1.
Fui visitar a biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, numa tarde insuspeita de quinta-feira. O céu estava azul bonito, as ruas seguiam barulhentas com a infinitude de carros e ônibus acelerando, freando e buzinando, enquanto o sol quentinho desafiava o vento fresco. Passeei pelas estantes de livros, folheei alguns títulos, me decepcionei com a baixa quantidade de histórias em quadrinhos, me animei com a seção de histórias japonesas e voltei a pensar sobre algo que sempre penso quando estou na rua no meio da tarde: como tem gente fora de casa, ainda mais nesse horário!
2.
A primeira vez que pensei sobre o que significa ter tempo livre e o quanto isso é um privilégio dentro da nossa sociedade capitalista foi durante o mestrado em cultura visual. Saí do Sul para o Centro-Oeste brasileiro a fim de estudar histórias em quadrinho por meio de uma perspectiva queer e minha orientadora foi cirúrgica, numa tarde que bem poderia ter sido uma quinta-feira, ao fazer um comentário sobre o clipe de All the lovers, the Kylie Minogue.
No clipe, várias pessoas vão se encontrando nas ruas de uma grande metrópole estadunidense e começam um montinho humano de beijação – algo que em 2010 eu achei revolucionário, mas hoje leio como um grupo majoritariamente branco, pudico, higienizado e pau mole, sinal de que meu olhar e também minha expectativa para o que considero disruptivo já mudaram bastante em uma década e meia. Ainda bem.
O comentário da minha orientadora foi: como essas pessoas têm esse tempo livre no meio de uma tarde para se beijarem assim na rua? Elas não precisam trabalhar de tarde? Essa foi uma das primeiras vezes em que reparei que atitudes individuais não existem fora de um contexto social específico de relações, privilégios e demandas.
3.
Lá estava eu, numa quinta-feira à tarde perambulando pela rua, tirando foto de prédio e parando para comer um doce de padaria.
Essa possibilidade foi resultado de uma escolha consciente sobre a vida que quero levar daqui pra frente. Reduzi o tempo que dedico ao trabalho corporativo, algo que cresceu na minha rotina nos últimos sete anos e redefiniu não apenas o modo como vivia meus dias, como também a maneira que passei a narrar a mim mesmo.
Depois de anos dizendo que era difícil explicar com o que eu trabalhava, porque fazia de tudo um pouco e estava sempre pulando de galho em galho, me acomodei numa posição fixa: gestor de projetos. Fácil de explicar, porém sem paixão. Ganhando mais dinheiro do que jamais tinha recebido por outros trabalhos de forma consistente, mas abafando a chama vibrante que me mantinha empolgado para continuar vivendo.
4.
Uma das primeiras vezes em que percebi o quanto essa vida a serviço do universo corporativo não estava me nutrindo foi depois de alguns meses morando no Japão. Eu havia paralisado meu trabalho com o Ninho de Escritores para me dedicar integralmente à vida japonesa, mas as sementes que plantei desde 2014 continuaram germinando e fui convidado a dar uma palestra para professores da rede pública de ensino do estado de São Paulo.
Comentei sobre isso com meus amigos lá no Japão numa tarde qualquer – talvez até uma quinta-feira – quando estávamos prestes a atravessar uma rua. Lembro que meu amigo parou, abismado com a ideia de que eu fora convidado para palestrar. Ele simplesmente não sabia do meu trabalho com escritores, o que fazia muito sentido porque eu havia parado de oferecer esse serviço e, portanto, já não falava sobre ele no dia a dia.
Esse momento me relembrou o quanto a vida faz mais sentido pra mim quando cultivo um trabalho que tem propósito para mim e para os outros, e quando permito que esse fazer esteja presente na maneira como me apresento para o mundo.
Quero ser reconhecido pelas paixões que me movem.
5.
Passei o mês de junho em estado de excitação, aguardando o começo de julho e, junto com ele, minha nova relação com o trabalho. Continuo trabalhando como gestor de projetos, ou consultor internacional de gestão, mas esse não é mais o modo como me apresentarei às pessoas.
O que eu faço? Eu crio e sustento espaços para prática e diálogo sobre escrever e viver.
Isso me importa mais do que a segurança financeira de um único trabalho estável, e estou empolgado em dizer que tenho ideias e projetos novos borbulhando no forno criativo. Eu sinto como se tivesse reencontrado um pedaço de mim que estava perdido e semiesquecido.
Que delícia estar vivo neste momento.
Com carinho,
Tales
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