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Thiago Lira’s blog · Jun 27, 2018

10 Livros que me Marcaram

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Queria muito voltar a escrever mas infelizmente falta tempo. Eu tenho várias ideias mas começar os textos tem sido um pouco difícil, então pensei, porque não fazer um tema fácil e aproveitar o impulso? Eu sempre vejo canais do Youtube, blogs e afins fazendo textos ou vídeos enumerando listas. O motivo do sucesso desses textos deve ser que eles são fáceis também de consumir. E além de tudo eles dão vontade de clicar, é como se fosse um mistério que nós não sabíamos que existisse até o instante de vermos a headline: Dez livros que me marcaram”. O que eu queria deixar claro é que não é o tipo de coisa que eu vou fazer regularmente neste blog. Eu não quero textos que capturem cliques, eu queria algo que agregasse alguma coisa para quem lê. Mas que também agregue algo para mim que os escreve. Como cada resenha ficou um pouco grande então eu vou dividir essa série em alguns pequenos textos, cada um com apenas um ou dois livros.

Então vamos começar com o meu critério, o que eu quero dizer por livros que me marcaram”.

A boa literatura tem essa magia de expandir nossos horizontes. Seja ficção ou não-ficção, um bom livro se mistura às suas próprias ideias de uma maneira que você não reconhece mais sua própria mente antes de ter lido esse livro. Os temas do livro são temas agora desenvolvidos nas suas próprias reflexões sobre o mundo. As personagens são como pessoas que você tenha conhecido intimamente. Esses 10 livros que eu escolhi são desses livros que eu não consigo mais dissociar da minha visão do mundo. São livros os quais eu estou cansado de lembrar no meio de um bom papo, e que igualmente meus amigos estão cansados de receber como recomendação. Antes de começarmos, um outro lembrete: Já foi bem chato ter que escolher só 10 livros favoritos, então essa lista não está necessariamente em nenhuma ordem, dado que o livro se encontra nela.


1 – Stories of Your Life and Others — Ted Chiang (1998)

Essa coletânea de contos de ficção científica foi algo que me pegou de surpresa. Eu nunca tinha ouvido falar desse autor, e de repente eu estou junto dele pensando sobre temas dos mais filosóficos, refletindo sobre o papel da tecnologia e da religião na vida das pessoas e no futuro da relação das pessoas com as descobertas da ciência. Para mim, cada conto desenvolve uma pergunta da forma E se?”.

Logo no primeiro somos jogados na jornada fantástica da construção da Torre de Babel. O que implicaria se a humanidade realmente tivesse se juntado nessa empreitada? Qual seria a logística de construir uma torre que leva meses para ser escalada? Talvez várias cidades independentes surgiriam em diversos andares da torre. Crianças viveriam sem nunca precisar descer, visto que existe uma rota de suprimentos sempre subindo. (Mesmo que cada remessa leve meses para completar seu circuito completo!).  E o mais importante, o que Deus diria para os humanos no fim de sua jornada para ter contato com Ele, isso estaria em seus planos?

Outros contos são de uma realidade mais próxima a nossa.

Um conto sobre cientistas descobrindo um método para desligar o nosso circuito cerebral que identifica a beleza. Como funcionariam relacionamentos nessa realidade? Ou mais importante, como funcionariam relacionamentos em que uma das partes vê beleza e a outra não?

E outro sobre uma matemática que descobre que no coração de toda matemática está um erro irreparável. Qual seria então o valor da matemática quando seu formalismo não tem mais nenhum valor? Quando sua beleza é reduzida a um conjunto de regras que não tem a menor obrigação de funcionar? Afinal a matemática é uma descoberta (como se pode interpretar de Platão) ou uma invenção? A linguagem do universo ou uma aproximação que por acaso dá certo?

E claro, o conto homônimo ao livro, adaptado para o cinema como A Chegada”. Que também responde a uma questão: E se as pessoas pudessem ver sua vida inteira , passado e futuro, exposta como uma linha a frente de seus olhos. Será que tomaríamos as mesmas decisões? Qual seria o sentido da dor nesse caso? Se você soubesse que em algum ponto depois de um mar de felicidade você conheceria a tristeza como nunca antes, essa felicidade ainda vale a pena? Afinal, nós vivemos pelo destino ou pela viagem?


2 – Se um viajante numa noite de inverno — Italo Calvino (1979)

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante na noite de Inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido.”

