Assisti essa semana à pré-estreia de A Dança do Universo, o documentário brasileiro que ficará disponível na plataforma Aquarius que acompanha a trajetória e o pensamento do físico Marcelo Gleiser — desde suas raízes no Rio de Janeiro até a criação do Island of Knowledge, seu centro de estudos na Itália, onde ele tece a ponte entre os mitos antigos de criação e a ciência que hoje tentamos usar para explicar a mesma pergunta que a humanidade sempre fez: de onde viemos, e por que existimos.
Além do reencontro com pessoas muito queridas naquela sala, o que me tocou foi ver, projetada em tela grande, a história de um brasileiro que recebeu o Prêmio Templeton, a mesma honraria que um dia coube a Madre Teresa de Calcutá. É admirável ver alguém que caminhou entre a ciência mais rigorosa e a pergunta mais antiga da alma humana ser reconhecido assim, no mesmo patamar de quem dedicou a vida à compaixão. Penso agora que, no fundo, ambos têm a mesma busca.
O que me fez chorar foi ver um menino de seis anos que perdeu a mãe. Naquele instante, o físico reconhecido mundialmente desapareceu da tela, e o que ficou para mim foi uma criança tentando entender o vazio que uma perda daquele tamanho abre no chão de uma vida inteira. Como mãe, num instinto de proteção, pensei também no tamanho da dor dessa mãe que se foi. Reconheci ali algo que já vi, tantas vezes, nos consultórios, nos retiros, nas rodas de mulheres que carregam currículos impecáveis e uma criança interior que ainda procura por alguém que explique o que aconteceu. Por trás de toda busca intelectual grandiosa, é natural que exista uma ferida original pedindo para ser compreendida.
Sou fascinada por paradoxos. Eles aparecem no filme o tempo todo, às vezes de forma direta, às vezes sussurrados nas entrelinhas do discurso do próprio Marcelo e quero compartilhar alguns desses paradoxos com vocês.
O primeiro: o conhecimento científico é, ao mesmo tempo, imenso e ínfimo. Cada vez que o território do conhecimento se expande, também se expande o mapa do que ainda não sabemos. Não é a ignorância que cresce, mas sim a nossa capacidade de enxergá-la. E acho que vale a mesma honestidade para a nossa vida interior: quanto mais amadurecemos, menos certezas sobrevivem.
Isso me leva ao segundo paradoxo, que aparece discretamente no filme e que toca diretamente o meu trabalho: o autoconhecimento é, sim, um processo de crescimento — mas quanto mais nos conhecemos, mais percebemos que aquilo que entendemos sobre nós mesmos é fruto de uma única perspectiva, a nossa, parcial e limitada por definição. Jung já dizia que o Eu que enxergamos é apenas a ponta visível de um oceano psíquico muito mais vasto: a sombra, o inconsciente, tudo aquilo que não cabe na história que contamos sobre nós mesmos. António Damásio chega a um lugar próximo por outro caminho: o self não é uma entidade fixa que descobrimos, mas uma narrativa que o cérebro constrói, momento a momento, para dar sentido ao que o corpo sente. Ou seja: quanto mais a gente se conhece, mais a gente descobre o quanto ainda não se conhece.
A vida, por si só, é um milagre estatístico. Cientificamente, uma combinação improvável de elementos químicos e biológicos precisa se alinhar com precisão para que a vida simplesmente aconteça. Marcelo deixa isso muito claro no documentário e, ao mesmo tempo, coloca em perspectiva que nossos átomos são resultado de milhões, talvez bilhões de anos de poeira estelar. Somos, literalmente, feitos do que sobrou da morte de estrelas antigas. Isso nos torna, ao mesmo tempo, insignificantes diante da escala do universo e absolutamente únicos. Porque, segundo ele, essa combinação específica de poeira, organizada exatamente desta forma, para sermos exatamente quem somos, nunca aconteceu antes e nunca vai se repetir.
E aqui mora talvez o paradoxo mais bonito do filme: em um universo regido pela entropia, a lei física que empurra tudo, sempre, na direção da desordem, da dispersão, do caos, como pode existir um planeta tão perfeitamente ordenado a ponto de sustentar vida inteligente? A vida seria então, nesse sentido, uma ilha de organização temporária resistindo à correnteza natural do caos? Talvez seja por isso que ela pede tanto cuidado: não porque seja garantida, mas porque é exatamente o contrário disso.
São 10 bilhões de trilhões de galáxias, planetas demais para eu sequer tentar nomear um número exato. E ainda assim, até onde sabemos, a vida inteligente escolheu florescer aqui. Por que só aqui? E, mais intrigante ainda: será que pode existir inteligência sem vida, ou a inteligência é, ela mesma, uma expressão da vida tentando se compreender? (Passei duas horas conversando com meu marido a respeito disso e ainda temos muito assunto sobre o assunto!)
Uma coisa que Marcelo compartilhou, e que confesso ter me chamado bastante a atenção, foi a afirmação de que o uso intencional de psicodélicos mudou profundamente sua vida nos últimos cinco anos. É um tema que merece seu próprio espaço e prometo voltar a ele em outro artigo. Até porque, também mudou a minha vida. (Em breve o lançamento do livro “Águas que Curam” que escrevi após minhas experiências psicodélicas)
A mensagem final do documentário é, antes de tudo, uma celebração da vida e da Mãe Terra que a sustenta. É um lembrete de que precisamos cuidar desse planeta tão raro que nos foi dado. Pode até existir outro assim em algum lugar do universo. Mas a probabilidade, como o próprio filme deixa claro, é assustadoramente baixa.
Saí da sala pensando: talvez a ciência e a espiritualidade nunca tenham sido inimigas, são apenas duas linguagens diferentes tentando descrever a mesma reverência diante do mistério de existir. E esse aparente paradoxo entre ciência e espiritualidade é um dos que mais me fascinam atualmente.
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