Eu e a Bruna nos encontramos como parceiros de vida na adoração pelas pequenas coisas. Foi esse olhar que chamou a minha atenção e, em reciprocidade, a dela. Nos importamos com o impalpável, com os detalhes mínimos, os pequenos ritos dos animais, o movimento sutil da natureza que só os observadores e admiradores das inutilidades da vida conseguem perceber. Saboreamos esses movimentos e constantemente tentamos trazê-los para dentro de nossa casa.
Talvez por isso tenhamos escolhido viver longe da cidade. Aqui, no Sítio Terra Lua Terra Sol, a natureza nos lembra diariamente que a vida acontece em ciclos e que quase tudo o que importa precisa de tempo, repetição e presença. Foi convivendo com esses ritmos que entendemos que muitos dos gestos que chamamos de “rituais” são maneiras de honrar as passagens da vida.
Desde que descobrimos a gravidez da Bruna, começamos, quase sem perceber, a criar nossos próprios ritos para receber nossa filha.
Abrimos um caderno de cartas para a Lua Iara. Queríamos conversar com ela antes mesmo do primeiro encontro. Escrevemos sobre os nossos dias, nossos medos, nossas alegrias, aquilo que aprendíamos enquanto também nasciam um pai e uma mãe. Contamos sobre o mundo que encontramos e sobre o mundo que desejamos ajudá-la a construir.
Enquanto preparávamos o quarto, o enxoval e a casa, percebíamos que o preparo mais importante acontecia dentro de nós.
Não bastava organizar o espaço. Era preciso abrir espaço em nossos corpos, em nossos afetos e na nossa imaginação para acolher uma nova vida.
O maior dos ritos aconteceu recentemente com a chegada da nossa pequena. Quer ritual maior que esse? Onde mãe e cria, em uma sintonia indescritível, travam uma luta conjunta para abrir caminhos e ganhar terreno. O berro da leoa, o relinchar de um cavalo, o bramido de um elefante, as ondas de um mar bravo, o vento soprando alto, o fogo queimando a madeira mais bruta, a terra se abrindo… Foi assim que a Bruna recebeu a Lua. Com a presença invisível da natureza preenchendo aquela sala. Naquela sala havia muito mais do que pessoas.
A natureza inteira parecia presente, emprestando sua força ancestral para aquele nascimento. A Bruna foi voz e corpo dessas forças. E eu tive o privilégio de testemunhar algo que jamais serei capaz de experimentar no corpo, mas que levarei comigo para sempre.
Como acontece com quase todas as famílias que recebem um bebê, vivemos a beleza e o esgotamento caminhando lado a lado. Talvez este seja o tempo mais intenso e mais bonito de nossas vidas. Um tempo feito de primeiras vezes.
Está passando tão rápido… e saber que passa rápido tem nos ajudado nas madrugadas mais difíceis. É sempre um misto de pensametos duais como “cresce logo para melhorar a pega na mamada, cresce logo para melhorar essa cólica” com “tempo, passa devagar para conseguirmos muitas noites com essa pequena de 2kg e meio nos nossos braços”.
Foi para não deixar esses dias escaparem entre uma mamada e outra que começamos, intuitivamente, a criar pequenos ritos de presença.
Segurar a Lua por alguns minutos em silêncio antes de amanhecer. Observar seu rosto enquanto ela dorme. Registrar pequenas descobertas nas cartas que um dia ela lerá. Apresentar para ela as presenças do sítio.
Nesta semana, vamos realizar um rito com a sua placenta, a primeira morada que ela conheceu. Vamos enterrá-la aos pés de uma árvore aqui no sítio. Queremos acompanhar o crescimento das duas. Sabemos que uma não será a outra, mas gostamos de imaginar que ambas compartilharão o mesmo chão, o mesmo tempo e, de alguma forma, algumas histórias.
No fundo, talvez seja isso que os rituais façam.Eles não impedem que o tempo passe. Mas nos impedem de passar distraídos por ele.
Essa é uma coluna com acesso livre. Pode compartilhar para mais pessoas lerem :)
Dias 22/07, 29/07, 05/08 e 12/08 das 20h às 21h30
Na semana passada, iniciamos uma jornada profunda de quatro encontros inspirada na profecia de Shambhala, uma história da tradição oral tibetana citada no livro Esperança Ativa de Joanna Macy. A profecia fala de um tempo de grande escuridão no mundo onde a ganância, o ódio e a ilusão dominam, causando destruição ambiental, injustiça social e sofrimento generalizado.
Nesse período um grupo de guerreiros de luz emerge. Eles não são guerreiros comuns que carregam escudos e espadas nas mãos. São pessoas comuns que usam a coragem, compaixão e sabedoria para agir com esperança ativa.
Prepare seu coração e venha fazer parte deste exército de guerreiros do bem!
O primeiro encontro foi incrível! Confira a gravação e participe dos próximos encontros. Ainda dá tempo para se juntar ao nosso exército da compaixão.

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