RSS Amplifier

the years · Jan 25, 2026

growing pains

0
Sign in to vote or save

carolina novo · the years

em criança, e depois também em adolescente, havia noites em que as dores de crescimento não me deixavam dormir. nessas noites, esfregava violentamente as pernas, massajava-as, levantava-me para as untar com alguma coisa, abraçava-as contra o peito enquanto chorava de desespero. a verdade é que tive muitas noites difíceis na infância e adolescência, isto antes de, no início e meados dos meus vintes, a deusa do sono me ter abençoado e ela própria me embalar todas as noites naqueles braços compridos e lindos que ela tem, me beijar as pálpebras cerradas e me pousar as borboletas do sono nas pestanas (esta crença trouxe-a da minha infância, quando pensava, por alguma razão, que as borboletas traziam o sono; a deusa aceitou o mito e incorporou-o nos nossos rituais noturnos) e se assegurar de que eu nunca teria de passar mais de dez minutos a tentar adormecer, que me manteria a dormir nos seus braços e que nada me perturbaria até de manhã. quando cheguei aos finais da década de vinte, e depois passei para a de trinta, a deusa desapareceu. não sei bem o que aconteceu. talvez o tempo também passe pelas criaturas divinas. talvez ela fosse mais velha do que eu pensava então. talvez estivesse cansada. talvez se tenha reformado. talvez tenha morrido. não posso ter a certeza, mas com esta tragédia por resolver, voltei a ter problemas a dormir. entre todas as semelhanças que viria a encontrar entre a minha adolescência e infância há muito idas, não esperava que isto fosse uma delas. nem as noites de insónia, nem as dores de crescimento. elas voltam também, sabem. quando os nossos pais nos disseram que em breve desapareceriam para sempre, e quando as nossas avós nos garantiram que o nosso corpo só cresceria até aos vinte e um anos e que depois não teríamos mais dores nos ossos até chegarmos à idade delas, o que faziam era dar-nos mentiras amorosas, quentinhas, feitas de algodão, daquelas que precisávamos para de facto sobrevivermos aos anos que estavam para vir. mas agora, e se ainda tivermos a oportunidade de lhes voltar a perguntar, talvez as respostas sejam um pouco diferentes. talvez nos admitam que algumas dores de crescimento não desaparecem. e que outras surgem. talvez nos digam que sim, é verdade, ainda continuaremos a abraçar as pernas contra o peito para conseguirmos adormecer.

fiz trinta e um anos há cerca de três semanas, mesmo no início de 2026. sempre senti que havia algo estranho e um pouco inquietante em celebrar o aniversário quase ao mesmo tempo que o mundo inteiro celebra o ano novo, é uma justaposição esquisita, uma passagem a dobrar, como se virássemos a página do calendário duas vezes num mesmo movimento. o meu aniversário calha num desses dias confusos, nublados, sonolentos, cor de manteiga e escorregadios que povoam o início dos anos. as pessoas ainda estão a acordar e está tanto frio. também me cabe a mim rasgar o ano, abrir caminho para todos os aniversários que estão para vir com o meu; não conheço ninguém que celebre mais cedo no ano do que eu. de alguma forma, isto também sempre me fez sentir o dobro mais velha do que as pessoas à minha volta, como se fazer anos tão cedo me fizesse envelhecer mais rápido (na verdade faz, mas adiante); quando chega o último mês do ano, e, por fim, as últimas das minhas amigas próximas celebram os seus aniversários e chegam à minha idade, eu já estou quase, de novo, um ano mais velha. é uma corrida, é nadar sem respirar, é um jogo que nunca posso ganhar, é o tempo a ser um bocadinho mais cruel para mim. quero apanhá-lo e nunca poderei. sempre que faço anos, as minhas amigas escrevem-me um postal. em cada um deles, felicitam-me por ser a primeira a abrir o caminho para um novo ano e um novo aniversário para todas — o dos trinta, o dos trinta um. é uma honra e dá-me muito medo, também. este ano, aconteceu. não tive de esperar pelo fim de 2026 para me sentir mais velha que as restantes; tal ocorreu em simultâneo com o festejo, as velas apagaram-se e eu já sentia a idade a pesar, de facto, em mim. é estranho e confuso — até agora, os aniversários eram coisas flutuantes sem consequências reais. agora, pela primeira vez, sinto-me realmente mais velha do que me sentia aos trinta, e sinto que o tempo começou a correr a um ritmo que não consigo acompanhar; tentei e não lhe consegui sequer agarrar nos tornozelos, olhei para trás e o carro já tinha partido.

