mal caiu o escuro, lá foram as mulheres em direção ao rio, passinhos curtos mas de pressa, todos ao mesmo tempo, tac tac tac tac tac, todas elas em silêncio duro como breu até uma, esticando o pescoço como uma galinha intrometida, querer saber, ‘mas quem é a criança?’. a mulher que a antecedia na fila rodou nos calcanhares e virou-se tão de rompante que a outra se ia indo para trás, ‘que te interessa quem é? se não gostares deixas morrer, é?’. a outra soltou um guincho ofendido, calou-se de vez. estavam todas bem domadas; se Mercedes pedia, iam. em silêncio, ainda que todas questionassem, claro, mas em silêncio, até uma não aguentar, bufar, e por fim dizer, ‘está cá a Paloma com a criança’.
aquela noite em quase nada era diferente de tantas outras em que as mulheres se haviam juntado para os seus labores – no meio do monte, no rio, onde fosse preciso, dependendo da encomenda e da necessidade; lugares distintos chamam bichos distintos, mandam para o lado de lá coisas distintas também. simultaneamente, esta noite diferia das últimas no que de mais central tinha, no seu caroço, pois fora Mercedes a pedir ajuda, e ela não lhes pedia o que quer que fosse há anos. desde a tragédia. todas sabiam que Mercedes havia continuado os trabalhos, mas nunca mais se juntara às outras mulheres; o que fazia, fazia sozinha. para quem não sabiam elas, mas sabiam que o fazia, pois sempre que a viam, os olhos saltavam-lhes de imediato para as mãos longas adornadas com anéis dourados de Mercedes, e as unhas ainda estavam lá, compridas, aguçadas nas pontas, gadanhas não descuidadas mas assim de propósito talhadas, para ferramentas limadas, de modo que as pontas picassem como um engaço e escavassem como qualquer pá ou pata de animal. todas elas as tinham assim; há buracos que só se abrem e fecham com as mãos. portanto, Mercedes algo continuaria a fazer, mas sozinha, e todas elas, embora soubessem bem que cada mulher tem os seus assuntos privados, e que nada de mal tinha de vir daí, há trapos que se lavam em casa, também já tinham visto muito, e por experiência ou proximidade admitiam que normalmente o que empurra uma mulher para longe do grupo e a põe a agachar-se e a abrir covas sozinha ou é desespero ou loucura, ou ambos.
desespero ou loucura, isso era com ela, também quem a podia culpar, depois de tudo, da desgraça familiar, da desgraça comunitária, tão juntas que se pareciam comer uma à outra. fora há uns cinco anos, mais coisa menos coisa, e quando se deu a segunda não havia sequer passado uma semana desde que Mercedes entrara pelo cemitério adentro e se atirara à cova fresca, e com as unhas se lançara a revolver a terra e a gritar para que a deixassem vê-lo, que com aquela chuva, havia de estar todo molhado. algumas mulheres que lá haviam estado diziam que a haviam visto a encher os bolsos e a boca de terra, daquela terra onde estava enterrado o filho Jacob, e que haviam sido precisos quatro homens para a arrancar dali. foi por essa altura, então, que realizaram pela última vez uma benzedura juntas, pelos filhos gémeos e morrinhentos de Cecília. junto ao rio passaram-nos de braços em braços; umas sete voltas completas já haviam de ter sido dadas, quando uma das crianças regressou a Mercedes. mas Mercedes, então, em vez de reta e a dizer as palavras que devia, baloiçava para trás e para a frente e dizia algo que primeiro todas acharam ser a habitual novena, e depois perceberam ser Jacob Jacob Jacob, aqui dois e eu sem nenhum. as mulheres estrebucharam, ‘ai o que diz ela’; felizmente Cecília nada ouvia, numa transe de choro desde que chegara, mas todas as outras sim, lá continuava ela sem sequer passar a criança. naquele desconforto grosso e carnudo que crescia no meio delas, primeiro tentaram chamá-la, depois abaná-la, até uma soltar um guincho de desespero, olhem como se está a pôr o bebé e só então se puseram em cima da mulher para lhe tirar o menino dos braços, que, de apertado como se fosse uma esponja, estava agora roxo em vez de amarelado. e ela sem se calar, enquanto as outras tentavam compor as coisas, ainda que o mal estivesse já feito – a criança morreria pouco depois; Cecília ficaria com um e Mercedes sem nenhum, de facto.
