A morte ou a quase-morte tornaram-se pontos centrais da minha curiosidade desde que eu quase morri. Por algumas vezes eu falei que eu passei por uma experiência de quase morte, mas, na verdade, descobri que eu quase morri, mas não tive uma experiência de quase morte. E isso é muito diferente. Mas não faz tanta diferença em quem eu me tornei. Vou contar um pouco sobre Experiência de Quase-Morte.
Uma Experiência de Quase-Morte (EQM), ou Near-Death Experience (NDE), refere-se a um conjunto de vivências subjetivas intensas relatadas por pessoas que atravessaram situações de risco extremo de morte. O termo foi difundido pelo psiquiatra Raymond Moody, a partir da publicação de Life After Life. Apesar da particularidade de cada relato, há padrões recorrentes que atravessam culturas e contextos: a sensação de sair do corpo e observar a própria cena à distância, uma profunda experiência de paz e ausência de dor, a travessia por um túnel em direção a uma luz descrita como amorosa e consciente, além de uma revisão panorâmica da vida, muitas vezes acompanhada da percepção emocional do impacto das próprias ações (De todas as características relatadas, a única com que eu me identifico na minha experiência é a ausência de dor, apesar de ter passado por quatro curetagens sem anestesia). Esses elementos frequentemente culminam em uma sensação de unidade e transcendência, seguida por um retorno ao corpo que, muitas vezes, é vivido com certa ambivalência.
Por décadas essa experiência foi tratada como alucinação, psicose ou simplesmente a imaginação de pessoas traumatizadas. Mas em 2001, um cardiologista holandês chamado Pim van Lommel publicou na revista The Lancet — uma das mais respeitadas do mundo — um estudo que mudou a história da ciência e da espiritualidade para sempre.
Van Lommel e sua equipe acompanharam 344 pacientes que sofreram parada cardíaca e foram ressuscitados em dez hospitais da Holanda ao longo de quatro anos. Todos estiveram clinicamente mortos. Todos foram entrevistados logo após acordar, e depois acompanhados por 2 e 8 anos. 18% relataram alguma EQM. 12% tiveram o que os pesquisadores chamam de “experiência central” — com elementos como saída do corpo, luz, encontro com falecidos e revisão de vida. Parece pouco? Mas considere que todos os pacientes foram considerados mortos em algum momento. Se a experiência fosse apenas uma reação química ao cérebro morrendo, todos deveriam tê-la. Ou pelo menos a maioria. Não foi o que aconteceu.
A explicação mais comum para as EQMs é a seguinte: o cérebro, privado de oxigênio, dispara neurônios aleatoriamente, causando alucinações. Faz sentido intuitivo. Só que os dados não confirmam isso.
Van Lommel verificou que a frequência das EQMs não tinha relação com:
O tempo que o coração ficou parado
A duração da inconsciência
Os medicamentos administrados
O medo que o paciente sentia antes da parada
Se fosse uma resposta ao estresse ou à falta de oxigenação cerebral, esses fatores deveriam importar muito. Mas não importaram. O que importou foi principalmente a idade: pessoas mais jovens tinham EQMs com mais frequência. E mulheres relatavam experiências mais profundas. Isso sugere que fatores ligados à plasticidade cerebral e à capacidade de memória podem influenciar quem consegue registrar e lembrar a experiência — não quem a tem.
Há outro detalhe técnico que vale a pena entender. Sabe-se, por estudos de eletroencefalografia, que o cérebro para de mostrar atividade elétrica em cerca de 10 segundos após a parada cardíaca. O eletroencefalograma (EEG) fica completamente plano. Um dos casos mais citados na literatura é o de uma jovem americana que passou por cirurgia para aneurisma cerebral. Seu EEG estava totalmente zerado durante o procedimento. Quando acordou, relatou uma EQM profunda, com saída do corpo e observações verificadas do ambiente cirúrgico.
Como pode existir experiência consciente com o cérebro eletricamente morto?
Van Lommel coloca a questão com toda a clareza: “A ideia até então assumida, mas nunca provada, de que consciência e memória estão localizadas no cérebro deve ser discutida.”
A consciência talvez seja o maior enigma que desafia o paradigma materialista: a ideia de que tudo o que existe pode ser reduzido à matéria e às interações físicas do cérebro. Se pensamentos, emoções e experiências subjetivas emergem apenas de processos neuroquímicos, como explicar a qualidade íntima do sentir — aquilo que não pode ser medido, apenas vivido? Essa pergunta abre uma fissura no materialismo estrito, sugerindo que a consciência pode não estar confinada ao cérebro, mas talvez se manifeste através dele, como um campo mais amplo que o utiliza como instrumento. Nesse sentido, a consciência deixaria de ser um “subproduto” da matéria para se tornar um princípio subjetivo da realidade — pelo menos é assim que eu entendo até agora.
As EQMs são fascinantes. Mas talvez o achado científico mais subestimado do estudo seja o que acontece depois da experiência. E é com esse que eu me conecto profundamente.