já há alguns anos que celebrar o aniversário é uma fonte de felicidade para mim1, uma ocasião para reunir as pessoas de quem gosto, pensar no que a vida me trouxe até então, e feliz, de coração a rebentar, e saltitante, morder as velas debaixo da mesa e pedir o mesmo desejo de sempre, ou uma qualquer variação deste. quando entrei na minha nova década, no ano passado, estava totalmente preparada para tal — já tinha a consciência plena de que a maioria das coisas melhora com a idade (algo que seria confirmado ao longo do ano), sentia-me mais segura, mais confiante, mais eu mesma. mas chegar aos trinta e um não é, nem de longe, nem de perto, tão entusiasmante como chegar aos trinta. o pobre número sofre por estar ali mesmo ao lado de uma data tão importante, e acaba coberto pela sombra do “big one” — é como fazer dezanove anos depois dos dezoito, vinte e seis depois dos vinte e cinco. não há fogo de artifício e estamos todos um pouco mais cansados, e, assim, a celebração cai nessa bolsa grande dos ‘mais um, não é?’, em vez de ser acomodada na caixa bonita dos ‘ui, este é que é! só se faz _______ uma vez na vida!’. tenho de confessar que senti um pouco falta todo o brilho e a infinitude de possibilidades que senti quando fiz trinta. na verdade, de modo mais geral, tenho sentido saudades da passagem de 2024 para 2025, e, consequentemente, da transição dos vinte e nove para os trinta. não exatamente saudades do que aconteceu, pois duas das melhores coisas que já me aconteceram ocorreram em 2025 (e, como a vida é tão engraçada, algumas das piores coisas que já me aconteceram, ocorreram em 2024), mas saudades de como me sentia, e, sobretudo, de como me sentia em relação a mim mesma. tenho saudades de me sentir tão viva como me sentia nessa altura. agora, sei que estava prestes a entrar naquele que seria um período de viragem da minha vida; então, não fazia ideia, mas em retrospectiva, quase parece que já o conseguia sentir, que o via a brilhar no horizonte, que lhe podia tocar com as pontas dos dedos. há pouco tempo, estava a fazer scroll na galeria do telemóvel e revi um vídeo gravado na festa de aniversário de uma das minhas melhores amigas, demorei-me nas fotos das minhas férias em Sevilha, vi uma e outra vez bocadinhos da minha defesa de tese, e ao ver-me tão saudável e radiante, senti-me invadida por um luto repentino. parecia que alguém tinha enfiado uma grande bola de lã na minha garganta; quase me engasguei, quase sufoquei. foi um daqueles anos; um daqueles em que me senti tão horrível mas também tão produtiva, mais bonita, mais poderosa.

há algo de muito pesado em não me reconhecer no espelho, em não saber o que se passou com o meu aspeto, que me faz sentir tão pequena e insegura como se voltasse a ser adolescente. há algo de ainda mais pesado em não reconhecer o meu próprio cérebro, em sentir falta de o sentir fresco e vivo como antes, já que agora, na maior parte dos dias, o sinto bloqueado, confuso, estéril. tenho saudades de como me sentia, mas estou também a tentar relembrar-me que o futuro é sempre mais brilhante antes de, de facto, começar, quando ainda tarda e nos queima as pálpebras de tão colorido; faz sentido que eu me sentisse com tanta vida naquela altura. também compreendo que estes aniversários mais calmos, ensombrados, sem cerimónia, como o trinta e um, são, na verdade muito importantes. relativamente ao que de facto aconteceu dentro dele, 2025 tem de ser o ano mais feliz de todos. as coisas que ocorreram durante o seu curso, lembrá-las-ei para o resto da minha vida; as coisas que ocorreram durante o seu curso mudaram já o resto da minha vida. e, ainda assim, sinto-me tão cansada que alguns dos sentimentos parecem chegar com atraso; isto se chegarem de todo. por vezes, isto mantém-me acordada durante horas à noite, olhos postos no teto enquanto o diabo me sussurra ao ouvido, se não consegues sentir-te com energia e vida agora, então nunca vais!. mas eu conheço bem o diabo e mando-o calar e mando-o ir tratar dos seus labores para outro lado, e tento equilibrar estes pensamentos selvagens com o conhecimento de que há algo de muito importante a ser apreciado no tempo que vem depois da espetacularidade das celebrações anteriores, quando o pó assenta e os balões caem e, com as nossas amigas, varremos o glitter que cobre o chão depois da festa. talvez estes aniversários não nos atinjam com o mesmo impacto, não nos levantem pelos braços e ponham a rodopiar no ar porque agora já não é sobre as grandes revelações e surpresas, mas sobre viver com o que elas trouxeram. não é a descoberta fresca e a picar na língua, mas a calma docinha de saber, esta é a minha vida agora. é importante relembrar que coisas incríveis acontecerão durante estes anos mais normais, transitórios e estranhos, e que no meio do cansaço e de alguma tristeza e de algum pesar, será mais difícil pularmos para cima e para baixo em êxtase, mas isso não significará que essas mesmas coisas são menos especiais. talvez a felicidade seja um bicho muito mais calmo do que pensávamos.

