eu digo-te, encontrei um desenho. encontrei um desenho que fiz para ti. tu estendes a mão, estamos as duas sentadas no chão, está quase noite, tu ligas a luz do alpendre. fiz este desenho para ti. que idade tinhas. está aí a data. 2003. tinhas oito anos então. sim, eu aceno com a cabeça. tenho oito anos e peso mais ou menos vinte quilos e estou no topo de uma montanha com a minha mãe e ela olha em frente não sei para onde, mas sempre em frente e eu tento agarrar-me à saia dela, ela tem uma saia comprida, castanha com flores pequeninas, mas não consigo, o vento empurra-me. se nos vissem de baixo só te veriam a ti, mãe, as meninas de oito anos ainda não são visíveis no cimo da montanha quando se olha de baixo para cima; ainda não se vê nada, só serão visíveis aos nove anos ou mais tarde ainda e por isso agora és só tu, e se o vento me empurrar para a beira ninguém vai dar conta, eu vou cair e só me vão ver quando estiver cá em baixo. tenho as jardineiras vermelhas vestidas, são as minhas preferidas não queria morrer com elas e por isso começo a chorar, limpo o nariz e os olhos à manga da camisola às risquinhas que visto. lá em baixo as pessoas olham para cima e veem-te a ti, não me veem a mim, tu não me vês talvez também; será que as meninas também só ficam visíveis para as mães mais tarde? se calhar aos oito anos ainda não me podes ver — se calhar é por isso.
/ tenho quatro anos e estamos no miradouro que dá para as escarpas do rio e à nossa esquerda está aquele prédio grande em construção que demorará tanto a ser concluído que vai demolido um dia, engolido pela terra, uma nuvem de pó, para depois ser construído outra vez. ainda não há shopping no horizonte, e por isso, à nossa frente, temos apenas o rio, a ponte de ferro vermelha e depois nada, o céu todo inteiro para nós. é agosto e está muito calor, mas em poucos instantes vai ficar tudo muito frio porque a lua se vai pôr à frente do sol e de repente será noite e nós todos piscaremos os olhos incrédulos debaixo dos óculos escuros que nos deram na farmácia, os meus têm a armação de papel em rosa-choque com purpurinas, pelo menos é assim que me lembro; quando o sol voltar, irá refletir-se nos brilhantes e eles irão refletir-se nos teus olhos verdes. é o último eclipse do milénio, é talvez a minha primeira memória de sempre. tenho quatro anos e estou contigo empoleirada nas grades do miradouro, estou contigo, não com o pai, contigo, nós e outras dezenas ou centenas de pessoas a olhar o céu, a ver o sol a parar de arder por um pouco, e, ainda assim, eu não sei se devo olhar para o céu ou para ti. o céu está tão tão tão azul e depois tão escuro, eu estou tão feliz que quase posso rebentar de tão cheia, saltito com as mãos agarradas às grades ferrugentas, agarras-me o braço para parar, ainda vais partir os dentes. eu salto na mesma e salto e salto e o eclipse acontece, tu saíste do trabalho para vir comigo vê-lo, ou talvez não tenhas ido trabalhar hoje, ou talvez estejas de férias, ou talvez esta seja a altura em que trabalhas do outro lado da rua e só vieste quinze minutos comigo e depois o pai vem-me buscar e tu vais voltar para o trabalho, não sei, o resto do dia não existe, o resto do ano não existe, eu penso que vou viver para sempre.
/ eu digo-te, encontrei um desenho. um desenho que fiz para ti. quando era pequenina. o desenho é de uma paisagem, como quase sempre, umas montanhas e o sol e as nuvens, mas o que importa são as letras escritas a lápis de cor, incertas, infantis, eu tinha oito anos, não te esqueças, e as letras dançam e dão o braço umas às outras e engancham-se e formam muitas palavras em muitas línguas que eu não conheço, talvez procurem as melhores línguas para as filhas falarem com as mães e as mães com as filhas, até que ficam quietinhas e respiram fundo e eu respiro fundo e tu respiras fundo e olhas para as letras juntinhas que agora formam palavras, e as palavras são, desculpa por todo o mal que te fiz.