com um filho seu perdido e o de outra atirado para o mesmo buraco, quando nessa mesma noite, vinda do rio, Mercedes regressou a casa, encontrou o cão preto à sua porta. passou pelo bicho anuindo e entrou, para ver caída a tesoura que pendurava atrás da porta. ‘mau, mas que é isto’, ainda deve ter pensado para si mesma, sabendo muito bem o que era, que deitadas as coisas tortas ao mundo, coisas tortas vêm atrás de nós. e que fizera ela no rio senão torcer tudo? logo depois, sob a luz da casa de banho, viu que as unhas estavam escuras; levando os dedos ao nariz sentiu o cheiro de cruezas queimadas, cheiro sem igual. um arranque súbito levou-lhe a comida toda do estômago até à boca; outro fez tudo escorrer da boca para a pia. sentia o corpo a tremer. largos minutos passaram até conseguir puxar o ar pela traqueia acima, recuperar a vida que por momentos também se parecia ter ido. finalmente, lavou a boca, vestiu a camisa de dormir, deitou-se na cama toda virada para cima, mãos cruzadas sobre a barriga. doía-lhe todo o corpo, tentou fechar os olhos e só via dentes e cabelo, mas ainda assim persistiu, tomou os seus comprimidos para dormir, ajeitou a almofada, cerrou as pálpebras de novo, em tudo isto a solenidade e a calma de quem já sabia o que tinha de fazer de ali em diante, estava fechado por ela.
para fins de fazer o que tinha de fazer, levou de casa deles uns quantos dentes de leite guardados numa caixinha cor de pérola, assim como bocados de cabelo recém cortado que encontrara no lixo da casa de banho. aquelas mechas que se enrolavam nas pontas em ondas subtis e douradas faziam-na agora, pela primeira vez, conjurar-lhe uma existência, conceber a sua fisicalidade. às vezes, quando se queria embalar a si mesma, imaginava que depois de mandar Miranda embora, ameaçando-a que lhe atirava com a faca à barriga, o bebé que ela carregava desaparecera também, e assim amansava a sua culpa. como nunca o vira, podia tentar fingir que ele não era nada nem ninguém, que não lhe pertencia, nem a Jacob, como aliás como gritara, naquela tarde viscosa, a Miranda, namorada do filho, agora também ela sem Jacob mas descobrindo-se grávida dele. o Jacob não tem filhos, não há mais filhos senão ele. e verdade seja dita, até à noite da desgraça com Cecília, pouco pensara no neto. mas agora, ele aparecia-lhe todas as noites em pesadelos, sem cara nem corpo, uma mancha branca, só boca cheia de terra. Mercedes sabia bem que não se ignora o que nos dizem, aceita-se e faz-se o que se tem de fazer. por isso pegou então no cabelo e nos dentes, meteu-os na bolsa que carregava, e saiu por onde tinha entrado.
entrou no monte, passou para lá de buracos já abertos e fechados e prostrou-se no chão para abrir mais uma cova com as unhas. um dente meteu lá dentro, assim como alguns tufos de cabelo. o resto guardou. mais adiante, baixou-se para alisar a terra com as palmas e nela fazer um círculo com as velas que trouxera. no meio delas, ateou uma fogueira, quase deixando que as chamas quentes e brilhantes lhe lambessem a cara, lhe derretessem o ouro das argolas, a pusessem em cinzas. mas havia trabalho a fazer. num aceno de cabeça, para si e quem visse, atirou lá para o meio os dentes e o cabelo, e sentou-se de pernas esticadas, até que tudo ardesse até ao fim. o ar cheirava a mel queimado, a fruta demasiado madura; os restos postos no fogo chiavam e estoiravam, o fumo tornava-se seboso e grosso. de vez em quando agarrava numa garrafa de álcool que tinha consigo e atiçava o lume, e os químicos faziam-lhe arder os olhos; pareceria que chorava. horas passaram até que dentro do círculo não houvesse mais do que terra preta; o dia rebentaria dali a nada. Mercedes baixou a cara até à terra, arrumou o que lhe pertencia, e levantou-se para ir embora. muitas vezes ainda voltaria, claro, aquela terra era gorda e gulosa. sempre fora; tirar de uma boca mandava que se desse de comer a outra, mas ultimamente engolia sem nunca se encher. Mercedes entendia-a: o que havia sido pedido não se pagava com pouco alimento, nem dentes nem unhas nem cabelos nem outros pequenos vivos chegariam, o festim era outro. escolhes um, perdes os outros. se dentes e unhas e cabelos chegassem, então ela não veria, durante os anos seguintes, sobrinhos, primos e afilhados a caírem como tordos; a terra queria o corpo todo e levava-o sem pudor.