Nesse estudo, os pacientes que tiveram EQMs foram acompanhados por 8 anos. Ao longo do tempo, independentemente da profundidade da experiência, desenvolveram algumas mudanças consistentes e mensuráveis pelos pesquisadores:
Emocionalmente: tornaram-se mais empáticos, mais amorosos, mais vulneráveis emocionalmente. Passaram a aceitar melhor as outras pessoas.
Existencialmente: o medo da morte praticamente desapareceu. A crença em vida após a morte aumentou de forma significativa — não por fé religiosa prévia, mas como resultado direto do que vivenciaram.
Espiritualmente: o interesse pela dimensão espiritual da vida cresceu ao longo dos anos, especialmente entre aqueles com experiências mais profundas.
No cotidiano: passaram a valorizar mais as coisas simples. O materialismo diminuiu. A qualidade das relações tornou-se mais importante que as conquistas sociais.
Interessante ao ler esse estudo foi perceber em mim mesma que, ainda que não tenha tido uma EQM como caracterizada pela literatura, desenvolvi muitas, senão todas, dessas mudanças na minha vida. Acredito que sou muito mais compassiva com as pessoas de forma geral e as julgo bem menos; não tenho medo da morte, e me tornei uma pessoa profundamente espiritualizada, mas não religiosa; valorizo muito os momentos ordinários e cotidianos da vida, entendendo a beleza do simples.
Curiosamente, essas mudanças não aconteceram de uma vez. O processo levou anos — e muitas vezes foi dificultado pela reação das pessoas ao redor. Contar uma EQM para amigos, família ou até médicos costuma gerar ceticismo, ridicularização ou preocupação com a saúde mental do relator. Isso faz com que muitos suprimam ou adiem o processo de integração da experiência. Em outras palavras: a experiência em si não é traumática. O trauma vem da rejeição social que se segue.
Como falei, depois da minha experiência me tornei espiritualizada.
A inteligência espiritual — conceito que descreve a capacidade de encontrar sentido profundo, de conectar experiências pessoais a uma dimensão maior da existência — não é uma crença religiosa. É uma função humana. E as EQMs são um laboratório interessante para estudar a espiritualidade.
Pessoas que passaram por uma EQM não precisam mais acreditar em algo além da morte física. Elas têm um ponto de referência experiencial. E esse ponto transforma a forma como vivem, como se relacionam, como encaram o sofrimento e como percebem o tempo que têm.
O estudo de Van Lommel mostra que a consciência pode operar independentemente do funcionamento cerebral. Que experiências de profundidade espiritual extrema deixam marcas verificáveis e duradouras no comportamento humano. E que o medo da morte — talvez o maior gerador de ansiedade e sofrimento na vida moderna — pode ser completamente reorganizado por uma única experiência.
Van Lommel não é um místico. É um médico cardiologista. O estudo foi publicado no The Lancet. Os dados foram coletados prospectivamente, com grupo controle, análise estatística rigorosa e acompanhamento de quase uma década. Um estudo científico.
A conclusão não é que “existe vida após a morte” — isso está além do que a ciência pode afirmar no paradigma em que ela trabalha hoje. A conclusão é que as explicações puramente fisiológicas para as EQMs são insuficientes. A consciência humana é mais complexa do que nossos modelos atuais conseguem descrever. E experiências de limiar entre vida e morte produzem transformações profundas, mensuráveis e duradouras nos seres humanos que as vivenciam.
É a ciência chegando à fronteira do que ainda não sabe e que talvez não consiga provar da forma que fazemos ciência hoje.
Um dos momentos mais perturbadores e curiosos do estudo é um relato colhido durante a fase piloto da pesquisa. Uma enfermeira do centro coronário recebeu um homem de 44 anos trazido de ambulância, inconsciente. Durante a ressuscitação, ela retirou a dentadura superior dele e colocou sobre um carrinho de equipamentos.
Mais de uma semana depois, quando o paciente já estava na enfermaria, ao ver a enfermeira, ele disse: “Ah, a senhora sabe onde estão meus dentes.”
Ela ficou atônita. O paciente descreveu o carrinho, a gaveta deslizante, o local exato onde a dentadura foi colocada. Descreveu o quarto, os profissionais presentes, seus rostos. Disse que via tudo de cima, enquanto tentava, desesperadamente, fazer os médicos entenderem que ele ainda estava vivo.
Durante todo esse tempo, ele estava em coma profundo, sendo ressuscitado.
Esse tipo de relato — chamado de experiência verificável — é o que deixa os neurocientistas mais desconfortáveis. Porque não existe modelo neurológico que explique como alguém inconsciente, com o cérebro sem fluxo sanguíneo, pode perceber com precisão o ambiente ao redor.
Sempre fui curiosa pelo cérebro. Agora, sou fascinada pela mente.
Referência principal:
Van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., & Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. The Lancet, 358, 2039–2045.
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