E assim começa um dos romances mais curiosos que li na minha vida. Um romance no qual  o protagonista é ninguém menos que você, caro leitor.  Para quem ler todas as minhas resenhas , não vai ser difícil perceber que eu sou fascinado por todo tipo de metalinguagem (vide livro 3), e esse livro é justamente um livro sobre livros, literatura sobre literatura. A história começa com você, leitor, comprando o novo romance de Italo Calvino na livraria, mas ao começar a lê-lo, logo percebe um problema! Esse livro em suas mãos contém apenas o começo de Se um viajante numa noite de inverno”, e as mesmas páginas repetidas depois disso! Ao trocar o livro na livraria no dia seguinte um outro problema: Você agora está com outro livro, que se chama Fora do povoado de Malbork.  O que se passa então no restante do livro são diversas linhas narrativas intercaladas. A história do leitor” na sua busca pelo restante do livro, e em paralelo, o começo de diversas outras histórias lidas pelo leitor na busca de Se um viajante numa noite de inverno”. Somos apresentados a diversos começos diferentes de romances nessa busca, todos intercalados pela história do leitor”, que inclusive encontra o amor durante a sua jornada.

O que temos aqui é um romance que faz uma homenagem a diversos gêneros de romance.  Um livro que nos lembra o poder que um livro pode ter, as maneiras que nós podemos nos entreter com uma história. Quando Calvino tece essa história composta de histórias com o leitor como protagonista, vemos uma metáfora para o eterno poder de entreter da literatura, seja em romances contemporâneos e pós-modernos como esse, ou seja em todo o legado deixado por milênios de inventividade humana. Todos com a desculpa de nos contar uma boa história.

3- Gödel, Escher, Bach (G.E.B) — Douglas Hofstadter (1979)

Nenhum tipo de resenha ou resumo faz juz a maestria dessa obra, nada pode preparar o leitor para a aventura mista pelos ramos da lógica, matemática, música, filosofia, biologia, filosofia, arte e até Zen Budismo! Eu não tenho vergonha de dizer que eu comprei esse livro imediatamente sem nem pensar apenas pelo título e sumário, e que bom que o fiz! Afinal, COMO possivelmente um mesmo livro poderia relacionar esses três grandes homens em alguma espécie de prosa coerente?

****Uma pequena ressalva antes do resto dessa resenha. Esse livro DEFINITIVAMENTE não é para quem não gosta de matemática e exatas embora ele também fale sobre arte e música. Mas essas são apenas ferramentas para em serviço do tema principal, que é a matemática. Então não vi como escapar de destacar esse viés matemático nessa resenha.

Talvez o primeiro nome soe estranho para alguns leitores, então uma breve explicação: Kurt Gödel foi o matemático que abalou os alicerces filosóficos da matemática (Um tema também explorado no segundo livro da lista!). Seu trabalho gerou dois resultados fascinantes, que basicamente mudaram o que se espera da geração de novo conhecimento matemático. De maneira informal são esses dois resultados:

-Nenhum conjunto consistente de axiomas* é capaz de provar todas as verdades sobre a aritmética dos números naturais.

-Esse conjunto de axiomas não pode provar a sua própria consistência.

A verdade” matemática precisou ser reavaliada depois de Gödel. Planos de deixar a matemática completamente embasada em lógica, uma extensão do próprio pensamento lógico, foram basicamente abandonados. Afinal, a pura lógica parece não ser capaz de chegar de atingir toda a verdade proposta pelos seus axiomas. Vamos parar apenas um instante para pensar nas implicações disso: Desde os gregos nós tinhamos essa crença de que a verdade matemática era descoberta como ilhas estão esperando para serem descobertas. Como se toda a verdade possível estivesse esperando o matemático que desbravasse sua costa. E Gödel nos tirou essa segurança, agora não podemos afirmar que os nossos problemas um dia terão solução! O que é verdade não mais necessariamente tem uma prova que ateste esse fato! E além disso, quem nos dá agora o atestado de que a matemática faz sentido, dado que ela mesma não pode provar a própria consistência?

Mas então, como é possível matematicamente provar que a matemática é incompleta? Aí vem a genialidade de Gödel, e o tema principal de G.E.B:

Auto-referência.

Sabem aquela velha piada que se você chegar para um robô e falar Essa sentença é falsa” ele vai explodir? Gödel conseguiu essencialmente fazer qualquer conjunto de axiomas gerar o teorema Esse teorema é falso” (Se alguém achar que isso é ok, então tentem pensar se esse teorema é falso ou não). A ideia geral é codificar teoremas matemáticos como números, de modo que eles tem duas interpretações, uma em meta-matemática codificada e uma numérica!

