Fomos ensinados a controlar, a engolir o choro, a não demonstrar emoções. A gente precisa ser forte e não dar muita atenção para as emoções. A gente passou a vida acreditando que maturidade emocional significava sentir menos.
Fomos criadas numa cultura que trata o sentir como ruído. Que as emoções são uma distração perigosa, algo que atrapalha a decisão “racional”, que precisa ser gerenciado, escondido, superado, excluído. Aprendemos a admirar quem não chora em público, quem “mantém a compostura”, quem parece imune às emoções. E, sem perceber, fomos aceitando uma ideia perigosa, a de que ser forte é sentir menos, ou abafar os sentimentos, ou simplesmente não demonstrar o que sente.
Só que a ciência já provou, faz tempo, que essa ideia é uma mentira bem contada. O neurocientista Antônio Damásio dedicou boa parte da vida a demonstrar que a emoção não é o oposto da razão. Ela é o chão sobre o qual toda razão se ergue. Ele resume isso em uma frase que uso muito: “não somos seres racionais que sentem emoções: somos seres emocionais que, de vez em quando, pensam.”
Essa frase inverte tudo o que nos ensinaram. A gente cresce acreditando que primeiro pensa, decide, age e que a emoção é só um efeito colateral, uma reação que às vezes atrapalha o percurso. Mas é o contrário: sentimos primeiro. Sempre. O corpo registra antes de a mente ser capaz de compreender. E o pensamento, quando chega, já está sendo atravessado por aquilo que o corpo sentiu antes. E foi Damásio que escreveu algo que se tornou pilar de tudo o que eu ensino hoje: “os sentimentos são a experiência mental daquilo que se passa no corpo.”
Aquele aperto no peito antes de uma conversa difícil, o estômago que revira antes de uma decisão, o cansaço que chega sem motivo aparente numa fase de transição são sinais do corpo em ação, falando primeiro, e a mente tentando, depois, dar nome ao que já estava sendo sentido. Quando ensinamos alguém a ignorar isso, não ensinamos ninguém a ser mais racional. Ensinamos a se desconectar da própria fonte de informação mais honesta. É por isso que cada vez mais as pessoas estão desconectadas delas mesmas.
Acredito mais do que nunca na ideia de que precisamos sentir mais. Estamos desconectados de nós mesmos, tentando anestesiar uma tecnologia que vêm evoluindo há anos e numa cultura social com regras que ignoram nossa própria existência ancestral. Não amadurecemos quando deixamos de sentir. Amadurecemos quando deixamos de fugir da Inteligência do Sentir.
E é aqui que a coisa fica sagrada, não no sentido místico, mas no sentido de que merece ser tratado com reverência. Porque Damásio vai além da neurociência quando escreve que “a emoção e o sentimento são o suporte daquilo a que chamamos alma ou espírito.”
Pense nisso: Quando alguém te ensina a anestesiar o que sente, desde cedo, com frases pequenas, ditas sem maldade, mas repetidas até virarem crença tatuada na sua mente, não está te ensinando a lidar melhor com a vida. Está, sem saber, de forma inocente, apenas repetindo o que também foi aprendido, te afastando daquilo que te sustenta por dentro. Porque se a emoção é o suporte da alma, então cada vez que reprimimos um sentimento, não escondemos só uma reação, mas abafamos um pedaço de quem somos.
Eu penso muito nas mulheres que chegam até mim dizendo “eu sinto demais”, como se isso fosse uma confissão de fraqueza. E eu sempre devolvo a mesma pergunta: demais para quem? Para o padrão de quem te ensinou que sentir pouco era sinônimo de força? Porque a verdade é o oposto do que nos disseram: sentir não é o que te desorganiza, é o que te reconecta. A voz do medo e a voz do ego social é que insistem em nos convencer de que sentir é perigoso, enquanto essa conexão genuína com o sentir é um espaço do existir.
Não existe inteligência emocional sem permissão para sentir primeiro. Não existe presença sem corpo. Não existe alma sustentada por uma vida vivida no automático. E não existe travessia possível enquanto a emoção continuar sendo tratada como intrusa num lugar que sempre foi o lugar dela.
Por isso eu costumo dizer: quanto mais a gente se transforma, mais perto de quem a gente é a gente se torna. E transformação nunca começou pela cabeça. Começa sempre pelo corpo, pelo sentir, pelo que a gente finalmente permite atravessar em vez de segurar.
Se você se sente desconectado do sentir, participe dos 21 dias de meditação guiada para reconexão si mesmo: https://lp.toniacasarin.com.br/bio/
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