Na coluna que abriu esta Travessia, falamos sobre ativismos no plural. Hoje, quero aprofundar uma das práticas mais poderosas que sustentam o ativismo delicado: a escuta.
Para ilustrar esta prática, compartilho com vocês a Assembleia de Todos os Seres, uma dinâmica que Paula Pontes e eu facilitamos na semana passada, no terceiro encontro da Conferência de Shambhala, uma jornada de quatro encontros que realizamos entre os meses de julho e agosto aqui na Comunidade Travessias. Uma experiência que nos ajudou a entender como podemos mudar um sistema do qual fazemos parte.
A dinâmica consiste em convidar os participantes para representarem um ser mais-que-humano. Um rio, uma floresta, uma rocha, uma ave, um peixe, um inseto, um mamífero ou um microorganismo. Em seguida, cada um responde algumas perguntas como:
Descreva como é ser esta forma de vida, os poderes e as perspectivas de que você gosta, as relações que te nutrem e quais são aquelas que você retribui.
Descreva os transtornos e as dificuldades que você talvez esteja passando agora, devido à perda de seu habitat, poluição, lixo tóxico, pesca de arrasto, desmatamento, indústria pecuária entre outras circunstâncias.
Apesar de ser uma dinâmica simples, pudemos experimentar como é estar na pele de outro ser e enxergar o mundo a partir de seu ponto de vista, sem a intenção de resolver um problema. Além disso, criamos um espaço para sermos ouvidos com empatia, atenção plena e presença.
Ouvimos a sabedoria do Rio que flui, a indignação da Terra, a paciência do Cristal Angelita, a astúcia da Raposa, o lamento da Borboleta Azul e os insights do Lactobacilo.
Nesta experiência, nada foi resolvido mas algo se moveu. A Assembleia de Todos os Seres nos permitiu vivenciar uma experiência que Goethe chamava de “empirismo delicado”:
Uma forma de observar que não separa o sujeito do objeto, que não apressa a compreensão, que confia no que emerge da relação entre quem vê e o que é visto.
Sue Davidoff e Allan Kaplan, autores do livro Ativismo Delicado, nos ensinam que não vemos coisas, mas sim significados. Para explicar esse fenômeno, Davidoff e Kaplan citam o cubo de Necker, uma ilusão de ótica em forma de cubo desenhado em perspectiva que pode ter duas interpretações possíveis, demonstrando como o cérebro processa imagens ambíguas. Se a mesma realidade pode ser percebida e interpretada de múltiplas formas, em que proporção a qualidade interna do observador afeta sua interpretação?
Otto Scharmer, professor sênior da MIT Sloan School of Management e co-fundador da Teoria U — uma metodologia inovadora de gestão de mudanças — adora citar a seguinte frase em suas palestras:
“O sucesso de uma intervenção depende diretamente do estado interno do interventor. “ - Bill O’Brien
Essa frase norteia minha atuação como consultor de gestão de mudanças e facilitador há anos. E ela conversa diretamente com o que vivemos na Assembleia de Todos os Seres. Porque, no fundo, a pergunta que a dinâmica nos fez não foi “como podemos resolver os problemas do mundo”, mas “de que lugar interno nós escutamos o mundo?”.
Scharmer dedicou boa parte de sua obra a essa questão. Ele nos convida a distinguir quatro níveis de escuta:
Downloading: escuta a partir do hábito. Reconfirma o que já sabemos.
Factual: escuta a partir de fora. Identifica informações novas que não conhecíamos.
Empática: escuta a partir do outro. Vê através dos olhos do outro.
Generativa: escuta a partir do campo de presença. Dá espaço para algo novo nascer.
Quando escutamos no nível generativo, a escuta deixa de ser passiva e vira cocriação. E é aí que ela se torna uma forma de ativismo.
Foi algo parecido que experimentamos na Assembleia. Ao escutar a indignação da Terra, o lamento da Borboleta Azul ou os insights do Lactobacilo, não estávamos apenas coletando informações sobre outros seres. Estávamos, por alguns instantes, sendo aquilo que escutávamos. Naquele momento, éramos sujeitos e objetos ao mesmo tempo.
Muita gente acha que a CNV é sobre comunicação — um protocolo de quatro passos para se expressar melhor e lidar com conflitos sem perder a cabeça. Mas a essência da CNV não é a comunicação, mas a não-violência. A prática da CNV não está na técnica, mas na compaixão e na intenção de aliviar o sofrimento próprio e das pessoas com quem estamos em conflito.
E aqui chegamos nas práticas essenciais de todo ativista delicado deve ter na sua caixa de ferramentas: a intenção compassiva, a atenção plena e a escuta generativa.
Porém, muitos erram ao tentar aplicá-los somente no mundo de fora e esquecem de si. Temos que ser delicados e compassivos conosco primeiro, para poder manifestar isso para fora. Não dá para escutar o outro com profundidade se não aprendemos a nos escutar. Não dá para olhar o mundo com o empirismo delicado de Goethe se não cultivamos, dentro de nós, a mesma compaixão e a mesma não-violência que desejamos ver no mundo.
Talvez seja isso, no fundo, que Kaplan e Davidoff chamam de ativismo delicado: a consciência como prática. A escuta como forma de agir. A transformação que começa em nós e se espalha pelo mundo — não pela força do grito, mas pela qualidade da presença.
Ficam aqui algumas perguntas para nos acompanharem:
Quando foi a última vez que você se sentiu verdadeiramente ouvido?
O que muda quando deixamos de convencer e passamos a escutar?
Que ser mais-que-humano você precisa aprender a ouvir?
E o que muda em você quando você deixa de lutar contra o mundo e começa a dançar com ele?
Em setembro, vamos atravessar juntos essa prática no Clube de Leituras da Travessias, estudando o Ativismo Delicado de Allan Kaplan e Sue Davidoff. Uma oportunidade de experimentar, na prática, aquilo que o livro propõe. Vamos nessa?

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