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Travessias | Revista e Comunidade Digital · Aug 9, 2026

Pode o ativismo andar de mãos dadas com a delicadeza?

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Bambual Editora, Henrique Katahira · Travessias | Revista e Comunidade Digital

Ativismo e delicadeza parecem não combinar na mesma frase, não é mesmo? Ativismo nos remete a cartazes, gritos, luta, militância e indignação (energia yang). Delicadeza, a gestos suaves, cuidado, atenção, escuta, silêncio e reflexão (energia yin). Como essas duas coisas poderiam caminhar juntas?

Na coluna que abre a Travessia #27 - Ativismos para o século 21, contei meu incômodo sobre o termo ativismo e o desconforto que senti na Av. Paulista, em 2019, segurando um cartaz em prol da Amazônia sem me sentir pertencente àquela cena.

Fiz também um convite para aprofundarmos em diferentes formas de ativismos, que vão além do ativismo convencional baseado na lógica de causa e efeito, na dicotomia entre inimigo e aliado, na ação que nunca pausa para refletir.

Nesta coluna, vamos mergulhar numa abordagem radical de ativismo a partir da visão dos ativistas Allan Kaplan e Sue Davidoff. “Ativismo Delicado - Uma abordagem radical para mudanças” não é um livro que vai te dar respostas prontas. Ele vai te oferecer perguntas que te tiram da perspectiva convencional de gestão de mudanças, aquela em que alguém de fora aponta o que deve mudar, para uma posição mais radical: a de quem quer mudar fazendo parte do sistema."

Talvez, a melhor forma de apresentar esta obra, seja transcrevendo a parte introdutória que traz as bases filosóficas desta abordagem radical e que vai te dar um gostinho do que você vai viver conosco no nosso Clube de Leituras que acontecerá em setembro de 2026.

Espero que curta esta introdução e nos vemos na próxima Trilha de Estudos do Clube de Leituras!

“Vivemos tempos difíceis e periclitantes. Quando escrevemos Ativismo Delicado há cerca de dez anos, escrevíamos desde um contexto que reconhecíamos ser profundamente desafiador. Um Ativismo Delicado provou ser um ponto de apoio e sustento, uma fonte de orientação para muitos. Tornou-se um texto muito proveitoso e procurado. Sabemos que para continuar assim, ele precisa ser ativamente responsivo ao contexto social; e nosso contexto mudou significativamente. Entremeadas no tecido dessa prática, essas mudanças contextuais requerem que expandamos ainda mais o nosso olhar. […]

À medida que nosso contexto foi mudando, nossa prática foi crescendo. Neste livro ampliado do Ativismo Delicado, agora publicado pela primeira vez, sentimos ter chegado mais fundo no âmago dessa prática, de um modo que permite viabilizar a sabedoria da delicadeza em meio a tempos cada vez mais indelicados. Esperamos que, por meio destas páginas, você se sinta vivificado em seu olhar, em sua prática, em sua vida e em seu contexto social. Aqui você vai se deparar com familiaridades e surpresas, um fortalecimento de si. Esperamos que isso o aproxime de si mesmo e, ao fazê-lo, que o aproxime dos outros. O caminho e a jornada são tudo; são estes os meios que criam os fins.”

Allan Kaplan e Sue Davidoff

O ativismo delicado é verdadeiramente radical por ser consciente de si próprio, e por compreender que seu modo de enxergar é a mudança que se quer ver.

Nossa ecologia é tão frágil e nosso tecido social está tão esgarçado que cada passo dado para gerar melhorias de vida torna-se um risco de se dar ainda mais nós nessa meada. Nossas pegadas já estão espalhadas por todos os lugares e mesmo assim parece que simplesmente continuamos a pisotear nossas melhores intenções. Será que não estamos deixando algo nos escapar, já que nossas inúmeras tentativas de trabalhar com mudanças pare- cem emperrar em suas próprias pressuposições? Como podemos abordar o mundo de maneira diferente?

Este livreto explora uma maneira, uma prática, a que temos chamado de “ativismo delicado”. Essa prática envereda por uma trilha que demanda uma reavaliação profunda do papel que temos realmente desempenhado nos processos de mudança social. Aparentemente, um ativismo que enfatiza a ação em detrimento da reflexão; que recompensa os efeitos externos e ignora a consciência interna; que foca no outro, mas obstrui o eu; que exalta resultados (quase como se fossem commodities) sem suficiente preocupação pelo processo que os geram, é um ativismo que não parece ter sido capaz de acompanhar as atuais complexidades das mudanças sociais. Ironicamente, esse tipo de ativismo tem nos colocado no lugar de espectadores ao invés de participantes e tem, na realidade, retardado as mudanças. O ativismo delicado é verdadeiramente radical por ser consciente de si próprio, e por compreender que seu modo de enxergar é a mudança que se quer ver. Ele anuncia uma alteração sísmica da qual surge uma forma mais social e ecológica de ativismo direcionado para um futuro que sustenta a vida.

“Há um empirismo delicado que se torna absolutamente idêntico ao objeto, tornando-se assim, verdadeira teoria.” - JW von Goethe

A compreensão, a abordagem e os métodos desenvolvidos por Goethe em sua busca por um caminho de conhecimento, por uma epistemologia que fosse uma maneira participativa e holística de “enxergar para dentro” do mundo, vão muito além do que nosso atual modo de pensar tecnológico e instrumental é capaz de alcançar. Esse modo de pensar nos levou a tentar praticarmos, nós mesmos, essa abordagem de Goethe ao buscarmos caminhos para se trabalhar efetivamente com processos de mudança social. Essa prática hoje se traduz em uma abordagem específica e fenomenológica de mudança social.

Na citação usada acima, Goethe usou o termo “empirismo delicado”. A frase e a sentença à qual ele pertence têm sido objeto de muitos tratados e conversas eruditas; ele forma a base da abordagem fenomenológica, para a qual retornaremos a seguir. Não precisamos entrar em detalhes a respeito dessas discussões aqui. Mas há algo que imediatamente salta aos olhos.

Um “empirismo que se torna absolutamente idêntico ao objeto” soa como se nossa costumeira separação entre sujeito e objeto, entre o sujeito que percebe e aqui- lo que é percebido, entre o ator e a ação, fosse destruída, ou sobrepujada. Das duas, uma: ou esta é uma asserção indefensável, insustentável, uma fantasia, ou ela aponta para uma possibilidade muito diferente de se estar no mundo.

A frase realça a enormidade do desafio confrontado por um ativismo social verdadeiramente radical que toca o cerne da luta por justiça e liberdade em um mundo de complexidade inaudita.

A partir daqui, o livro nos conduz por conceitos como o 'empirismo delicado' de Goethe, o enigma do ativismo e a 'mágica ordinária' das transformações que nascem da escuta. Bora aprofundar no tema?

Se você já sentiu que o ativismo que conhecemos não dá conta da complexidade do mundo, este livro é para você.

Se você desconfia de soluções rápidas, matrizes de materialidade e métricas de impacto que medem tudo, menos o essencial, este livro é para você.

Se você acredita que a escuta pode ser tão revolucionária quanto gritar palavras de ordem, este livro é para você.

E se você ainda não tem certeza de nada disso, fique tranquilo: o livro também é para você. Ele é um convite à prática.

Talvez a pergunta que fica seja esta: o que muda em mim quando eu deixo de lutar contra o mundo e começo a dançar com ele?

Read the original on travessias.substack.com

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