Costumamos imaginar que os rituais são uma invenção humana. Mas e se eles existirem em muitas formas de vida? E se cada espécie ritualizar o mundo de um jeito diferente? Há perguntas que a ciência responde com experimentos, outras com longas observações. E há perguntas que talvez precisem também de uma boa história. Este texto apresenta uma fábula inspirada pelas ciências multiespécies. Desejo que o mistério desta ilha contamine sua imaginação e sua maneira de olhar para os rituais da Terra.
Esses dias escutei uma história surpreendente. Uma história divertida e inesperada. Há muito tempo, existiu uma ilha mágica e misteriosa, em que, no seu período monárquico, existia o cargo de Domesticador Cerimonial. Esse sujeito, além de conduzir casamentos e outras atividades, era responsável por garantir a participação de todas as espécies nos rituais humanos. Assim, ele convocava e conduzia todos os seres em diferentes tipos de festas da ilha. Entre as principais cerimônias, estava a Festa da Chuva. No primeiro temporal do ano, todos deveriam cantar as mesmas canções e agradecer pela água que caía do céu.
Mas a chuva nunca significou a mesma notícia para todos
Enquanto sapos chamavam seus pares para a reprodução, cupins alados partiam para fundar novas colônias, aranhas perdiam suas teias e fungos começavam a brotar. O Domesticador acreditava que sua maneira de celebrar o mundo era a correta e que ela se fortaleceria quanto mais espécies a reproduzissem. Até que, no dia do aniversário da feiticeira Abaetê, ela pediu de presente que todos os bichos pudessem fazer seus próprios rituais.
Os bichos adoraram a ideia: “Senhor, com todo o respeito, pegue de volta as obrigações que você nos deu e que não escolhemos. A partir de agora, não vamos mais correr, voar ou cantar para o reinado”. Sem dúvida, o fato de não pensar em si mesmo como o bode expiatório da cerimônia muda algumas coisas para os bodes, pois ao escutar bode expiatório, escuta-se a culpa das pessoas, os pecados, a solidão, e a morte. O mesmo ocorre com os pombos, as cabras, os cavalos, as baratas, os lobos e vários outros.
No entanto, o presente de Abaetê incomodou alguns bichos, particularmente os gatos e cachorros. Eles adoraram não serem mais arrastados em coleiras e poderem decidir quando seria a hora do banquete, mas não queriam abrir mão da companhia no passeio pela floresta e da certeza do colo. Então a feiticeira os tranquilizou: “Sem problemas. Esses rituais ainda podem ser seus, se fazem sentido para vocês”.
Estava sendo fantástico libertar-se dos convites, ou melhor, das intimações do Domesticador, mas os bichos precisavam revelar quais seriam os seus rituais propícios. Esses eventos não precisavam ser realizados entre muralhas, em fileiras obedecendo à mesma etiqueta, ao mesmo cardápio e às mesmas declarações predefinidas. Naturalmente, cada ritual precisava conjurar suas próprias forças, de acordo com as relações de cada coletivo. Seriam movimentos, viagens, toques, sons, cheiros, vibrações, arremessos, danças ou grunhidos singulares. Os animais sabiam, ou iriam descobrir, que fazer essas ações mudaria muitas coisas.
Ao repetir gestos e ritualizar momentos, eles criariam novos mundos e significados.
Deixariam de pensar se são menos ou mais parecidos com os humanos e passariam a notar que podem ser muito mais próximos ou distantes de outras espécies. E se os humanos procurassem ir ao encontro desses novos rituais, eles também poderiam descobrir o mesmo.
Os lobos decidiram que um de seus rituais aconteceria sempre depois de um longo desencontro. Quando um membro voltasse ao grupo, todos parariam por alguns instantes, aproximariam seus corpos, encostariam os focinhos e, antes de seguirem viagem, lançariam um uivo coletivo para a floresta. Esta seria uma de suas formas de costurar novamente o grupo, lembrando uns aos outros que continuavam pertencendo à mesma história. Curiosamente, esse ritual fazia dos lobos parentes distantes das baleias-jubarte, que também reencontravam seus semelhantes por meio de longos cantos, e dos gibões, que todas as manhãs reafirmavam seus vínculos em duetos vocais que atravessavam a floresta. Já os polvos talvez estivessem mais distantes desse costume. Talvez escolhessem outro tipo de cerimônia, talvez silenciosa, talvez feita apenas de mudanças de cor, encenações ou do cuidado paciente na construção de um abrigo.
Foi então que os habitantes da ilha perceberam que os rituais nunca haviam servido para aproximar todos da mesma maneira, mas para aproximar cada espécie daquilo que ela precisava preservar.
E, quando humanos, lobos, mosquitos, baleias, polvos, fungos, abelhas e tantas outras vidas passaram a visitar os rituais uns dos outros, descobriram que existiam parentescos invisíveis, feitos não de sangue, mas de gestos. Aos poucos, compreenderam que cada ritual fazia emergir um mundo próprio: uma maneira singular de perceber, sentir e responder ao mesmo planeta. Esses mundos não competiam entre si nem se substituíam. Existiam como camadas entremeadas da mesma Terra, ora se tocando, ora se afastando.
Talvez seja isso que um encontro multiespécies possa produzir: não a criação de um único mundo comum, com o único e melhor regimento, mas a possibilidade de transitar e se deixar afetar, ainda que por instantes, pelos muitos mundos existentes.
Esta estória é um gesto de gratidão. Ela foi inspirada, sobretudo, pela obra “A casa dos animais”, de Vinciane Despret, cuja escrita nos convida a levar a imaginação a sério como prática de investigação. Também devo muito às leituras de Donna Haraway, Anna Tsing e outras autorias dos estudos multiespécies e da filosofia animal, que me ensinam que fabular pode ser uma forma de pesquisar: não para escapar da realidade, mas para ampliar nossa capacidade de percebê-la. Talvez ciência e histórias compartilhem uma mesma vocação: produzir boas perguntas, cultivar novos encontros e expandir os mundos que podemos imaginar e habitar.
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Dias 22/07, 29/07, 05/08 e 12/08 das 20h às 21h30
Iniciaremos uma jornada profunda de quatro encontros inspirada na profecia de Shambhala, uma história da tradição oral tibetana citada no livro Esperança Ativa de Joanna Macy. A profecia fala de um tempo de grande escuridão no mundo onde a ganância, o ódio e a ilusão dominam, causando destruição ambiental, injustiça social e sofrimento generalizado.
Nesse período um grupo de guerreiros de luz emerge. Eles não são guerreiros comuns que carregam escudos e espadas nas mãos. São pessoas comuns que usam a coragem, compaixão e sabedoria para agir com esperança ativa.
Prepare seu coração e venha fazer parte deste exército de guerreiros do bem!

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