta ocupa o espaço de admirar, apreciar o que já está ao nosso alcance. A escassez é, afinal, a chave mestra da nossa servidão. E a carência de apreço, de afeto genuíno, é uma das suas variações mais sutis e poderosas. Basta abrir alguma timeline hoje e você verá:
Pontos de vista (POVs) sobre absolutamente tudo, caricaturados, para distrair nossa apreciação;
Adultos fazendo dancinha por todos os lados, para ir ao banco, para elaborar um argumento, para criticar quem copiou a dancinha;
Certezas e generalizações, por todos os lados, gritando por validação;
Glúteos, gastrocnêmios, curvas de seios e abdômens, não menos apreciáveis
É como se fosse um cassino, mas você não é o jogador, você é a máquina de caça-níqueis depositando sua atenção na mesa, mediante os botões que o sistema aperta na sua cabeça e no seu coração. E onde estiver sua atenção, é lá que a realidade se molda.
Diante desse cenário, gosto de pensar no conceito de “faculdade condutora” que Marco Aurélio trata nas suas meditações. Segundo o imperador estoico, teríamos uma entidade interna responsável por julgar, decidir e agir; e ela nos conduziria pelos dias de nossa vida. Parece auspicioso. Aliás, parece que é essa mesma faculdade que tem sido conduzida a julgar que a escassez é normal, que o melhor é obedecer, que o diferente é o demônio, etc. E isso tem um objetivo, que não é aleatório.
Mas voltando a essa faculdade condutora, me parece que aí reside uma perspectiva para as nossas sedes, inclusive a de apreciação. A começar por reaprendermos a apreciar, de maneira autônoma, sem mediadores, antes de sermos apreciados. Pais apreciando seus filhos, amigos e parceiros apreciando-se mutuamente. Praticarmos a apreciação de um momento, de uma paisagem, de um gesto ou uma beleza menor que exubera à nossa volta e, infelizmente, cegos de sede, não conseguimos enxergá-la. Nessa hora a minha sede cessa: ao apreciar um sonho de emancipação, de autonomia da nossa faculdade condutora, agora também apreciadora.
Por ora isso não passa de sonho. Mas para alcançarmos alguma coisa, primeiro é necessário descobrirmos o que ela é. Apreciá-la. E quando entendermos que essas sedes atuais são fabricadas, estaremos um passo mais perto de estarmos satisfeitos.
***
Se você gosta dos meus textos, tenho certeza de que vai curtir ainda mais meu novo romance Jogos marcados no corpo de Deus. Ele está em pré-venda com desconto neste link. Garanta sua cópia a preços promocionais e presenteie amigos com uma leitura contemporânea provocadora.
Se você curtiu esse conteúdo, dê uma força: inscreva-se ou compartilhe. Faz diferença 🖤
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.