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👁️👄👁️ então, mas e se... · Jul 20, 2026

devolve meu dinheiro, sua cachorra

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Thais Basso · 👁️👄👁️ então, mas e se...

“isso aqui não tá adiantando de merda nenhuma” foi a segunda coisa que eu disse pra psicóloga; a primeira foi bom dia, porque minha mãe não me criou no lixo.

esse mês eu passei raspando

na sessão da semana passada, falamos sobre uma coisa que me acompanha desde quando pisei, pela primeira vez, numa escola estadual:

a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eu acordaria num quarto branco estofado até o teto, recebendo comida e água por um buraquinho na porta.

até os meus 12 anos de idade, a vida na escola municipal com menos de 150 alunos por turno era muito simples: meus amiguinhos eram filhos dos amigos dos meus pais; a gente colecionava os mesmos álbuns de figurinhas e as mesmas fotos de pixel estourado dos backstreet boys; todo mundo aprendia as coreografias do é o tchan durante o domingo legal pra dançar no intervalo da segunda-feira e, na paz do senhor, meus dias eram leves.

quando fui, e é bom dizer, obrigada a entrar na escola estadual, a primeira coisa que me recebeu naquele começo de ano fumegante, foi um puta portão de presídio — esse aqui, da foto, não entrega toda a opressão original: a escola era 100% cercada por grades de ferro, com vãos que mal deixavam passar a minha mão magrela.

e o projeto social estralando

diferente da minha escolinha municipal açucarada, que me incentivou a ler e a me expressar artisticamente, a escola estadual só me deu uma coisa:

não vou me prolongar nessa parte porque eu ainda acordo suando no meio da madrugada lembrando que tentaram me bater como ritual de batismo, então vamo deixar assim? vamo deixar assim.

voltando ao assunto da sessão, quando eu percebi que o mundo era muuuuuuuuuuuuito mais que a sexta-feira do brinquedo e mingau de chocolate, comecei a entrar nessa espiral de que talvez eu fosse (ou tava no caminho pra ser) meio maluca por não funcionar como as outras crianças; por passar um tempo considerável bem bem bem distraída com a capa do meu caderno, ou me deixar convencer de que sim, thais, você é esquisita às vezes — obrigada, bullying que era só brincadeira, obrigada. em tempo: não fiz força alguma pra ser aceita e, pra me ajudar, minhas amigas eram do bonde das diferentinhas, também:

a talita, por exemplo, que era uma entidade sagrada na matemática mas tinha vergonha de errar (nunca errava), e por isso, passou um ano todo sendo apagada pelos meninos mais burros que eu tive contato na minha vida;

a vanessinha, que não tinha como comprar lápis de cor e usava os meus, pra desenhar pokémons nas últimas folhas do caderno. transformei um desenho dela em adesivo e colei na minha agenda de 2015, que eu ainda uso quando tô na casa dos meus pais.

e a daiane, que tinha uma habilidade quase sobrenatural com crochê, e que quase foi impedida de entrar na mesma sala que eu por ter síndrome de down. ela não tinha. mas isso não impediu a professora de falar, bem alto, na frente de todo mundo, que ela precisava descer pra sala dos especiais.

meu deus do céu mulher

então, depois de abrir a minha vida com um cutelo na mesinha de centro da psicóloga, mal percebi que eu, sozinha, tinha engolido uma hora de sessão e só tínhamos tempo pra uma coisa…

…pra pergunta comedora de crânio que ela sempre me faz, em todo final de sessão, pois fiquem vocês também com essa pedrada:

nem sempre.

pensando em todos os casos absurdos de demissões em massa, injustiças no meio corporativo e gente boa sendo desligada do nada, trouxe uma categoria nova pra vocês:

toda semana, se meu humor e boa vontade assim permitirem, quero trazer histórias reais de travar a glote de ódio pra que, comigo, vocês possam amargar o capitalismo com (mais) dedicação.

26 ex-funcionários processaram a meta essa semana, os cara foram demitidos por um algoritmo que media “uso de tokens de IA”. quem tava de licença médica usava menos IA, é claro, e acabou entrando no corte por causa da métrica baixa.

outro caso igualzinho: 1 mês antes, uma juíza da califórnia decidiu que a workday (outra arrombadíssima) também vai ter que responder na justiça. a acusação é de usar IA na triagem de currículos e discriminar candidatos.

no post do felipe leão, ele diz que o problema não é usar IA, mas usar IA pra decidir sozinha, já que algoritmo não entende contexto. ele não sabe se a pessoa tava de atestado, se o fit cultural é bom, ou o “porquê” por trás do currículo.

vamo baixar a portinha por uns dias

e é claro que eu quero ajuda dos meus discípulos leitores pra definir a pauta da semana que vem:

A carregar...

boa noite aos de fé.

pro resto só boa.

Read the original on thaisbasso.substack.com

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