A Misericórdia que nos devolve a postura ereta e o valor de filhos do Céu
“Filho do céu, seu amor me faz vencer... seu amor me faz dizer: sou filho do céu!”
Diga isso com orgulho ao seu próprio coração neste dia: você é filho do céu.
Quando olhamos para a agitação do mundo, para as caravanas de pessoas que viajam de tão longe em busca de um reencontro com Deus, percebemos a imensa responsabilidade de falar de amor. Cada pessoa carrega no peito uma necessidade profunda, uma ferida oculta, uma quebra interna que muitas vezes a faz sentir-se indigna.
No amor, existem dois imperativos éticos fundamentais: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Mas hoje, eu quero falar justamente sobre esse “a ti mesmo”. Sobre essa capacidade que precisamos ter de olhar para o espelho todas as manhãs e continuar acreditando no que Deus pode realizar em nós, a partir do infinito amor que Ele nos devota.
Deus é amor: a pedagogia do olhar que cura
Na Primeira Carta de São João (1Jo 4, 7-17), nos é revelada a verdade mais elementar do cristianismo: Deus é Amor. Aquele que não ama não o conhece, porque a própria essência do Criador é o amar de forma incondicional.
“E nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados.”
Deus é capaz de trocar reinos por você. Ele abre mares para que você possa atravessar e, se preciso fosse, daria novamente a vida na cruz por você. A única coisa que Deus não é capaz de fazer é deixar de te amar.
Um dos maiores desafios da humanidade contemporânea é nos convencermos dessa verdade. É fácil demais esquecer o próprio valor; é fácil aliená-lo nas mãos de quem não nos conhece ou colocar nossa confiança naquilo que não podemos controlar. No entanto, o coração humano só é verdadeiramente curado e restaurado quando passa pela experiência de ser olhado com amor, ternura e misericórdia. É esse olhar que inaugura um tempo novo dentro de nós.
A parábola de “Debaixo da Mesa”
Todos nós, em algum momento da infância, quebramos algo que era valioso para os nossos pais. Uma xícara de porcelana, um vaso de cristal, uma louça especial de família. Quando o estilhaço acontece, um desconcerto imediato toma conta da criança. O que nós fazemos? Corremos para debaixo da mesa.
Debaixo da mesa, nós nos escondemos com medo da repreensão. O medo nos paralisa, nos joga para a escuridão do oculto, onde o erro parece infinitamente maior do que o amor do outro. Sob a mesa, ficamos parados na experiência do pavor, esperando a bronca, o castigo. A xícara estraçalhada torna-se um monstro que nos faz esquecer a ternura de quem nos acolhe.
Na vida adulta, o mecanismo é exatamente o mesmo. Quantas vezes você entrou debaixo da mesa por ter errado? Quantas vezes se escondeu de si mesmo e de Deus por medo de encarar o julgamento das pessoas? O erro nos curva.
O ser humano não foi feito para viver encurvado; fomos criados para caminhar de pé.
Mas quando a alma está caída pelo peso da culpa, perdemos a força de nos erguer porque acreditamos que não há mais ninguém na beira da mesa estendendo as mãos para nos resgatar.
O menino Jesus sem cabeça: onde aprendi a Misericórdia
Deixe-me partilhar com você uma história da minha infância simples em Minas Gerais. Para nós, que éramos muito pobres, o Natal tinha uma joia preciosa: uma caixa de papelão que passava o ano inteiro em cima do guarda-roupa da minha mãe. Ali dentro ficavam as imagens do nosso presépio. E minha mãe sempre repetia com devoção: “Este presépio quem deixou para mim, Fabinho, foi a minha mãe, a sua avó”.
Aquelas imagens de gesso não eram apenas decorações; elas estavam grávidas de poesia, carregadas de natais, decembros e da saudade de uma avó que eu mal conheera. Elas tinham um valor sagrado.
Eu esperava ansiosamente pelo dia 15 de dezembro, quando podíamos abrir a caixa e colocar o presépio sobre a mesa de casa. Quando ganhei idade suficiente para segurar a imagem que mais me seduzia — o Menino Jesus —, decidi levá-lo escondido ao vizinho para mostrá-lo. No caminho, na pressa de chegar, o Menino caiu dos meus braços e bateu no chão da calçada.
Entrei em desespero. Peguei o Menino depressa, sem olhar direito, e continuei correndo. Ao chegar ao vizinho e exibir a imagem com orgulho, ele me olhou surpreso e perguntou: “Mas... sem cabeça?”.
A cabeça do Menino Jesus havia se soltado no impacto. Voltei correndo, desesperado, revirando o chão até encontrá-la no cantinho da calçada. Uma prima minha tentou me consolar colando a cabeça com uma cola forte e recomendando que eu não tocasse mais na imagem até o Natal. Mas quando minha mãe entrou em casa, eu tremia como uma vara verde. Ela olhou para mim e disse: “Você está branco como cera. O que aconteceu?”.
Naquela hora, abracei as pernas dela e desabei a chorar. Entre soluços, confessei: “Eu quebrei o Menino Jesus”.
Ela se levantou, foi até o presépio, olhou a imagem remendada... e olhou para mim. O sorriso que minha mãe me deu naquele momento me ensinou tudo o que eu sei hoje sobre misericórdia. Nenhum tratado teológico ou livro acadêmico seria capaz de ilustrar o que o amor compassivo significa com tanta clareza.