É como se um número como 18319318901301 pudesse ao mesmo tempo significar Todo número multiplicado por 1 é igual a ele mesmo”.  Parece algo sem nexo, mas com esse jeito extremamente inteligente de associar todos os teoremas matemáticos possíveis a um número, Gödel conseguiu forçar uma auto-referência possibilitando que teoremas falassem sobre sí mesmos, se referindo ao seu próprio número. Algo como O teorema cujo número é G não pode ser provado dentro desse sistema axiomático”. (Ok, isso é difícil de engolir caso você nunca tenha ouvido falar disso antes, outro motivo para ler esse livro!)

A questão que Gödel trouxe à tona é muito mais séria do que um mero formalismo matemático. Afinal, ele provou que a própria lógica (de primeira ordem) traz a semente da sua incompletude apenas por estar instanciada. E Douglas Hofstadter de maneira igualmente brilhante mostra uma interpretação desse resultado na música, arte, biologia e no próprio fenômeno da consciência! Ele batizou de strange loop todas essas anomalias de auto-referência como os teoremas de Gödel. A tese do livro é que nossa própria consciência pode ser emergente da mesma estranheza presente no strange loop matemático descoberto por Gödel.

Nós somos capazes de pensar, e pensar sobre pensar, e pensar sobre pensar sobre pensar. O coração da tese deste livro é que o nosso eu” é resultado de um epifenômeno: um fenômeno complexo emergente de um substrato simples, que é mais do que a soma de suas partes. Assim como o resultado bizarro de Gödel, nós somos neurônios (como teoremas) que buscam entender neurônios por meio de um conceito macroscópico que nós chamamos de experiência” (como teoremas que falam sobre a própria matemática). Hofstadter usa em sua obra uma coleção de metáforas e exemplos brilhantes de como visualizarmos esse seu insight, de modo que qualquer um com um mínimo de apreço pelas Exatas vai levar todas essas histórias e personagens para o resto de sua vida. O livro tece relações inesperadas e provocantes usando todo tipo de conhecimento humano, todo capítulo começa com um conto baseado em personagens de Lewis Carrol vivendo paradoxos matemáticos e filosóficos e reagindo a eles. A única ressalva que eu tenho com esse livro, é que ele pode fazer o leitor ficar completamente viciado em metalinguagem e nunca mais ver o mundo da mesma forma.  

E onde Escher e Bach entram nessa história de auto-referência e meta-linguagem? Sobre o primeiro talvez essa sua gravura possa falar por si mesma. O resto da viagem fica por conta desse livro fantástico.

Drawing Hands” — Escher


4 — Trilogia Fundação — Isaac Asimov (1951)

Acho que só alterando um pouco minhas próprias regras eu posso colocar aqui uma trilogia valendo pelo conjunto da obra. Eu já tive conversas extasiantes sobre Fundação. Eu nunca tinha lido algo com o escopo tão grandioso e bem desenvolvido como o fim e o renascimento do império galáctico humano.

Somos apresentados a esse império cuja duradoura glória de milênios está no fim e sua lenta queda é iminente. Os livros nos transportam em diversos pulos de séculos na visão de cientistas e líderes que previram a caída do império e então planejam e executam um plano para o seu eventual renascimento, um plano de dezenas de séculos!  O começo do primeiro livro nos coloca na mente de Hari Seldom, que desenvolve basicamente sozinho um método para predizer os caminhos da sociedade, um método tão avançado e complexo que precisa de pelo menos alguns trilhões de humanos para ter efeito de previsão ( O que era o caso no império humano espalhado pela galáxia!). É como se a humanidade fosse aproximada de um gás ideal com todas as suas trilhões de moléculas. E esse homem descobre que o império está no seu fim.

Não é minha intenção diminuir a saga de Star Wars, mas estamos falando de algo completamente diferente aqui. Enquanto Star Wars também se passa em um império que se estende por toda a galáxia, os eventos dos filmes são localizados em alguns poucos planetas que detém o poder de decisão do destino da galáxia como um todo. Em Fundação, Asimov não se dá a esse luxo, não completamente pelo menos. Estamos falando de uma visão orgânica de um império de um tamanho inimaginavelmente grande. Quando esse império galáctico cai, as ondas políticas desse evento levam séculos para atingir as bordas da galáxia! O universo mergulha em uma nova era feudal estelar que poderia levar dezenas de milênios para se recuperar! A história desse livro é sobre o plano mais audacioso já imaginado na ficção científica, um plano que leva em conta a emergência de novas forças militares, religiões e mutantes ao longo de séculos. Um plano pensado por um homem, mas levado a cabo graças a determinação e audácia de tantos outros ao longo das gerações.

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