a segunda adolescência levar-te-á de volta à primeira; mas agora, em vez de descobrires todos esses livros, filmes e bandas musicais pela primeira vez, voltarás a eles sabendo, melhor do que nunca, como te salvaram e continuarão a salvar. voltarás com mais certezas, com mais paixão até, e com muito menos vergonha ou necessidade de justificar o que seja. este período trar-te-á muitas coisas bonitas. dar-te-á de volta as dores. ensinar-te-á coisas importantes, como naquele dia em que te deste conta que crescer não significa — e ninguém te deve fazer sentir o contrário — deixar de ser vulnerável ou tímido. também eu, algures nos últimos anos, me dei conta de que podia ser calada e introvertida durante toda a minha vida, e isso não fazia de mim menos capaz ou interessante; estou segura disto por muitas razões, mas a mais importante é que uma das pessoas que mais amo neste mundo, o meu pai, é um homem calado e introvertido desde sempre. assim podem dizer-me as vezes que queiram, és igual ao teu pai; na realidade sou mesmo. igual ao meu pai.

coincidentemente ou não, janeiro de 2026 também marca o início da reforma da minha mãe. não estava habituada a tê-la tão por perto; há anos que não acontecia. e, quando digo anos, são realmente anos, um montão deles, talvez quinze, desde uma altura em que a nossa relação era uma batalha aberta, uma guerra contínua, uma ferida que não parava de sangrar. fui a casa passar o natal e fiquei para o ano novo e para o meu aniversário. senti-me sufocada, nervosa, no limite, e, logo de seguida, terrivelmente culpada, porque sei que devia estar agradecida por ela estar finalmente em casa, feliz por ela poder descansar depois de trabalhar tanto, a sentir-me sortuda por ela fazer tanto por nós. porque sei que ela está a tentar, e se sente mal também, e eu tenho pena dela. olho-a e ela não é a mulher que conheci toda a minha vida, a mulher que podia calar-me com um suspiro só e que fazia uma sala inteira parar só por entrar nela. sempre me senti intimidada pela minha mãe; quando não assustada, pelo menos sempre intimidada. às vezes, quando as pessoas que sabem da minha história, da nossa história, conhecem agora a minha mãe pela primeira vez, dizem-me que lhes custa imaginá-la como a descrevi. eu entendo. às vezes digo, bem, a verdade é que só apanhaste os anos bons, quase irritada sem saber porquê, a defender algo que nem sei bem o que é. obviamente, este período a que chamo os anos bons é incrível; a minha relação com a minha mãe mudou radicalmente, passando de quase não-existente para algo bom, e eu iniciei essa longa viagem de a compreender e perdoar. foram os anos bons que nos deram uma segunda oportunidade, que asseguraram que não nos perdemos uma à outra para sempre. mas sei que é difícil para os outros conciliar a imagem da minha mãe agora com o que lhes contei de antes, e às vezes sinto-me zangada com isso porque sei que tal também dificulta que vejam com clareza o inferno pelo qual ambas passámos na nossa relação. do mesmo modo, dou por mim irritada e inquieta perante esta nova versão dela, mais velha e algo confusa, e apanho-me a ressenti-la por não estar tão fresca e ágil como sempre, por não estar igual ao que sempre foi, mas sei também que isto é extremamente cruel e injusto da minha parte, a nível pessoal e não só, pois castigar alguém por envelhecer é o golpe que a sociedade já desfere todos os dias nas pessoas, nas mulheres; não é preciso mais o meu. apercebo-me, também, de que embora tenha passado os últimos anos a tentar compreender a maternidade e a filhandade, a entender que levo comigo o que leva a minha mãe com ela, e que ambas somos filhas e que o mundo e o sangue não perdoam às filhas, de alguma maneira deixei de a ver como uma mulher fora isso. tornei-me boa e empática com a mãe e com a filha que ela é; não tanto com a pessoa.