/ não me lembro de que mal te tinha feito, tu também não. ris-te e dás-me o desenho de volta. eu tinha oito anos na montanha e quatro no miradouro e talvez treze quando me mandaste pôr de joelhos no chão da sala, a tijoleira fria contra a minha pele a arrepiar-me como se me esfregassem cubos de gelo nas gengivas, e me olhaste de cima para baixo e me obrigaste a olhar de baixo para cima e implorar por perdão. durante muito tempo eu não peço e tu empurras a tua mão contra a minha cara, os anéis dourados e gordos imprimem-se na minha bochecha, e os teus dedos puxam o meu cabelo que é da mesma cor que o teu, até que eu peço desculpa e tu me deixas ir. eu tenho trinta anos quando te faço chorar com a cara escondida nas mãos que são mais velhas do que tu, e quando soluças e dizes à minha irmã como te faço sentir sozinha e como sempre, sempre, sempre fui assim. assim. eu tenho trinta e um anos agora, quando te ris, me devolves o desenho, te levantas e vais para dentro e eu continuo sentada no chão. de repente estamos as duas sozinhas no mundo, penso, mas depois reflito melhor e apercebo-me de que sempre estivemos. ou de que sempre pareceu assim, de certo modo. não importava o que existia à nossa volta porque eu acabava sempre puxada para ti, para dentro de ti, para fora de ti de novo, e tu para mim, e que importava se existiam todas as outras pessoas e coisas se nada te fazia tão triste como eu, todas as mães são os bodes expiatórios do mundo e todas as filhas são os bodes expiatórios das mães e em trinta e um anos não houve mais ninguém no mundo, era sempre mãe mãe mãe, Carolina Carolina Carolina, e éramos como gatos a lamber com as suas línguas pequeninas cor-de-rosa os fundos de taças que já não têm leite, éramos como bocas abertas na terra a tentar abocanhar algo, éramos como galinhas de bico aberto a arrancar a pele uma da outra, o meu sangue, o teu sangue, obcecadas uma com a outra — e ainda assim. ainda assim. passaram tantos anos e não passaram nenhuns, não passou tempo nenhum e passou todo, já é noite e os mosquitos dançam em redor da lâmpada do alpendre, viram-se ao contrário, encostam a cabeça à luz até que quase lhes expludam os olhos como se olhassem para o eclipse de 1999 sem óculos, esborracham-se contra o vidro do candeeiro, caem comigo no buraco.
/ não me lembro de que mal te tinha feito, talvez tenha dito a verdade quando devia ter dito uma mentira, mas tu e o pai sempre me disseram para contar a verdade e por isso eu nunca entendi quando era para mentir. lembras-te de quando fomos visitar a tia ao hospital e eu não podia entrar porque ainda não tinha dez anos e vocês pediram-me para eu dizer que os tinha, mas quando chegámos à porta e o segurança me perguntou eu disse que tinha nove, mas os meus pais me tinham pedido para dizer dez? o pai achou muita piada, mas eu lembro-me de que tu ficaste muito chateada comigo, ainda que algo na sinceridade infantil tenha comovido o segurança e ele tenha acabado por me deixar passar. vocês sempre me ensinaram que eu tinha de dizer a verdade, ou se tu não me ensinaste alguém ensinou, talvez na escola, talvez só o pai, talvez os avós, talvez tu não quisesses sempre a verdade, ninguém quer a verdade quando perguntam queres ficar com a mãe ou com o pai ou achas que a tua mãe te ama, mas eu sabia que as boas meninas e bons meninos tinham de dizer a verdade e por isso talvez a tenha dito na mesma e tu não tenhas gostado, talvez te tenha dito que me estavas a magoar, talvez tenha dito ao pai que me tinhas gritado, talvez te tenha feito chorar, não entendi o que tinha de fazer, desculpa.
/ tenho medo de nunca parar de te magoar. tenho medo de nunca deixar de te fazer chorar. eu tento e tento e tento, mas demoro mais uns segundos a responder à pergunta que me fazes, ou estou cansada, ou não mostro o entusiasmo que devia, e tu choras e vais embora sozinha e eu sinto-me tão culpada que choro também. é uma maldição é uma tragédia é uma sentença vitalícia, como se alguém me tivesse passado uma faca por cima da barriga quando nasci e me tivessem talhado o destino ali mesmo, e como se alguém te tivesse feito o mesmo a ti, trinta e cinco anos antes de eu nascer, quando tu nasceste. tu tens trinta e cinco anos e eu estou na tua barriga e em breve, logo no início de janeiro de 1995, vou nascer prematura porque te vou fazer ficar doente e te vou pôr em risco e o teu corpo não vai aguentar ter-me mais dentro dele, e vão ter de me tirar e será uma urgência, uma urgência para mim, uma urgência para ti, e durante um pouco o mundo vai parar e vamos ter de lutar para perceber se podemos existir as duas neste mundo, e o pai terá de escrever num papel quem fica, caso não possamos ficar ambas, e muito mais tarde vais-me dizer quem ele escolheu, e às vezes vais dizer que foste tu, e às vezes vais dizer que fui eu, e eu quero pedir-te desculpa se ele me escolheu porque embora digas claro que ele tinha de escolher a bebé, eu sinto que talvez nunca me tenhas perdoado e que embora tenhamos as duas ficado cá, durante muito tempo não entendemos nem como nem porquê. talvez ainda não entendamos totalmente agora. a primeira vez que te fiz chorar ainda estava na tua barriga, a primeira vez que te fiz chorar eu podia nunca mais ter existido, e assim essa teria sido a primeira e a última e a única vez que te fizera chorar e nunca te irias lembrar de mim por te ter feito rir, esteve só na minha barriga e mesmo assim toda a sua vida fez-me chorar. nunca chegarias a ter uma filha nos braços, mas havias tê-la tido no ventre e ela ter-te-ia feito chorar, mas ao menos foi só aí, não durou para sempre. mas depois, afinal, eu nasci e fiquei cá e continuei a fazer-te chorar. but I think I saved you for a little bit too, before I was just another You.
