Há quase quinze anos, quando descobri Retiros Espirituais no luminoso álbum de Gil, tive uma das minhas primeiras experiências de Templo. Explico: é aquela vivência em que você visita, se demora e sai melhor do que entrou. Pode ser uma receita bem executada, pode ser no sexo, na praia e até mesmo nos templos, por que não…Uma experiência de tamanha generosidade, tamanha doação, que você sai saciado, regenerado, reiniciado na vida. Daí que, por muito tempo, me retirava por horas para dentro dessa canção. No trânsito, enquanto trabalhava ou preso numa situação entediante, me refugiava em sua melodia espraiada, sua harmonia ampla e ambivalente. Me detia em partes de seus versos, como se fossem koans; tentava decifrá-los, assimilá-los na minha percepção.
Um trecho me vem à memória:
Nos meus retiros espirituais
Descubro certas coisas tão banais
Como ter problemas, ser o mesmo que não
Resolver tê-los é ter, resolver ignorá-los é ter
Você há de achar gozado ter que resolver de ambos os lados
De minha equação
Que gente maluca tem que resolver
E eu, como gente maluca de primeira categoria, andei tendo que resolver muitos problemas nos últimos anos. Seja por impasses práticos do meu passado, seja por minhas próprias decisões, seja pela maneira como o que me tornei teve que lidar com isso tudo à nossa volta.
Posso até dizer que fiquei bom nisso. Já que o jeito era resolver, não foram poucos os livros de psicologia, filosofia, autoajuda, etc., aos quais recorri para ter mais resolutividade, ver a infraestrutura do problema, criar repertório para resolvê-lo. Mal sabia eu que essas competências também carregam, ironicamente, sua própria problemática. Imprevisíveis que são as fases da vida. Parece sábio dizer que trazem sabor a ela. Porém, é justo, ao mesmo tempo, sentir medo, raiva e angústia antes que esse sabor apareça.
Mais fácil entender olhando para trás do que no calor do momento. Hoje consigo ver melhor o que Nietzsche quis dizer com as três transformações do espírito. Enquanto camelo, carregava pelo meu deserto cargas do passado, não só minhas. Pior, as entendia como um dever. Dava muitos problemas como os meus, como se fossem parte da minha identidade. Até que, há uns oito anos, já agia como leão, lutando por liberdade e soberania, e foi aí que fiquei realmente bom em resolver problemas. Bom o suficiente para me convencer de que a vida era apenas resolvê-los, daí você consegue entender como um bom solucionador de problemas nunca estará livre deles.
E então, outra mudança. O espírito foi, de maneira muito natural e inesperada, transformando-se em criança, e a criança vê tudo com um olhar inaugural. Ano passado me senti, para minha total surpresa, um recém-nascido. Mas trinta e nove anos não se transformam em inocência em alguns poucos dias. De modo que ainda há na minha mente alguns legados, alguns artefatos de outras épocas; coisas que, acredito, todos nós temos e que merecem jardinagem.
Dia desses, em mais um retiro espiritual, dessa vez nas praias da Bahia, fiz um exercício. Por longos momentos, na água morna do mar, contemplei a frase de Jon Kabat-Zinn:
A alegria do “não fazer” é que nada mais precisa acontecer para este momento estar completo.
Convido você, leitora, você, leitor, a parar por cinco minutos nos próximos dias e pensar “Nada mais precisa acontecer para este momento estar completo” e ver o que acontece. Pois bem, o que aconteceu comigo foi que tive um lampejo de criança sobre o que ainda me resta de leão na alma. Se, por décadas, me foi exigido das situações saber “resolver”, hoje essa ânsia se tornou um outro problema; e não será a resolutividade que vai dar cabo dele.
Tem cheiro de paradoxo, diria Kabat-Zinn e eu concordaria. Mas há que se amar os paradoxos, pois são as grandes lições que ainda não aceitamos aprender. Navegar paradoxos é das sofisticações do adulto; é estar mais perto do espírito das coisas. E aqui encontrei uma outra experiência de templo: não ter que resolver um problema. Nela tenho residido nos últimos dias, sem pressa, sem ânsia de esgotá-la. Estou apenas percorrendo seus cômodos. Me sento em silêncio num canto; olho pela janela num outro.
Não ter que resolver, digo novamente. Há uma pressão violenta e covarde do mundo para que as coisas estejam resolvidas. Uma pressão que nos infecta e que não considera esse hiato, no qual o não resolver é semente da solução, faz parte da substância da qual um problema é feito. E digo isso com algumas boas experiências recentes na causa. Neste ano mudei de cidade; tive que reinventar minha vida, agir com muita paciência em situações de assédio, entendendo que a pura luta de poder apenas renderia vencedor aquele que mais poder detinha. E ali venci, como os budistas dizem, perdendo. Tudo isso mantendo minhas rotinas, materializando minhas ideias, revendo amigos, visitando a mim mesmo nos momentos em que era possível.
Ainda assim, custou caro. Custou uma parte da alma, e foram necessários mais refúgios espirituais para regenerá-la, tal qual um rabo de lagartixa. Sorte que ainda sei fazê-lo. Contudo, uma suspeita ficou. Seria “resolver” — essa palavra que tantas vezes brota na minha boca — a única forma de lidar com um problema?
Hoje, a dez dias do fim do ano, estou de novo em compasso de espera. Tudo está “resolvido” (perdoem as muitas aspas, me parece que deveriam sempre acompanhar esta palavra). Repouso neste momento de encanto em que não tenho que resolver. Daqui, olho para os dias que já foram e vejo boas brechas em que eu poderia não ter agido. Também imagino os dias que estão aí, na fila pra chegar, e desejo pra mim essa competência sutil de suspender a resolução. É claro, você, uma mente consciente, sabe que não estou dizendo que a única solução que existe é esta e que, para todos os problemas, basta não mais do que a inação. Sabemos que não é sobre isso.
É mais como o fim da oração da sobriedade, onde se pede a sabedoria para discernir o que é e o que não é possível resolver. E, expando, peço pra mim a lucidez de saber quando interditar o ímpeto de solução, sendo isso, em si, parte da solução. E aí, deixar o problema aos cuidados do próprio problema, as coisas por conta das coisas e apenas sonhar com o luar tão cândido que Gil canta em seus retiros.
*originalmente postado em 19 de dezembro de 2024
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