vejo a minha mãe a arrancar pele atrás de pele à medida que passa a vida; vi-a a tornar-se mãe depois de deixar de ser esposa, quando ela e o meu pai se separaram, e vi também a raiva e a tristeza nos olhos que isso provocou; vi-a a voltar a ser filha quando e só quando morreu a minha avó, sua mãe; e agora vejo por debaixo da esposa e da mãe e da filha e da pessoa mais trabalhadora que conheço, que trabalhou seis dias por semana durante mais de quarenta anos, primeiro a limpar casas e depois a cozinhar em restaurantes durante doze horas por dia, a gastar aquelas mãos duras e fortes que conheço, mãos que ficaram assim por terem passado uma vida a segurar as casas e as famílias e os negócios dos ricos. pela primeira vez, creio, vejo-a frágil e assustada, e não sei o que fazer. quero saltar em frente, não sei para onde, e com as minhas próprias mãos quero agarrar o tempo e impedir que passe, quero que a terra pare de girar, quero interromper este galopar cruel da vida. mas dou por mim a atravessar a cortina do tempo, fina como uma membrana, e a sair pelo outro lado, e nada acontece.

ter a minha mãe tão presente pela primeira vez desde que tinha dezassete ou dezoito anos põe-nos nervosas a ambas, e damos por nós a discutir como se tivéssemos, de facto, volvido a esses tempos. é algo tão novo para mim, ou estava tudo tão bem enterrado, que me assusta; parece que soltei uma besta que agora tenho de aprender a domesticar, a alimentar, a matar. de certo modo, parece que volto a um estado anterior a toda a terapia, a um lugar onde não me conheço, porque, na verdade, nunca enfrentei esta versão crua, incontrolável e instável de mim mesma. envergonho-me dela e estou consciente de que se abriu diante de mim outro caminho de cura mental que terei de percorrer, agora aos trinta e um anos. a nova adolescência abre e reabre várias feridas e não vais saber como se cozem estas; terás de aprender como as cerrar. a nova adolescência mostra como tudo é sempre e para sempre um assunto inacabado.

com a minha mãe em casa, as rotinas mudam, e o tempo também; agora, parece mais longo, achatado, sem direção. e talvez devido, também, à minha aversão à mudança e à minha necessidade de estrutura, isto pesa-me. mas sei que, no fundo, o que realmente me incomoda é o que tudo isto significa. eu sei que isto é o fim de uma era. há uma altura em que os pais vão trabalhar todas as manhãs; especialmente quando ainda vivemos com eles, é isso que estrutura o dia, a casa, o nosso tempo e o deles, e é o que dá à vida uma sensação de previsibilidade e segurança. os nossos pais irem trabalhar parece eterno. e depois não é. depois chega a altura em que deixam de ir trabalhar, e o ritmo quebra. o passado torna-se irreparável e irrecuperável, e, de repente, a infância volta a terminar. as manhãs nunca mais tornarão a ter o mesmo som. agora, a minha mãe já não é sempre a primeira a levantar-se, e o que assinala o início das minhas manhãs já não é o cheiro a café e a torradas que preparava ou o barulho da colher a bailar na caneca, e nunca mais esperarei até ouvir os seus passos na entrada de casa, os saltos altos a picarem o chão (desde que tenho memória, a minha mãe levava saltos altos postos para toda a parte, e só recentemente deixou de os usar; também isso me provocou uma tristeza inexplicável) para finalmente me deixar escorregar para o sono, enquanto penso, está em casa.