/ descubro que há mil maneiras de as filhas fazerem as mães chorar, ou pelo menos de eu te fazer chorar a ti. não sei se alguém fez as contas para saber quantas maneiras existem de as mães fazerem as filhas chorar, mas parece-me que não. faço-te chorar por ser como tu e não ser suficientemente como tu: tenho o teu nariz tenho o teu cabelo até tenho o teu corpo, mas tenho os olhos do pai e talvez seja isso que vês quando olhas para mim e que passarás toda a vida a ver, os olhos do pai, como dois faróis acesos na estrada como dois olhos de raposa antes de saltar para te morder a cabeça. talvez nunca consigas superar olhar para mim, como se eu fosse a coisa que mais te assombra na vida. talvez seja. talvez sejam os meus olhos, o que a minha cara diz, o facto de eu ser tu, ser tão tua filha que nos podiam abrir e seríamos como duas metades de uma romã, sangrentas vermelhas retalhadas como elas, o facto de eu não ser tu, o facto de eu ser filha do meu pai, o facto de eu não poder deixar de ser filha do meu pai, o facto de eu ser a melhor e a pior filha que podia vir ao mundo por ser filha do meu pai. fiz-te tão triste que não me deste abraços durante anos e eu nunca mais me meti na tua cama para enroscar os meus pés em ti e sentir o cheiro a creme nas tuas mãos, deixei-te tão triste que deixaste de gostar de mim, talvez, e não faz mal, faz sentido, não gostamos de quem nos deixa tristes, não é, mãe? fiz-te tão triste que não quiseste viver comigo e não quiseste saber quando deixei de viver contigo. deixámos de nos falar e passei a ter uma chamada tua no telemóvel apenas uma vez por ano. desculpa mãe, fiz-te tão triste que quiseste deixar este mundo, que quiseste engolir aqueles comprimidos todos, era dia da mãe e tu quiseste deixar de ser mãe, foi porque eu era tua filha? desculpa não ter feito fazer com que quisesses ficar. desculpa desculpa desculpa. eu era só uma criança era só uma adolescente estava só a tentar crescer.
they say skin on skin helps babies bond / did you hold me wrong? / I don’t think you did, was I always like this? / I don’t think I can love like anybody wants1
/ eu sei que às vezes te fiz chorar porque te queria fazer chorar, e por isso escrevi aquelas coisas horríveis no diário e por isso quis pintar o cabelo de escuro para não ser como o teu e por isso disse que queria ficar com o pai e por isso gritei e fugi e quis fazer um piercing no nariz mesmo depois de tu me dizeres que eu ficava horrível, e por isso contrariei-te à frente das pessoas e defendi o pai e disse que o que estavas a dizer era mentira e tu choraste ainda mais e gostaste ainda menos de mim. desculpa, eu só queria que voltasses.
/ tens trinta e cinco anos e estou na tua barriga, mas e se tu tivesses trinta e um e eu pudesse voltar atrás, seria 1989 e estaríamos no verter de mais uma década, os pés a escorrer das bordas do mundo, e eu tivesse trinta e um também e te pudesse conhecer quando tinhas a mesma idade que eu tenho agora, o que me dirias? o que é que eu te diria? seríamos iguais ou tão diferentes que tu nunca acreditarias que um dia serias a minha mãe? mesmo que eu te dissesse muitas e muitas vezes, sou a tua filha, vou ser a tua filha. e se eu te dissesse que seria a tua filha um dia, ainda quererias que eu fosse tua filha? olharias para mim e acenarias com a cabeça e aceitarias ou depois de me veres decidirias que não? ficarias feliz que soubesses que ias ser minha mãe? noutra vida tu tens trinta e cinco anos e tens um bebé na barriga, mas não sou eu, é outra menina bonita inteligente perfeita que nunca te fará chorar e aí serás mãe e eu nunca serei filha. tens trinta e cinco anos e quarenta e cinco e sessenta e digo, só estou aqui porque me quiseste, sempre disseste que querias uma menina, eu sei, já ouvi essa história, contaste-a a mim, mas e se era outra menina? tens trinta e um anos e eu pergunto-te isto, antes de tudo acontecer. eu tenho trinta e um anos e eu quero perguntar-te, se eu um dia for mãe vais ficar feliz por mim ou vou fazer-te chorar outra vez.
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cradle, Paris Paloma, 2021
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