Minha mãe entendeu que um filho assustado e arrependido valia infinitamente mais do que uma imagem de gesso quebrada. Aquele sorriso desarmou o meu medo e me permitiu sair debaixo da mesa. É exatamente assim que Deus age conosco. Diante dos nossos maiores cacos, o sorriso de Deus nos devolve a esperança.
Os cativeiros que nos roubam de nós
Como é difícil manter a consciência do nosso valor quando erramos! O erro nos traumatiza e nos tranca em gaiolas de insegurança. Começamos a nos perguntar: “Será que eu ainda valho a pena? Será que se eu me esconder, alguém virá me buscar?”.
Em meu livro “Quem me roubou de mim? / O Sequestro da Subjetividade”, eu discuto exatamente esse fenômeno. O sequestro físico consiste em retirar o sujeito de seu ambiente, trancá-lo em um cativeiro escuro e inóspito, tratando-o como objeto para fragilizá-lo até que ele perca a sua identidade.
O sequestro da subjetividade
Mas existe um sequestro que é silencioso e devastador: o sequestro da subjetividade. É quando permitimos que pessoas, desilusões, relacionamentos abusivos ou traumas roubem nossos valores, nossas preferências, nossa alegria e o sentido que damos à vida.
Muitos de nós estão vivendo em cativeiros emocionais. Você se acostumou a ser maltratado, a ser silenciado, a não ser respeitado. Deixou que a vida ou o outro o empurrasse para debaixo da mesa e, hoje, sua mente se tornou mesquinha, focada apenas no chão e no ressentimento.
Debaixo da mesa, não há horizontes; só há a visão da poeira e das dores passadas.
A pessoa cativa muitas vezes escolhe permanecer destruída apenas como uma tentativa inconsciente de punir quem a derrubou. Mas a verdade trágica é que quem continua sob o julgo da destruição é você!
Como cristãos, sabemos que a vela acesa não foi feita para ficar debaixo da mesa, mas sobre o velador, para que ilumine toda a casa.
Talvez você me diga: “Padre, a minha vela está completamente desgastada, a cera está arranhada, derretida, feia pelas pancadas da vida”.
Preste atenção nisto: o inimigo pode até cutucar, arranhar e deformar a sua cera, mas no seu pavio ele não consegue tocar! O pavio é a sua filiação divina, a sua essência sagrada como filho do céu. E isso é intocável.
Quando estamos na escuridão e precisamos de luz, nós não nos importamos se a cera da vela está marcada ou gasta; nós procuramos o pavio para reacendê-lo. Pare de fixar os seus olhos na cera machucada! Pare de focar nas cicatrizes do seu passado e coloque sua atenção no pavio que Deus quer acender hoje.
As velas que mais queimam são as que ganham corpo, robustez e resistência física. À medida que nos consumimos no amor, Deus restaura nossa matéria. O importante é manter o pavio pronto para a chama da ressurreição.
O olhar de Deus: um encontro de pé
Deus não conversa conosco debaixo da mesa. Para falar com você, se for preciso, Ele desce até a sua altura: se você estiver prostrado no chão, Ele se deita ao seu lado; se estiver de joelhos, Ele se ajoelha; se estiver escondido sob a mesa do medo, Ele se abaixa para encontrar o seu olhar. Ele faz isso para desarmar suas defesas, para que você sinta a verdade do Seu amor. Mas, logo em seguida, Ele te dá a mão e diz: “Levanta-te. A conversa agora é de pé”.
Deus te chama de forma particular. Ele te tira da massa, da multidão invisível, e te chama pelo nome. Ele quer resgatar o seu “Hosana” pessoal.
Lembro-me de um testemunho inesquecível no Hosana Brasil. O show estava terminando, o som estava alto, milhares de vozes cantando. No meio daquela multidão, meus olhos cruzaram com os de um rapaz que segurava seu filhinho nos braços. Pela leitura labial, eu o vi dizer: “Padre Fábio, eu te amo porque você salvou a minha vida”.
Aquele homem fora um alcoólatra devastado pelo vício. Um dia, debaixo da mesa de sua dor, ele ouviu a Palavra de Deus através de uma pregação e reuniu forças para se levantar. Logo depois, a criança me deu um abraço apertado e disse: “Padre, obrigado por salvar o meu pai”.
A sensibilidade do Evangelho consiste em olhar para debaixo das mesas do mundo e resgatar as vidas esquecidas.
Saia de debaixo da mesa!
Chegou a hora de tomar uma decisão espiritual e emocional. Seus traumas não têm o direito de sequestrar a sua identidade. Suas falhas do passado não são maiores do que a misericórdia que se renova a cada manhã.
Se a sua cera está machucada, alegre-se: o seu pavio está intacto. Olhe para Aquele que te ama sem reservas. Deixe que o fogo do Espírito Santo reacenda a sua luz para que você assuma o seu lugar de direito: de pé, diante do altar da vida, iluminando o mundo como um verdadeiro filho do céu.
Que caia por terra toda opressão, medo e desamor. Saia de debaixo da mesa, pois o Pai te espera com o olhar de misericórdia e os braços abertos para o abraço da reconciliação!
Inspirado pelo tema “Pela Verdade sereis curados”, o Acampamento de Cura Interior convida os participantes a permitir que Deus ilumine suas histórias e realize um caminho de cura e libertação por meio da oração e da escuta da Palavra.
Confira a programação e venha para a Canção Nova. Inspirado pelo tema “Pela Verdade sereis curados”, o Acampamento de Cura Interior convida os participantes a permitir que Deus ilumine suas histórias e realize um caminho de cura e libertação por meio da oração e da escuta da Palavra.

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