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Tó Madeira · Jul 7, 2026

Talvez este Mundial esteja a dizer mais sobre nós do que sobre quem o organiza

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Edgar Macedo · Tó Madeira

O presidente de um dois países organizadores do Mundial telefonou à FIFA a mandar retirar o cartão vermelho a um atleta da sua seleção. Só isto, por si só, já é suficiente para com alguma segurança afirmar que este Mundial está a ser pior e mais grave que o do Catar. Outras coisas existiriam para acrescentar à conta, mas já foi feito um episódio sobre isso. Mas curiosamente este Mundial não está a ser como o do Catar ao nível das indignações públicas. Nas declarações, na social media, nos stickers e nas faixas. Mesmo nos locais e entre as pessoas de que normalmente menos se espera o alinhar no circo vai-se percebendo que se bate palmas na assistência.

Nada do que se tem vindo a passar parece perturbar o interesse de quem assiste a este Mundial. Porque há uma televisão na Internet que é uma novidade, com humoristas e tudo, porque a família do Ronaldo, e o Ronaldo, e os comentadores amigos do Ronaldo, e os outros que segundo o próprio não gostam do Ronaldo, têm muita coisa para dizer, porque o primeiro-ministro afirma ser do povo porque gosta de bola e por isso vai ao estádio (como se quem estivesse nos estádios fosse do povo tendo em conta o preço dos bilhetes) ou porque existiu Cabo Verde. Esse, segundo observo, terá sido o grande fator de diferenciação. “Eu não vejo o Mundial, só vejo Cabo Verde”. Mesmo que em Cabo Verde a federação e a FIFA tenham, ao que tudo indica, tido conhecimento prévio de um caso de violação de um jogador contra uma trabalhadora ao serviço da seleção, que, alegadamente, não só sofreu a agressão como acabou despedida por ter apresentado queixa.

Porque as pessoas precisam de festa e não dá para estar sempre a amuar com o Mundial como faz aqui este que vos escreve. Porque passa-se de meio-ativista-contra-o-futebol-negócio a simplesmente rezingão. Escrevo este texto enquanto joga Portugal. Fosse num daqueles países sem democracia e que não se adaptam aos valores da sociedade ocidental e tinha provavelmente uma força de autoridade a entrar-me casa dentro por falta de patriotismo. Embora não seja certo de que se eu fosse muito patriota e festejasse as vitórias da minha equipa muito alto também não visse o meu cão ser assassinado a tiro, como acontece nesses países bizarros onde o povo vive amedrontado pelo seu presidente.

Como sempre o Mundial é um reflexo da vida. Há políticos presentes, chefes de estado, atores, cantores, e em nenhum se vê uma intenção de indignação. Não há solidariedade entre jogadores, entre treinadores, entre federações. Ou até mesmo entre chefes de estado desta Europa tão unida e que faz gala de comungar sempre dos mesmos valores. E nem mesmo entre árbitros, porque era uma simples questão de bom senso boicotarem os jogos, afinal ao que tudo indica nada garante que ao tomarem uma decisão contra a seleção dos Estados Unidos ela não venha mais tarde a ser cancelada e revertida por um telefonema do presidente do país.

Nas conferências de imprensa o jogador-estrela aponta jornalistas a dedo porque diz que não se esquece das caras que não gostam dele, mas faltam-lhe dedos para usar o seu estatuto para atacar a FIFA. Ir contra o que está abaixo de ti porque falta a coragem de ir aos que estão acima de ti. Como aquela senhora que no incêndio de Vouzela tornou-se viral em certa classe política ao afirmar que “os do Rendimento Mínimo deviam estar aqui a ajudar”. Porque aparentemente “recebem e não fazem nada”. Óbvio que ela podia ter dito “aqueles consultores executivos de empresas, que ganham aos 5 e 6 mil euros por mês só para irem de três em três meses ao escritório assinar uma folha é que deviam estar aqui”. Mas fomos ensinados a atacarmo-nos entre nós e a dizer “sim sotor” a outros.

Há um presidente de um país que telefonou à FIFA a mandar retirar o cartão vermelho a um jogador. E o nosso primeiro-ministro, que afirmou ser um dever estar presente no estádio, não teve uma palavra sobre o assunto. Mas teve várias palavras sobre Ronaldo, insistindo naquela ideia de que temos todos muito para nos inspirarmos com ele. Calculo que uma das principais lições seja a de não nos metermos com quem não devemos e sabermos muito bem a quem apontarmos o dedo e a quem ter respeitinho.

Este Mundial talvez esteja a dizer mais sobre nós do que sobre quem o organiza e o orquestra nos bastidores. Ainda vamos a tempo de antes da final ver um jogo repetido porque o resultado não agradou ao presidente de um dos países organizadores, que isto nestes povos sem os valores das democracias ocidentais já se sabe como é.

E nós vamos todos assistir à repetição do jogo encolhendo os ombros e entre sorrisos dizer “o cabeça laranja é maluco, lá o gajo, o que é que queres, politiquices mas isso eu não misturo com o futebol, leva mas é a cerveja que já combinei com mais 10 pessoas e vemos todos juntos, vai aquela de quem tu gostas e leva uma amiga, há caracóis”.

Tudo isto está a parecer um daqueles filmes de experiências sociais em que se testa o absurdo e percebe-se que as pessoas alinham com aquilo, cumprem à risca e tornam-se mesmo cúmplices. Em que percebemos que afinal somos capazes de assistir com indiferença ao maior dos ultrajes e seguir a nossa vida. Um caso atrás do outro, antes e durante a competição. Um presidente e uma nação que fazem daquele o seu evento e a ele aplicam as suas próprias regras. Aceitamos, assistimos, ficamos indiferentes.

Ou provavelmente estamos indiferentes porque aconteceu aos outros. Foi com a Bélgica, não foi connosco, eles que se mexam. Se fosse connosco vinha a indignação, os pedidos de intervenção do governo, do presidente da república, do autarca, do Ronaldo e de mais alguém, que isto é um escândalo. Mas não foi connosco. Por isso liga a televisão que está quase a começar.

Porque é “a seleção” e não se pode falhar com “a seleção”, o quê, tu não vês “a seleção”?

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Read the original on tomadeira.substack.com

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