agora, espalhadas pelas duas margens do ribeiro, veem chegar Mercedes e Paloma, que aparecida depois de tanto tempo, querem lamber com os olhos, olha como ela está, está uma mulher. olham embasbacadas, demoram até a darem conta de que Mercedes não vinha com os braços estendidos mas agarrados a algo, algo que no início não parecia nada porque em cor se confundia com o pano em que vinha embrulhado, mas que depois se revelou um corpo, um bebé, o corpo de um bebé. do outro lado do ribeiro, Mercedes pôs-se de frente para elas, e disse, ‘este é o filho da Paloma’. mais nada era preciso dizer.
vai então o bebé conta o peito de umas e outras, balança, balança, balança, embala, embala, embala, ai que quase que cai, embala, embala, embala, deixa cair, deixa cair, não!, agarra, agarra, agarra. de mãos molhadas de suor, as mulheres continuam, cospem as novenas, as velas ardem, a taça de azeite com água brilha. a criança é passada de braços em braços, para lá e para cá, para lá e para cá. do bebé, nem um choro, nem um som, nem movimento; era um vivo-morto, um morto-vivo, um coitado que tentavam salvar, pelos vistos estava assim desde manhã. ‘credo em cruz, credo em cruz, em minha vida só entra o que for de luz’; a novena embalava-lhes os corpos, sempre o mesmo lamuriar, interrompido apenas quando a língua seca se enrolava dentro da boca e tinham de parar para a molhar e só depois voltar, vade retro satana.
vade retro satana, tantas vezes Jacob e Paloma haviam ouvido a mãe dizer, especialmente quando ao regressarem do monte ela os fazia andar ao para trás, de costas, para manter o diabo longe, eles sabiam, embora não repetissem as palavras, isso ficava para Mercedes. em pequenos, acompanhavam a mãe até ao monte; a rapariga primeiro, de mão esticada para o irmão, que vinha atrás, brando e de olhos esbugalhados como um cordeiro. repetia baixinho, ‘coelhinhos, coelhinhos, coelhinhos’, como a irmã o ensinara a fazer para afastar pensamentos maus. ‘coelhinhos, coelhinhos, coelhinhos’, dizia ele então enquanto Mercedes abria a terra com as mãos e punha lá dentro o que tinha de ser posto, para logo tapar a cova e sempre com o mesmo aviso, o único que dava, ‘não é para olharem’. um dia haviam as palavras de lhe sair da boca tarde demais, e Jacob, inocente, olharia sem querer por entre as mãos da mãe e pelos olhos adentro lhe entraria a imagem de um tufo branco, indistinto, parecia pêlo, parecia um coelhinho. foi apenas um segundo; logo Mercedes terminou de cobrir o buraco, ergueu-se como um espeto e ordenou que iniciassem o caminho de volta, mas Jacob estava já num pranto, ‘mãe, mãe, não são mesmo coelhinhos pois não? pois não? mãe?’.
pois não. não pensava que ele pesasse tanto. agora, a Mercedes, o bebé parece chumbo, de tal modo que é facto difícil não deixar que caia. ainda assim tenta, continua a embalá-lo como um cordeiro e passa-o para o lado, ‘que viva, que viva, que viva’, também ela diz, mas ele pesa cada vez mais, quase se derreia com a criança no pano, escolhes esse, escolhes esse, escolhes esse, é como se ele pesasse todos os homens que não passaram de bebés. que festim. é a volta final, Mercedes recebe o bebé uma última vez. alguém sibila por ela, ‘que viva, que viva, que viva’, e ela tomba para a frente, como se a espinha se lhe rachasse com todo o esforço. fecha os olhos.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.