e, com tudo isto, eu envelheço também; nunca mais voltarei a ser criança ou adolescente. todos o sabemos há anos e no entanto, de alguma forma, é como se o aprendêssemos agora pela primeira vez. alguém quebrou o feitiço da eternidade. agora somos adultos, os nossos pais estão a envelhecer e há uma tristeza que invade todas as divisões da casa. lembro-me de quando o meu avô se reformou. na altura, não pensei muito no assunto — era criança, tinha talvez seis anos. não me recordo da idade do meu avô então; talvez estivesse perto dos setenta — o meu avô adorava trabalhar e fê-lo provavelmente o mais o que pôde —, mas, agora, duas coisas me parecem inacreditáveis: que ele fosse tão novo (a minha mãe tem agora quase a mesma idade e tudo parece muito diferente, talvez também porque ela é mãe e ele era avô e, de alguma maneira, esses papeis não deviam sobrepor-se em idade, pelo menos é o que o meu cérebro infantil me diz), e que, apenas dez anos depois, tenha morrido. os números não fazem sentido nenhum, como, aliás nunca fazem quando se trata do meu avô. foram só dez anos com ele em casa, mas na minha mente esse período foi muito muito mais comprido, praticamente eterno; pelo que sei, ele poderia ter estado reformado desde que eu nasci. para mim, sempre foi assim porque ele estava sempre lá. porque ele sempre foi o avô (o bô), não um homem com um trabalho e uma vida à parte. na minha memória, o meu avô está sempre em casa, com todo o tempo do mundo para ser avô: para me ir buscar à escola, para me ajudar com os trabalhos de casa, para cultivar a horta. é estranho pensar que teve uma longa vida antes de tudo isso, mas teve. recordo-me da festa de despedida que organizaram para ele e do relógio bonito que lhe deram como prenda de agradecimento e que, quanto sei, está ainda naquela caixa de veludo, algures no quarto da minha avó. acho que nunca o usou, só o guardou, e lembro-me de que às vezes lhe pedia para abrir a caixa para o poder ver e pensar o quão fixe era o meu avô. agora a minha mãe também está reformada, mas o sentimento não podia ser mais diferente. também porque agora já não sou criança e ninguém me vai buscar à escola para me ensinar a tabuada; sou adulta e não estou preparada para nada disto. assusta-me a perspetiva de a minha mãe envelhecer; assusta-me ver como já envelhece, como se torna mais dependente, menos jovial e ativa do que antes. olho para ela e assusto-me ao pensar no dia em que precisará que cuide dela, e, talvez de forma muito egoísta, quero gritar e fugir, porque sinto que mal aguentei ter de cuidar da família da primeira vez, ainda agora escapei, ainda agora consegui, às vezes sinto que não escapei de todo.

no quarto onde fiquei durante as festividades — não o meu quarto habitual, já que desta vez estava de visita com o meu namorado —, duas fotografias da minha mãe estão penduradas na parede, mesmo em frente a mim. uma delas foi tirada no dia do seu casamento; nessa altura, ela teria mais ou menos a idade que tenho agora. eu olho e olho e olho. houve um momento em que olhei para minha mãe e a vi como filha, e comecei a entendê-la. agora que sou criança e adolescente e adulta tudo numa só, sinto-me mais filha do que nunca, e já não o consigo fazer bem.

continuo a abraçar as pernas contra o peito para conseguir adormecer.

costumava pensar que isto ficava para trás ao crescer.

1

nem sempre foi assim; a transição para esta fase começou, entre outras coisas, depois de ter lido o livro A little life, também durante um janeiro pesado, há uns anos, e ter começado a olhar para os aniversários como estas ocasiões brilhantes, gloriosas, cobertas de purpurinas, que só temos uma vez por ano. cada um deles parece tão insignificante comparado com a dimensão total da vida — quando tivermos oitenta anos, qual será a diferença entre ter trinta um e trinta e dois? — ; ao mesmo tempo, cada um deles é tudo, é uma vida inteira por si só. porque mesmo que aos oitenta olhemos para trás e não nos lembremos da diferença entre ter trinta e um e trinta e dois, o mais provável é que, independentemente do que fizemos durante a vida, achemos que os oitenta chegaram demasiado rápido. que não vimos o tempo passar. ainda no outro dia tínhamos cinquenta, quarenta, trinta, vinte. todos os anos chegam demasiado rápido, não importa há quanto sabemos que eles chegarão. por isso, que arma melhor temos contra a repetição, a apatia, e a vida a escapar-nos entre os dedos, do que contar e celebrar cada um dos nossos aniversários, lembrando e lembrando quanta sorte temos?

Nenhuma publicação

Read the original on theyears.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.